Quando o remake de Vale Tudo ganhou vida na Globo e as primeiras escalações foram confirmadas, Taís Araújo foi um nome comemorado para interpretar a obstinada e sofredora Raquel. O papel que ficou com Regina Duarte na versão original de 1988 agora era de uma atriz negra.
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Antes da estreia da novela, a autora do remake, Manuela Dias, deu várias entrevistas dizendo que sempre imaginou Raquel como uma mulher negra.
— Naquela época só tinha 2 atores pretos na novela. Naquele momento, o nosso olhar era tão deformado pelo racismo estrutural. Eu acho que a Raquel sempre foi preta. Ela era branca pela nossa incapacidade social de dar o protagonismo para outra atriz preta — declarou ela na coletiva de imprensa.
Na história original, Raquel passou por todas as provações. Perdeu o pai, viu a filha vender a casa e fugir para o Rio de Janeiro a deixando na rua. Depois ainda acreditou que a filha era inocente, foi atrás dela, e passou por todas as humilhações possíveis.
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Compare a cena que Raquel rasga o vestido de Fátima com a versão original de Vale Tudo
Como Vale Tudo de 1988 discutia o comparativo entre honestidade e corrupção, Raquel era o retrato mais fiel de quem ganha a vida honestamente. Vendeu sanduíche na praia, abriu um restaurante e subiu na vida, com a força do próprio trabalho.
A interpretação carregada nas tintas dramáticas que Regina Duarte deu para a personagem fez dela uma heroína. Com o passar do tempo, o público entendeu que ela era realmente uma pessoa honesta e passou a torcer por um final feliz.
O remake foi muito fiel a todo processo de sofrimento e volta por cima de Raquel. Com o passar do tempo o embate de Raquel deixa de ser com Maria de Fátima e passa a ser com Odete Roitman. Isso também seguiu a versão original.
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Com uma vilã capaz de falar os maiores absurdos e que odeia o Brasil, seria impossível ignorar o fato de Raquel agora ser interpretada por uma atriz negra. A cena em que Odete Roitman seria racista aconteceu e terminou com a vilã levando um tapa na cara de Raquel. O público comemorou.
No entanto, comemorou cedo. Esta semana, Raquel perdeu tudo, depois de um golpe de Odete Roitman e da fraqueza de Celina (Malu Galli). Sem trabalho e com dívidas, voltou a vender sanduíche na praia. Esse tombo de Raquel não aconteceu na versão original.
O público reclamou, Taís Araújo reclamou, mas a trama continuou. Nos próximos capítulos, Raquel vai recuperar a Paladar, mas desta vez por um ato de bondade de Celina, que se sentindo culpada, vai comprar o imóvel e colocar no nome de Raquel e Poliana.
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Mesmo demonstrando uma capacidade incrível de cair e levantar, Manuela Dias enfraquece Raquel sem motivos. Para quem gosta de novela, uma reviravolta desnecessária que poderia ser substituída por outros conflitos e dilemas.
Vale lembrar que não é a primeira vez que a autora faz isso com uma personagem de Taís. Em Amor de Mãe, de 2019, a novela foi vendida como uma história de três protagonistas: Dona Lurdes (Regina Casé), Thelma (Adriana Esteves) e Vitória (Taís Araújo). Embora tenha sido interrompida por causa da pandemia, a personagem de Taís foi totalmente esvaziada no final da trama.
O que acontece agora em Vale Tudo é um tropeço evitável. Manuela sabia que ia ser ruim e insistiu. O Brasil já está preparado para ver mulheres negras vencerem e permanecerem no topo, e ninguém melhor que Taís Araújo para viver isso.
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Para uma autora que está fazendo Bella Campos, Belize Pombal, Edvana Carvalho e outras atrizes negras brilharem, a Raquel de Taís Araújo não precisava dar a volta por cima, outra vez, como se não fosse possível nunca que ela tivesse um pouco de paz.
Vale Tudo: Fátima bate na porta de Raquel e mãe e filha ficam frente a frente

























