De nome de vice a palanques indefinidos: as dificuldades de Flávio Bolsonaro para fechar chapa à Presidência 

Demora na escolha de nome para vice e indefinições em estados-chave são interrogações a serem respondidas às vésperas da convenção para candidato do PL

Compartilhe:
Flávio diz que Bolsonaro nunca pediu divulgação da carta após Moraes suspender visitas ao ex-presidente

Flávio diz que Bolsonaro nunca pediu divulgação da carta após Moraes suspender visitas ao ex-presidente (Foto: Redes sociais, Reprodução)

A poucos dias da convenção que vai oficializar a candidatura à Presidência da República nas Eleições 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta dificuldades para sacramentar definições importantes para a corrida eleitoral. A escolha do nome para a vaga de vice e o apoio em palanques estaduais importantes são os principais pontos em aberto para a candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

Continua após a publicidade

A principal interrogação que cerca a pré-candidatura de Flávio no momento é a escolha do nome de vice. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), uma das cotadas para o posto, recusou um convite nesta terça-feira (21) em reunião com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Com isso, o partido decidiu lançar a candidatura de Flávio sem anunciar um vice, ampliando o prazo para definição. A informação foi dada pelo coordenador da campanha, o senador Rogério Marinho (PL-RN), segundo o jornal O Globo. 

A intenção é aguardar por negociações com o Republicanos, que ainda não selou apoio na corrida presidencial, e também solucionar a disputa interna para escolha por um nome para vice. Nas últimas semanas, o próprio Flávio já citou nomes como o da ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Daniella Marques, e da deputada federal Simone Marquetto (PP-SP) como possíveis indicações. O nome da deputada federal catarinense Júlia Zanatta (PL-SC) também já foi comentado como possível opção de vice. 

Continua após a publicidade

Quem são os pré-candidatos a presidente nas Eleições 2026

Em entrevista ao podcast Café nas Eleições, do NSC Total, no início de maio, Flávio Bolsonaro admitiu o desejo de ter uma mulher como companheira de chapa. 

— Eu gosto do perfil de mulher, mas não apenas por ser mulher. Que agregue ainda mais competência, ainda mais seriedade, ainda mais experiência para esse projeto de resgate do Brasil — afirmou, na ocasião. 

A dificuldade da escolha de vice decorre de alguns elementos, como a concorrência com outras pré-candidaturas no campo da direita, que também tem nomes como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) — este também ainda à procura de um vice. Nas últimas semanas, a pressão aumentou em razão da crise entre o pré-candidato e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que divulgou um vídeo afirmando ter sido maltratada pelo enteado em um telefonema e se queixando do pouco espaço para lideranças femininas no PL

O impasse elevou a expectativa pela possível indicação de uma mulher para a função de vice. Além disso, sucedeu outra crise da pré-campanha de Flávio, que em abril precisou lidar com a divulgação de um áudio do pré-candidato pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse. 

Continua após a publicidade

A convenção de Flávio Bolsonaro está marcada para este sábado (25), no Pacaembu, em São Paulo. 

Indefinição em palanques estaduais  

Outra questão com a qual a campanha nacional de Flávio precisa lidar nos dias que antecedem a convenção é a indefinição sobre apoio em palanques estaduais importantes. O caso mais expressivo é o de Minas Gerais. No segundo estado com o maior eleitorado do país, o PL ensaia um apoio à pré-candidatura do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), nome identificado com o eleitorado de direita e líder nas pesquisas divulgadas neste período de pré-campanha. No arranjo, o PL poderia indicar um vice para a chapa. 

Continua após a publicidade

No entanto, Cleitinho ainda não confirmou se pretende ou não ser candidato. Em função disso, o partido esboça opções que possam servir de “plano B” caso o projeto de se aliar a Cleitinho não decole. Os nomes especulados até o momento são os do empresário e ex-prefeito da cidade de Betim (MG), Vittorio Medioli, e do também empresário e ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG), Flávio Roscoe. 

Cenário no Rio e no Ceará 

Mas não é apenas em Minas Gerais que a campanha de Flávio precisa montar o quebra-cabeças de apoio eleitoral até as convenções. No Rio de Janeiro, estado natal de Flávio, o partido tem como pré-candidato ao governo o deputado federal Douglas Ruas (PL). No entanto, o nome escolhido para ser vice de Ruas, Rogério Lisboa (PP), ex-prefeito de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, desistiu de concorrer nesta semana. O anúncio fez o partido precisar correr para encontrar outro nome para ser o companheiro de chapa de Douglas Ruas. 

Continua após a publicidade

Não bastasse isso, a chapa ao Senado também ainda é alvo de incertezas. Uma das vagas, originalmente destinada ao ex-governador Cláudio Castro, agora inelegível, foi definida nos últimos dias pelo PL. O partido decidiu indicar o nome do senador Carlos Portinho para disputar o cargo. A outra vaga estava destinada ao União Brasil, que indicaria o ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella. No entanto, a indicação entrou em xeque após Canella ser preso em por porte ilegal de um fuzil durante uma operação da Polícia Federal. Com isso, o partido de Flávio avalia se mantém o apoio a Canella ou se aproxima de outros partidos, como o Republicanos, em busca de outro candidato. 

