Eleições nos EUA: O que pode mudar para o Brasil após as eleições americanas? 

Eleições de meio de mandato, as chamadas midterms, definem se partido de Trump continuará a ter maioria no Congresso e evitar domínio democrata que pode ter implicações inclusive para o Brasil 

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Donald Trump

Donald Trump tem dia decisivo em eleição de meio de mandato que define se Republicanos continuarão com maioria no Congresso norte-americano (Foto: Facebook Trump, Reprodução)

Eleitores dos Estados Unidos vão às urnas nesta terça-feira (3) para as eleições de meio de mandato, também chamadas de midterms. A disputa define quem vai ocupar as 435 vagas da Câmara dos Representantes e 35 das 100 cadeiras do Senado, além dos governos de 36 dos 50 estados norte-americanos e outros cargos estaduais e municipais. Os deputados eleitos têm mandato de dois anos, e os senadores seguem na função por seis. 

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Mais do que um teste para o governo Donald Trump, as eleições de meio de mandato podem definir mudanças também para o Brasil. Com a menor taxa de aprovação dos dois mandatos — 66% dos americanos reprovam sua gestão, segundo pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na semana passada —, Trump vai às urnas com risco de perder a maioria no Congresso americano. Uma eventual vitória dos democratas sobre os partidários de Trump, os republicanos, pode aumentar a fiscalização e as críticas a medidas do governo norte-americano como sanções a países como o Brasil. 

Desde julho de 2025 o governo Trump aplica sobretaxas e punições ao Brasil. Os pretextos envolveram desde pressão por liberação ao ex-presidente Jair Bolsonaro até processos contra big techs americanas que tramitam no Brasil e supostas discrepâncias na balança comercial entre Brasil e EUA. 

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Os países têm negociações abertas que já resultaram na redução dos tarifaços sobre determinados setores, mas ainda não tiveram um entendimento final sobre as sanções. A tensão entre Estados Unidos e Brasil aumentou na semana passada, quando o candidato derrotado a presidente Flávio Bolsonaro (PL) fugiu do Brasil e foi acolhido nos Estados Unidos, divulgando uma carta de teor golpista afirmando falsamente ser o “presidente eleito no Brasil” e recebendo a bênção do governo norte-americano. 

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Os impactos das eleições nos EUA 

A principal definição sobre mudanças que as midterms podem representar para o Brasil decorre do fato se os democratas conseguirão ou não voltar a ter maioria no Congresso americano. Atualmente, os republicanos possuem a maioria das cadeiras, por ligeira margem — 218 deputados contra 214, na Câmara, e 53 dos 100 senadores. 

Caso consigam reverter a maioria, o resultado deve permitir ao grupo comandar comissões como a de Relações Exteriores, o que pode representar um papel de maior destaque na fiscalização das medidas dos EUA no contexto global, incluindo as sanções ao Brasil. 

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Além do tarifaço, já aplicado em duas rodadas contra diferentes setores da economia brasileira, uma maioria democrata no parlamento americano poderia aumentar o custo político também de sanções como a Lei Magnitsky aplicada no ano passado para bloquear bens e receitas em solo americano de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo Alexandre de Moraes.  

O economista Daniel da Cunda Corrêa da Silva, mestre em Relações Internacionais e professor da Univali, explica que como medidas como o tarifaço passam pela comissão de Comércio dos EUA, com maioria democrata poderia haver um tipo de “trava institucional” para evitar essas medidas por parte de Trump. 

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“As próprias sanções que foram perpetradas contra figuras brasileiras, cuja mais famosa delas foi a Magnitsky, segue sendo uma possibilidade ao governo dos EUA, mas existe certo desgaste institucional em função de os democratas poderem fazer convocações a membros do governo para darem explicações, coisas que não foram feitas quando Trump teve a maioria”, explica. 

Mudanças na dimensão política 

Uma segunda natureza de impactos possíveis ao Brasil com o resultado das eleições de meio de mandato nos EUA é a política. O economista e mestre em Relações Internacionais da Univali explica que pressões como a feita contra o Brasil para aderir ao “Escudo das Américas”, coalizão de política internacional de governos de direita nas Américas, e outras tentativas de intervir na política brasileira poderiam perder espaço. 

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“Para além do tarifaço ou da Lei Magnitsky, essa articulação da política internacional ou mesmo algumas medidas do ponto de vista militar, que volta e meia aparecem como possibilidades para os EUA, principalmente na figura do vice-presidente J. D. Vance e do secretário de Estado Marco Rubio, também sofrem um revés na medida em que se perde apoio no Congresso para que essas ações sejam levadas a cabo”, avalia. 

Relação EUA x Bolsonaro 

Outro reflexo do resultado das eleições de meio de mandato nos EUA deve ser a relação do governo americano com a família Bolsonaro. Além de Eduardo Bolsonaro, que se mudou para o país de Trump em março do ano passado, na última semana foi a vez de Flávio Bolsonaro fugir com a família para os EUA dois dias após perder a eleição presidencial para Lula (PT). Trump afirmou que Flávio poderia ficar no país “pelo tempo que quiser” e que o governo concedeu asilo político porque ele teria sido “muito mal tratado” no Brasil. 

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No entanto, uma eventual formação de maioria democrata no Congresso americano pode aumentar a resistência do parlamento com essas decisões de apoio e acolhida política. A permanência ou não dos membros da família Bolsonaro não cabe ao Congresso, mas sim aos órgãos do governo Trump, mas o Congresso pode investigar eventual participação de autoridades norte-americanas na fuga de Flávio ou em eventual favorecimento a vistos concedidos aos políticos brasileiros. 

Uma deputada democrata já anunciou que o partido pretende investigar as ações de Trump em favor de Flávio Bolsonaro caso obtenham a maioria na formação da próxima legislatura. 

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O professor Daniel da Cunda Corrêa da Silva acredita que, caso ocorram, os efeitos de uma maioria democrata no Congresso dos EUA seriam secundários nos temas ligados à família Bolsonaro. Segundo ele, quem for do núcleo-duro do governo Trump deve continuar atuando nessa direção, mas o apoio a esse caminho pode arrefecer dentro do Partido Republicano, em nome de sobrevivência política. No entanto, o impacto disso pode ser limitado pela própria postura dos brasileiros em solo americano. 

“A tendência é que Eduardo e Flávio tentem intensificar esse tipo de medida [sanções e medidas a autoridades brasileiras] para continuar em evidência, gerar repercussão, ter os nomes lembrados como liderança da oposição, o que é um desafio porque parte expressiva da direita já recalcula a rota no Brasil”, avalia. 

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Impactos econômicos 

Como os parlamentares também aprovam o orçamento e medidas econômicas do governo Trump, uma maioria de oposição pode dificultar a vida da atual gestão em ações como aumento de impostos e gastos públicos, o que deve ter repercussão direta sobre a cotação do dólar em outros países e taxa de juros nos EUA e no mundo. Nesse sentido, uma manutenção da taxa de juros atual, criticada por Trump, ou até de aumento passaria a ser uma tendência, o que poderia gerar uma valorização inicial do real frente ao dólar.