Nas últimas seis vezes em que o sobrenome Amin esteve nas urnas de Santa Catarina, saiu derrotado. Os dois últimos reveses vieram na eleição deste domingo (4), quando o ex-governador Esperidião Amin terminou em terceiro lugar na corrida para a reeleição ao Senado. Com 15,3% dos votos, foi o mais votado de sua coligação, mas perdeu a vaga para os dois nomes do PL. Já a esposa Angela também não conseguiu se eleger deputada federal: ela recebeu 35,2 mil votos, ficando apenas como segunda suplente da federação União Progressista.
O resultado se soma a reveses sofridos já em 2022, quando houve uma derrota tripla. Amin ficou apenas em 5º lugar na disputa pelo governo, viu a esposa Angela perder a reeleição para deputada federal e o filho João Amin também não conseguir renovar o mandato para a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). Dois anos antes, Angela ainda havia amargado um quarto lugar na corrida pela prefeitura de Florianópolis, cidade que governou por dois mandatos, de 1997 a 2004.
Com 78 anos, Esperidião pode ter disputado a última eleição, embora ainda não tenha falado sobre isso publicamente. Um dos políticos mais tradicionais de Santa Catarina, ele foi governador por dois mandatos e senador em outras duas ocasiões. Na coletiva para reconhecer a derrota, disse apenas não estar “pensando o futuro, mas assimilando o presente”.
“Agora, vou pensar no que fazer na vida que ainda Deus me consentir (…). Eu tinha dito que essa era minha ‘penúltima dança’, se eu ganhasse essa eleição eu iria me assanhar a ser presidente do Senado, ou participar de uma campanha para a presidência do Senado, para conseguirmos uma regularização da convivência entre os poderes, da autocontenção do Judiciário. Agora vou ser torcedor. Por enquanto é só isso”
A longa trajetória política de Amin
A vida política de Amin começou como prefeito “biônico” de Florianópolis. Numa época em que os governadores indicados pelo regime militar nomeavam os prefeitos de capitais, Amin foi escolhido para comandar Florianópolis, em 1975, com apenas 27 anos.
O caminho de estreia na política o rendeu a pecha de nome ligado aos anos de chumbo. Mas nos anos seguintes Esperidião Amin enfileirou mandatos também pela via da democracia. Elegeu-se governador por voto direto em 1982, em uma vitória apertada contra o emedebista Jaison Barreto.
Amin governou SC até 1987. Enfrentou as grandes enchentes de 1983 e 1984 no Vale do Itajaí, período em que ações de resposta a famílias atingidas rendem votos e simpatia até hoje de moradores mais antigos da região. Em 1988, elegeu-se prefeito de Florianópolis. Dois anos depois, tornou-se senador pela primeira vez.
Em 1994 veio a maior tentativa de voo nacional. Amin foi candidato à Presidência da República, mas terminou em sexto lugar, em eleição vencida por Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
Em 1998, Amin voltou a enfrentar um nome do PMDB nas urnas. Venceu o então governador Paulo Afonso, desgastado por um pedido de impeachment sofrido um ano antes. As disputas sucessivas alimentaram uma rivalidade histórica presente até os dias atuais entre PMDB e PP, o “15” e o “11”, em cidades do interior catarinense.
Veja fotos dos deputados federais eleitos em SC
A rivalidade com o PMDB
As vitórias sucessivas de Amin nas urnas foram interrompidas em 2002. A ascensão do ex-prefeito de Joinville Luiz Henrique da Silveira (PMDB), eleito em um amplo arranjo que teve apoio de Lula na primeira vez em que o petista chegou à presidência, no 2º turno, resultou em uma derrota de Amin.
