A inédita virada no 2° turno de eleições presidenciais no Brasil merecia uma festa à altura. Foi o que motivou uma multidão de eleitores e apoiadores do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a lotar as ruas e bares do Centro-Leste de Florianópolis, tradicional reduto de jovens e da esquerda, na noite deste domingo (25).
Uma hora antes do fim da votação já havia um grupo reunido na esquina das ruas Nunes Moreira e Victor Meirelles, mas a ansiedade pela apuração precisou aguardar mais duas horas após a decisão judicial que estendeu a votação em seções onde os trabalhos não haviam sido encerrados. A ansiedade era aplacada por chopes, cigarros, espetinhos de carne e pelo DJ que intercalava jingles lulistas com clássicos de protesto da MPB.
O sentimento dos que “botaram o bloco na rua”, como na música de Sergio Sampaio, começou a dar lugar à angústia quando os primeiros números foram divulgados e mostravam Lula à frente, mas por margem estreita.
As cores dos batuques do Centro-Leste tinham vários tons. O vermelho das bandeiras e bonés de Lula predominavam, mas havia também camisas da seleção e bandeiras do Brasil, símbolos explorados pela direita, mas que foram retomados na campanha do 2° turno, em uma das missões do “capitão” André Janones, criador do canal “Exército de Lula”. Bandeiras de arco-íris representando a população LGBT, camisas da Democracia Corintiana, do Palmeiras com frases contra a ditadura: todos acompanharam lado a lado os telões projetados nas paredes com o minuto a minuto da apuração.
Quando Flávio Bolsonaro virou, um silêncio apreensivo deu as caras, mas por poucos minutos. Logo gritos de “vai virar” começaram a surgir. Após Flávio atingir 50,5% das intenções de voto e começar a despencar, cada décimo de recuo era comemorado com gritos eufóricos.
A virada da empolgação veio às 20h25, quando Lula voltou a ficar à frente de Flávio. O som foi tomado por gritos de “Lula” e provocações à família Bolsonaro, como o cântico de que “o Flávio vai morar com o pai”.
Quanto mais a apuração se aproximava do fim, mais dúvidas surgiam sobre a vantagem. Seria suficiente? “Como está em Minas? Os votos do Rio já entraram?”. Pelos telões e pelas telinhas do celular, a apuração avançava e vinha combinada com notícias e projeções da provável vitória petista.
Na sacada de um dos prédios da esquina, o DJ segurou o tema das vitórias de Ayrton Senna para embalar a multidão quando Lula foi confirmado eleito, por volta das 21h10. A fumaça vermelha de sinalizadores dava um clima de estádio de futebol ao encontro político no local famoso pelas festas. Uma mistura similar à do público que foi se somando às ruas do Centro após a divulgação do resultado. Uma maioria jovem, mas com espaço para casais, crianças, idosos e admiradores de Lula de todas as idades e regiões.
Os relatos dos apoiadores
Os sentimentos que levaram os eleitores às ruas para celebrar o 4° mandato de Lula foram também os que os guiaram até as urnas.
“É uma alegria imensa, um alívio difícil de colocar em palavras. Um sentimento derivado de muita luta, de convencimento das pessoas. Não é como se nós eleitores do Lula estivéssemos 100% satisfeitos, mas é visível que a vitória do outro lado significaria um retrocesso muito grande em direitos de toda a população, não só de minorias, além de um retrocesso institucional inimaginável”, contou o estudante e pesquisador de Ciência Política, Matheus Menezes, na saída do ato.
Militante do PT desde os 15 anos, quando o país ainda vivia sob ditadura militar, o policial penal Wolney Chucre, hoje com 62, estava na Avenida Hercílio Luz com o boné e camisa do partido. Para ele, a virada inédita de Lula representa um triunfo dos democratas.
“Eu sei o que é um regime autoritário. Essa foi uma vitória da democracia sobre o fascismo. Acho que o povo brasileiro, como diz a música, reconheceu que o Silva era diferente, e daí esse crescimento na reta final – afirmou.
Na saída do ato, uma participante aproveitou a empolgação para alfinetar:
Coloca aí na matéria que de virada é mais gostoso.
Foi na trilha sonora que os eleitores expressaram o alívio com o resultado hino nacional, outro símbolo dos brasileiros recentemente associado à direita, foi tocado e cantado a plenos pulmões pelos eleitores em êxtase.
Na quadra de baixo, a Avenida Hercilio Luz também foi tomada por apoiadores com bandeiras, camisas e adesivos para celebrar a vitória inflamados por dois trios elétricos.
Ao som de Cazuza, os grupos que passaram a campanha do 2° turno nadando contra a corrente para exercitar resumiram o sentimento que perseguiu toda a apuração.
“Estamos, meu bem, por um triz pro dia nascer feliz”.
Veja como foi a celebração no Centro de Florianópolis
Raio-x da votação em Florianópolis
- Flávio Bolsonaro (PL): 51,66% (174.153 votos)
- Lula (PT): 48,34% (162.957 votos)
- Diferença: 11.196 votos (3,32 p.p.)







