Partidos políticos investiram milhões de reais do Fundo Eleitoral nas campanhas de personalidades como Silvia Abravanel, Rachel Sheherazade, Manoel Gomes, Lucas Penteado e Jean Wyllys. O repasse desse dinheiro público responde a uma tática bem clara dos partidos para usar a fama dessas celebridades, atrair mais votos de uma vez, ajudar a eleger outros candidatos do mesmo grupo para garantir vagas na Câmara dos Deputados.
Dinheiro público no bolso e o limite das campanhas
Quando a gente olha para as contas entregues ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), fica fácil ver quem os partidos colocam em primeiro lugar. Para a disputa de deputado federal, a Justiça determinou que ninguém pode gastar mais de R$ 3,17 milhões na campanha. Só que boa parte desse valor máximo já foi direto para o bolso desses nomes conhecidos:
- Silvia Abravanel (PSD): na sua primeira vez disputando uma eleição por São Paulo, a apresentadora ganhou R$ 2,39 milhões do seu partido, o que cobre quase 75% de tudo o que ela pode gastar, um valor bem alto para quem declarou ter um patrimônio de R$ 47,5 milhões.
- Rachel Sheherazade (PSD): a jornalista e ex-apresentadora recebeu R$ 1,3 milhão do partido (cerca de 41% do limite de gastos).
- Manoel Gomes (Avante): o cantor do hit “Caneta Azul”, que tentou ser deputado no Maranhão em 2022 (onde não se elegeu e teve 7.543 votos) e agora mudou o título para SP, conseguiu R$ 1,2 milhão da legenda (cerca de 37% do limite).
- Lucas Penteado (PT): também estreando nas urnas por SP, o ator e ex-BBB ficou com R$ 300 mil em dinheiro público (9,4% do limite).
- Jean Wyllys (PT): o ex-deputado e ex-BBB recebeu R$ 290 mil para a disputa (9,1% do limite).
De onde vem essa regra e o que dizem os partidos?
A Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) permite que as diretrizes nacionais dos partidos dividam os R$ 4,9 bilhões do Fundo Eleitoral com autonomia entre seus candidatos. As únicas exigências legais travadas por decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) são a reserva de ao menos 30% da verba para candidaturas de mulheres e repasses proporcionais para candidatos negros. O restante da verba fica a critério exclusivo das lideranças partidárias.
A distribuição desses recursos segue a lógica pragmática do sistema eleitoral. Na prática, as direções partidárias costumam levar em conta o alcance de público do candidato, o potencial de votos e o peso estratégico de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, com 70 vagas na Câmara. Apostar em quem já é conhecido acaba sendo o caminho mais rápido para encorpar a votação da chapa e projetar a marca da legenda.
Uma conta que sai do seu bolso
No fim das contas, essa dinheirama concentrada nos famosos traz de volta aquela pergunta sobre como o dinheiro dos nossos impostos está sendo gasto na política.
Enquanto líderes dos bairros e das comunidades ralam para conseguir qualquer tostão e defender suas causas, os famosos já começam a corrida eleitoral com a vida financeira resolvida. Isso faz a gente pensar se o Fundo Eleitoral está mesmo ajudando a melhorar a nossa democracia ou se apenas transformou a votação em um grande show de televisão.
*Sob supervisão de Luiz Daudt Junior.