O progressista tentou uma revanche quatro anos mais tarde. Em 2006, Luiz Henrique reuniu partidos fortes como PSD e PSDB, de lideranças como Raimundo Colombo e Leonel Pavan, para dar origem à tríplice aliança, que comandou o Estado por quase 16 anos. Em uma das batalhas mais acirradas para governador em SC, Amin foi ao segundo turno e chegou ameaçar uma virada, mas terminou derrotado novamente pelo emedebista. Dois anos depois, tentou recomeçar pela prefeitura de Florianópolis, mas sofreu nova derrota, desta vez para Dario Berger (PMDB).
Amin organizou a sua reconstrução política por Brasília. Em 2010, concorreu a deputado federal e foi o segundo mais votado do Estado. Em 2014, reelegeu-se para o cargo, desta vez como o recordista de votos em SC. As duas vitórias seguidas e o trabalho em Brasília o deram fôlego para disputar o Senado em 2018. Mesmo em uma eleição marcada pela “onda 17”, Amin resistiu e se elegeu senador como o mais votado, à frente de Jorginho Mello, que por margem apertada garantiu a segunda vaga ao Senado.
Nos tempos de Brasília, Amin se notabilizou por defender e se mostrar conhecedor dos gargalos de infraestrutura do Estado. Atuou como fiscal de obras do Contorno Viário da Grande Florianópolis e acompanhou de perto a revisão do contrato de concessão da BR-101 e entraves como o Morro dos Cavalos. A memória prodigiosa e o interesse pelos assuntos do estado sempre foram elementos elogiados pelo entorno de Amin no trabalho como parlamentar.
Com a nova configuração da política mais à direita, Amin também resgatou antigos laços com o ex-deputado e colega de partido Jair Bolsonaro, que foi filiado ao PP por muitos anos, e abraçou de vez o bolsonarismo. Com as batalhas entre a direita e o Supremo Tribunal Federal (STF), Amin assumiu a dianteira de ataques a nomes como o ministro Alexandre de Moraes. Tornou-se o relator do PL da Dosimetria, que reduziu penas de Bolsonaro e de condenados pelos atos de 8 de janeiro.
Paradoxalmente, o elo de Amin com Bolsonaro coincidiu com novo período de derrotas sucessivas nas urnas do catarinense e sua família. Em 2022, não teve apoio formal na disputa pelo governo de SC de Bolsonaro, que divulgou vídeo ao lado de Jorginho Mello, “dono” do número 22 na eleição e que se elegeu ao lado de várias outras lideranças do PL.
A jornada de 2026
Em 2026, quando uma chapa com Carol de Toni e Amin ao Senado já era anunciada pelo governador Jorginho Mello, Jair Bolsonaro decidiu lançar o filho Carlos como candidato ao Senado em SC. Inicialmente, Jorginho ainda tentou manter Amin no projeto bolsonarista, mas precisou recuar diante da reação interna do PL, que saiu em defesa da vaga para Carol de Toni. Sem espaço na chapa, Amin migrou para o lado adversário, apoiando João Rodrigues (PSD) e concorrendo à reeleição ao Senado.
Na campanha, evitou ataques aos candidatos bolsonaristas e seguiu apostando forte nas críticas a decisões do STF, pauta simpática ao campo bolsonarista e à direita. Nas urnas, no entanto, novamente a “onda 22” favoreceu os candidatos do PL, deixando Amin de fora dos eleitos, perdendo a vaga para o “recém-chegado” Carlos.
Por todo o país, Amin não foi o único veterano que não se elegeu em 2026. Outros nomes tradicionais da política, como Renan Calheiros (MDB-AL), Aécio Neves (PSDB-MG), Ciro Gomes (PSDB-CE) e Marina Silva (Rede-SP), também saíram das urnas sem vitórias no domingo.
No caso de Amin, no entanto, a longa trajetória e a idade lançam dúvidas sobre o possível futuro político de Amin e o espólio eleitoral aos familiares. O senador ainda não respondeu sobre o tema nas breves falas em que reconheceu a derrota após a votação de domingo. Entre apoiadores, a suspeita é de que essa possa ter sido a última campanha, mas que o político só deve pensar sobre o tema após assimilar os resultados deste ano.
