Por fim, outro Estado em que o PL enfrenta um cenário turbulento para fechar o palanque local é o Ceará. O estado foi o estopim do polêmico vídeo gravado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro para reivindicar o direito a indicar nomes de candidatas mulheres pelo país

Continua após a publicidade

O PL do Ceará decidiu apoiar a candidatura a governador de Ciro Gomes (PSDB), alvo central das críticas de Michelle no vídeo contra Flávio. A ex-primeira-dama defendia o nome de Eduardo Girão (Novo) como postulante a ser apoiado. No entanto, em entrevista nesta semana antes de ter a candidatura oficializada, Ciro fez acenos a Ronaldo Caiado e a Renan Santos como possíveis presidenciáveis que poderiam ter seu apoio, sem mencionar Flávio Bolsonaro, o que fez Michelle fazer novas críticas ao PL local e afirmar que a direita no Estado “está vendida”. 

O doutor em Ciência Política e professor da faculdade Ielusc, de Joinville, João Kamradt, afirma que as duas crises enfrentadas pela candidatura de Flávio nos últimos meses, ligadas ao áudio enviado a Vorcaro e ao vídeo gravado por Michelle Bolsonaro ajudam a explicar as dificuldades enfrentadas pela pré-candidatura no momento. No entanto, segundo ele, elas não se tratam apenas de deslizes no campo da comunicação, mas de problemas de fundo que escancaram uma imagem que a pré-campanha buscava esconder – de um projeto que gira muito em torno do interesse pessoal e familiar do núcleo Bolsonaro.

Continua após a publicidade

— O vídeo da Michelle, por exemplo, traz outra dimensão dessa crise, a meu ver mais delicada ainda. Ela rompe com o Flávio publicamente, sai do comando do PL Mulher, conta que sofreu uma série de “agressões”. Isso atinge em cheio o eleitorado feminino e o evangélico, que são duas bases fundamentais para o bolsonarismo. Então, não dá para tratar isso como um item da pauta apenas. É uma ferida aberta dentro do próprio campo dele — avalia.

Segundo o especialista, Flávio carrega a imagem de um candidato “substituto”, já que deve concorrer no espaço do pai, Jair Bolsonaro, que ficou inelegível após a disputa de 2022. Por conta disso, a situação dele é diferente de possíveis fraquezas regionais enfrentadas em alguns estados por outras candidaturas, como a de Lula, que vem sendo mostrado à frente nas pesquisas de intenção de voto na pré-campanha.

Continua após a publicidade

— As duas crises [da pré-campanha de Flávio] auxiliam a explicar boa parte da queda, mas elas não são acidentes de percurso, são sintomas de como essa candidatura acabou sendo construída, muito em cima do capital pessoal e familiar, tendo pouca ou quase nenhuma blindagem institucional. É isso que torna essa candidatura tão vulnerável quando escândalos desse tipo vêm à tona — afirma.

As dificuldades de Lula 

Se a pré-campanha de Flávio tem suas dificuldades na reta final antes da convenção, o cenário não é diferente com o projeto de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Embora já tenha batido o martelo sobre o vice, ao optar por repetir Geraldo Alckmin (PSB) na chapa, Lula também tem seus desafios na definição dos palanques estaduais. 

Continua após a publicidade

O candidato ao governo de Minas Gerais também foi motivo de dor de cabeça para a cúpula petista. O partido chegou a cogitar apoiar o nome de Rodrigo Pacheco (PSB), mas o ex-presidente do Senado decidiu não disputar o cargo. Em seguida, o nome da ex-prefeita de Contagem (MG), Marília Campos (PT), também passou a ser cotado, mas ela preferiu disputar uma vaga ao Senado e rejeitou a corrida pelo Palácio Tiradentes. Um apoio à candidatura de Alexandre Khalil (PDT) passou a ser discutido nos últimos meses. 

A decisão final, no entanto, foi anunciada no começo desta semana, ao confirmar a pré-candidatura do deputado federal Patrus Ananias (PT), ex-prefeito de Belo Horizonte e quadro histórico do partido, para representar o palanque de Lula em Minas. No Rio, o partido decidiu apoiar a candidatura de Eduardo Paes (PSD), indicando o nome de Benedita da Silva para disputar o Senado. Em São Paulo, Fernando Haddad (PT) aceitou o convite de Lula e vai concorrer ao governo. Nos estados do Sul, no entanto, os petistas optaram por apoiar candidatos de legendas aliadas: Gelson Merisio (PSB), em Santa Catarina, Requião Filho (PDT), no Paraná, e Juliana Brizola (PDT), no Rio Grande do Sul.