Maioria do eleitorado em Santa Catarina e no Brasil, com cerca de 52%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres estão no centro das Eleições 2026. Na reta final da campanha, candidatos a governador e presidente vêm mirando o voto feminino. As eleitoras, porém, não são um bloco único.
“O voto feminino não é homogêneo. Varia muito em relação à renda, aos valores da religião, e grande parte das escolhas não está atrelada à ideologia, mas à perspectiva do que vai fazer sentido. Será que são propostas que vão cuidar da educação, da economia, questões que interferem e atravessam a realidade das mulheres?”, diz a cientista política Camilla Soares Teixeira Camargo, mestranda em Administração pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).
Na pesquisa Quaest nacional divulgada em 14 de setembro, as mulheres apontaram como principais preocupações a violência (31%), a corrupção (20%), a economia (19%) e a saúde (11%).
A reportagem do NSC Total foi ao Centro de Florianópolis ouvir seis eleitoras, entre 22 e 85 anos. Elas falaram sobre voto, indecisão e o que pesa na decisão nas urnas em 4 de outubro. Entre elas, saúde e educação apareceram entre as prioridades.
“Um não presta e o outro não vale nada”
Aos 85 anos e meio, Lucinda Martins poderia não votar, segundo a regra da Justiça Eleitoral, mas decidiu ir às urnas depois de assistir ao filme “As Sufragistas” (2015). “Se eu tivesse com 91 anos, de bengala, eu ia honrar o meu voto. Em memória daquelas mulheres para que nós tenhamos hoje o direito de votar”, relatou.
Pensionista da Aeronáutica, viúva de militar há 49 anos, ela se define de direita e votou em Jair Bolsonaro quando ele ainda era vereador no Rio de Janeiro, onde levantava a bandeira da equiparação das pensões das viúvas de militares. Hoje, se diz decepcionada com o governo do ex-presidente, e não pretende votar em nenhum dos dois principais candidatos à Presidência.
Para mim, um não presta e o outro não vale nada.
A indecisão de Lucinda também aparece nos resultados da última Quaest. Perguntadas sobre o que mais temem, a reeleição de Lula ou a volta de um governo Bolsonaro, as mulheres davam vantagem clara ao medo bolsonarista até agosto: 48% temiam mais a volta de um Bolsonaro, contra 35% que temiam mais um novo mandato de Lula. Esse receio caiu ao longo das últimas semanas e, na pesquisa mais recente, empatou: hoje 42% temem cada um dos dois cenários igualmente.
Saúde em primeiro lugar
Eva Vargas Pontes, de 60 anos, cuidadora técnica de enfermagem, moradora da comunidade do José Mendes, tem como prioridade a saúde. “Muitas vezes perdemos paciente por um leito, por uma ala que está vazia, por falta de manutenção.” Eleitora tradicional do PT, ela vota com o partido tanto para presidente quanto para governador. “Já tenho meus candidatos do meu próprio partido”, diz.
“Tem homem demais na política”
Já Ane Caroline Resplandis, 43 anos, autônoma, ainda não encontrou representantes para governador, senador e deputado, apesar de já ter definido voto para presidente. Natural de Brasília, ela vive em Florianópolis há cerca de 10 anos. “Mas eu ainda não tenho uma noção do que foram os outros mandatos, para poder ter uma perspectiva melhor para fazer uma escolha melhor, sabe?”
Ane gostaria que tivessem mais candidatas mulheres.
A gente tem que colocar mais mulheres na política. Tem certas questões que só mulher entende, ela sente isso. A gente tem que estar lá sendo representada por mulher, para que a gente possa ter alguém que também sente as mesmas dores. Acho que tem homem demais na política. Por isso que está tão detonado.
Entre a pressa e a certeza
Valdirene Andrade, 58 anos, feirante maranhense, se diz de direita e recusa decidir no calor da campanha: “Eu acho erradíssimo alguém escolher alguma coisa dentro dessa pororoca”, diz, citando o excesso de informações que circula na reta final.
Clara Senna, 22 anos, estudante, decidiu cedo e sem entusiasmo. “Eu tomo um lado específico não necessariamente porque eu acho que esse lado é o melhor, mas porque eu não quero que o outro esteja no poder.” Susana Obara Bendlin, 32 anos, psicóloga, nunca teve dúvida: de esquerda desde a adolescência, elege o tripé social, educação e saúde.
Para a cientista política Camilla, a multiplicidade do voto feminino não diminui o seu peso. Pelo contrário:
O voto feminino é muito importante. Eu acho que esse é o voto que pode definir a eleição.






