Em 2001, a Terra Média chegou aos cinemas de todo o mundo. Sob direção de Peter Jackson, os três livros de fantasia de J. R. R. Tolkien foram transformados em uma trilogia de grandes blockbusters. A franquia conquistou bilheterias expressivas e acumulou importantes premiações internacionais, como o Oscar e o Globo de Ouro. Mesmo após mais de duas décadas, os filmes seguem entre os mais bem avaliados da história, segundo o IMDb, marcando uma geração pelos efeitos visuais e práticos inovadores.

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Mas, anos antes, tentaram levar a história de Gandalf, Frodo e Sam para os cinemas. O autor J. R. R. Tolkien, que morreu em 1973, não chegou a assistir a nenhuma adaptação de língua inglesa de sua obra. Ainda na década de 1950, surgiu a proposta de um filme animado baseado no universo da Terra Média, com roteiro desenvolvido por Morton Grady Zimmerman. A ideia não foi bem recebida pelo autor que, descontente, teceu duras críticas à forma como sua obra havia sido interpretada.

“Ultrajante”

O agente Forrest J. Ackerman tinha sinal verde do próprio autor para trabalhar em um filme de animação adaptando O Senhor dos Anéis. Em uma das cartas preservadas de Tolkien, datada de junho de 1958 e enviada ao próprio Ackerman (e arquivada hoje na Marquette University), o escritor fez duras críticas ao roteirista responsável pela adaptação.

“Na minha visão, Zimmerman é totalmente incapaz de reproduzir ou adaptar os diálogos presentes no livro. Sua abordagem é apressada, insensível e grosseira. Evidentemente, ele não é um leitor atento. Tenho a impressão de que apenas folheou (O Senhor dos Anéis) e escreveu sua versão com base em lembranças confusas, com poucas referências reais ao material original.”

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Entre as diferenças notáveis, Tolkien apontou que, na animação, Zimmerman descrevia “Borimir” em vez de Boromir e transformava o mago castanho Radagast em uma águia. Embora Tom Bombadil aparecesse em seu roteiro (ao contrário da versão de Peter Jackson), Tolkien considerou isso inaceitável. E continuou escrevendo, tomado por frustração:

“Estou profundamente descontente com a extrema tolice e incompetência (de Zimmerman) e com sua falta de respeito pelo original (parece estar errado em quase tudo, sem qualquer razão técnica discernível). Mas preciso, e em breve precisarei, de muito dinheiro, e estou ciente de seus direitos e interesses; portanto, tomarei o cuidado de me conter e evitar qualquer ofensa desnecessária.”

Três décadas depois

Para a sorte de uns e o azar de outros, a adaptação de Zimmerman não seguiu adiante. Foi apenas em 1978, cinco anos após a morte de Tolkien, que a animação de O Senhor dos Anéis chegou aos cinemas, sob direção de Ralph Bakshi, com roteiro escrito por Chris Conkling e pelo autor de fantasia Peter S. Beagle.

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Curiosamente, a animação inspirou fortemente a trilogia de Jackson, como pode ser visto em várias cenas. Apesar do sucesso estrondoso dos filmes do começo dos anos 2000, nem todos consideram essa versão a adaptação definitiva da obra. Christopher Tolkien (falecido em 2020), filho de J. R. R. Tolkien e responsável pelo espólio do autor, também demonstrou insatisfação com os filmes. Em entrevista concedida ao jornal francês Le Monde, em julho de 2012, ele afirmou que a adaptação de Jackson teria deixado de lado a “beleza e a seriedade” presentes na obra literária original.

Ainda criticou o forte caráter comercial da franquia, afirmando que “a comercialização reduziu a zero o impacto estético e filosófico da obra”. Tolkien chegou a dizer que os filmes “destriparam o livro, transformando a obra em um filme de ação para jovens de 15 a 25 anos”. Tal pai, tal filho.

Jean Lindemute