A França enfrenta uma onda de protestos que se transformou em uma das maiores crises sociais dos últimos anos. O que começou com manifestações estudantis por melhores condições nas escolas ganhou a adesão de sindicatos e outros grupos insatisfeitos com o custo de vida e as políticas do governo. No último fim de semana, atos pacíficos também foram marcados por tumultos, saques e depredações em diferentes regiões do país. As informações são do The New York Times.
A violência deixou estabelecimentos comerciais destruídos, carros incendiados e prédios públicos danificados. Enquanto as cidades tentavam se recuperar, líderes políticos trocaram acusações sobre a responsabilidade pelos distúrbios, em meio à crescente insatisfação com a situação econômica e social francesa.
A crise ocorre enquanto o governo tenta aprovar um orçamento impopular, com medidas de contenção de gastos. A turbulência também amplia as incertezas políticas às vésperas da próxima eleição presidencial, prevista para a primavera europeia, e fortalece a posição da líder de extrema direita Marine Le Pen, apontada no texto de origem como favorita na disputa.
O que aconteceu na França no fim de semana?
Mais de 500 mil pessoas participaram de aproximadamente 110 manifestações em todo o país no sábado, segundo o Ministério do Interior francês. A central sindical CGT apresentou uma estimativa superior, de 800 mil participantes. O ato foi descrito como o maior dia de mobilização desde o início dos protestos, cerca de um mês antes.
Embora muitas manifestações tenham ocorrido de forma pacífica, grupos violentos depredaram cerca de 1.500 estabelecimentos comerciais e símbolos do Estado francês. O balanço apresentado no texto de origem também menciona aproximadamente 2 mil prisões.
Em Limoges, no centro da França, um incêndio destruiu grande parte da prefeitura. Já em Marselha, a segunda maior cidade do país, pessoas mascaradas invadiram um prédio público e derrubaram um busto de Marianne, figura que simboliza a República Francesa.
Por que os estudantes estão protestando?
A mobilização começou com estudantes do ensino médio, que foram às ruas para denunciar as condições das instituições de ensino. Entre as principais reclamações estão a infraestrutura deteriorada, as salas de aula superlotadas, a carga horária excessiva, a falta de professores e funcionários e o financiamento considerado insuficiente.
Os estudantes também criticam os sistemas públicos de seleção para universidades e defendem mudanças nos critérios de acesso ao ensino superior, que consideram injustamente seletivos.
Como parte dos atos, centenas de escolas foram bloqueadas. Segundo o governo, pelo menos 24 instituições foram incendiadas ou sofreram danos.
A resposta policial também se tornou motivo de indignação. Desde setembro, milhares de pessoas foram presas, e mais de mil policiais, estudantes e funcionários de escolas ficaram feridos, segundo os dados apresentados no texto de origem.
Promotores e um órgão independente de fiscalização policial investigam pelo menos 34 casos de possíveis abusos cometidos por agentes durante as manifestações.
Entre as ocorrências citadas está a de um adolescente de 15 anos que perdeu a mão esquerda, possivelmente após a explosão de uma granada policial, segundo autoridades. Outro caso envolve um menino de 14 anos que sofreu ferimentos graves provocados por uma granada de gás lacrimogêneo disparada a curta distância.
Por que outros grupos aderiram aos protestos?
Ao longo de outubro, sindicatos e outros movimentos sociais passaram a participar das manifestações estudantis. Além de demonstrar solidariedade aos jovens, esses grupos aproveitaram a mobilização para expressar insatisfação com problemas econômicos e decisões do governo.
O custo de vida e o aumento dos preços dos combustíveis estão entre as principais queixas. De acordo com o texto de origem, a alta dos combustíveis ocorreu, em parte, como consequência da guerra com o Irã. Agricultores também aderiram aos atos, em protesto contra os custos da atividade agrícola.
Nas redes sociais, perfis associados ao movimento dos Coletes Amarelos voltaram a convocar manifestações. O grupo ganhou força há quase uma década com protestos contra os preços dos combustíveis e outras questões econômicas e sociais.
Partidos de esquerda também passaram a utilizar a mobilização para ampliar as críticas ao presidente Emmanuel Macron, que se aproxima do fim do segundo mandato. A insatisfação se insere em uma tradição de grandes movimentos sociais na França. Em 1968, protestos liderados por estudantes chegaram a ameaçar a permanência do governo e contribuíram para transformações na sociedade francesa.
Quais são as consequências políticas?
A violência provocou uma disputa entre integrantes do governo e representantes da oposição. No domingo, políticos da extrema direita e do governo centrista responsabilizaram setores da extrema esquerda pelos distúrbios, citando especialmente o partido França Insubmissa.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu acusou dirigentes políticos de estimular a desconfiança dos estudantes em relação à polícia. Ele também afirmou que alguns dos envolvidos nos tumultos pertenciam à chamada “ultraesquerda”.
O França Insubmissa rejeitou as acusações. Seu líder, Jean-Luc Mélenchon, atribuiu ao governo a responsabilidade pelo agravamento da crise e criticou as medidas adotadas pela administração de Macron.
Em uma publicação nas redes sociais, Mélenchon chamou Lecornu de “responsável pelo caos”. Segundo o líder da esquerda, a situação seria resultado de “incompetência” ou de uma estratégia deliberada para criar um discurso de ordem pública que desviasse a atenção dos problemas nas contas do governo.
Lecornu não respondeu publicamente à acusação.
