Quando o eleitor se pergunta qual candidato já conseguiu virar a eleição no segundo turno na disputa pela Presidência da República, a resposta esbarra em um tabu histórico: nenhum.
Desde a primeira eleição direta após a redemocratização, em 1989, o postulante que termina o primeiro turno na liderança sempre confirma a vitória. Trata-se de um padrão político sólido que o presidente Lula (PT), em busca da reeleição e que saiu atrás na primeira rodada, quer derrubar contra Flávio Bolsonaro (PL) na disputa nas Eleições 2026.
As exceções ao segundo turno ocorreram em 1994 e 1998, quando a disputa foi liquidada logo na primeira rodada.
Como surgiu o segundo turno no Brasil e o que diz a regra da maioria absoluta
Antes da atual Constituição Federal, o Brasil utilizava o sistema de maioria simples para a escolha de chefes do Poder Executivo. Isso significava que um candidato poderia ser eleito presidente com uma fatia muito pequena do eleitorado, bastando ter apenas um voto a mais que o segundo colocado.
Em um cenário com muitos partidos fortes, era comum que governantes assumissem o poder com 30% ou 35% dos votos, o que gerava crises frequentes de governabilidade e questionamentos sobre a verdadeira representatividade do eleito perante a nação.
Para corrigir essa fragilidade democrática, a Assembleia Constituinte de 1988 introduziu o princípio da maioria absoluta. A nova regra determinou que, para cargos executivos federais, estaduais e em municípios com mais de 200 mil eleitores, o vencedor precisa conquistar mais da metade dos votos válidos.
Caso nenhum atinja a marca de 50% mais um voto na primeira rodada, os dois mais votados avançam para um confronto direto. O objetivo central dessa mudança foi forçar a construção de consensos, obrigando o futuro presidente a dialogar com diferentes setores da sociedade para garantir um mandato amparado pela maioria da população.
O histórico da eleição no segundo turno: quem liderou primeira fase confirmou a vitória
Entre 1989 e 2022, o Brasil teve sete eleições presidenciais decididas no segundo turno (em 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso venceu direto na primeira fase). Em todas as ocasiões de votação final, o candidato que terminou o primeiro turno em 1º lugar confirmou a vitória nas urnas:
- 1989 — Fernando Collor (PRN): terminou o 1º turno na liderança com 30,47% dos votos válidos e confirmou a eleição contra Lula (PT) no 2º turno com 53,03%.
- 2002 — Luiz Inácio Lula da Silva (PT): liderou a rodada inicial com 46,44% e venceu José Serra (PSDB) na fase final com 61,27%.
- 2006 — Luiz Inácio Lula da Silva (PT): fechou o 1º turno na frente com 48,61% e assegurou a reeleição superando Geraldo Alckmin (PSDB) com 60,83%.
- 2010 — Dilma Rousseff (PT): liderou a primeira etapa com 46,91% dos votos válidos e manteve a dianteira sobre José Serra (PSDB) no 2º turno com 56,05%.
- 2014 — Dilma Rousseff (PT): saiu na frente no 1º turno com 41,59% e consolidou a reeleição na disputa contra Aécio Neves (PSDB) com 51,64%.
- 2018 — Jair Bolsonaro (PSL): obteve 46,03% dos votos válidos na rodada de abertura e confirmou o mandato superando Fernando Haddad (PT) com 55,13%.
- 2022 — Luiz Inácio Lula da Silva (PT): terminou o 1º turno em primeiro lugar com 48,43% e manteve a vantagem histórica contra Jair Bolsonaro (PL) ao registrar 50,90% no 2º turno.
O xadrez das alianças políticas e a caça aos eleitores órfãos
Assim que as urnas do primeiro turno são apuradas, o tabuleiro político se reconfigura para a fase de negociações de apoios. Os atores centrais desse xadrez deixam de ser apenas os marqueteiros e passam a ser os governadores recém-eleitos, os partidos derrotados e os candidatos que ficaram de fora da disputa final.
O apoio de um governador influente em estados decisivos, como São Paulo ou Minas Gerais, é tratado como um ativo valioso, pois ele oferece palanque regional e capilaridade política para o candidato nacional, ajudando a mobilizar prefeitos e vereadores no interior do país. Nesses estados, Flávio Bolsonaro conquistou o apoio dos eleitos.
Apoios de governadores eleitos no primeiro turno a Lula e a Flávio
Entre os governadores eleitos em primeiro turno e os candidatos que ainda disputam a segunda etapa nos estados, o senador Flávio Bolsonaro lidera em número de apoios formais, enquanto o presidente Lula concentra sua base de sustentação principalmente no Nordeste:
Apoiam Flávio Bolsonaro (PL)
Governadores eleitos em 1º turno:
- São Paulo: Tarcísio de Freitas (Republicanos)
- Minas Gerais: Cleitinho Azevedo (Republicanos)
- Rio de Janeiro: Douglas Ruas (PL)
- Rio Grande do Sul: Zucco (PL)
- Santa Catarina: Jorginho Mello (PL)
- Paraná: Sergio Moro (PL)
- Goiás: Daniel Vilela (MDB)
- Mato Grosso: Otaviano Pivetta (Republicanos)
- Mato Grosso do Sul: Eduardo Riedel (PP)
- Pará: Dr. Daniel (PODE)
- Rondônia: Marcos Rogério (PL)
- Roraima: Arthur Henrique (PL)
Candidatos que disputam o 2º turno estadual/distrital:
- Acre: Mailza Assis (PP) e Alan Rick (Republicanos) – ambos apoiam o candidato do PL
- Amazonas: Professora Maria do Carmo (PL)
- Distrito Federal: Celina Leão (PP)
- Espírito Santo: Lorenzo Pazolini (Republicanos)
- Tocantins: Professora Dorinha (União) e Vicentinho Júnior (PSDB) – ambos apoiam o candidato do PL
Apoiam Lula (PT)
Governadores eleitos em 1º turno:
- Bahia: Jerônimo Rodrigues (PT)
- Ceará: Elmano de Freitas (PT)
- Paraíba: Lucas Ribeiro (PP)
- Piauí: Rafael Fonteles (PT)
- Sergipe: Fábio Mitidieri (PSD)
Candidatos que disputam o 2º turno estadual/distrital:
- Amazonas: Omar Aziz (PSD)
- Distrito Federal: Leandro Grass (PT)
- Rio Grande do Norte: Cadu de Lula (PT)
Governadores eleitos que não declararam voto público
- Alagoas: JHC (PSDB) – não declarou posicionamento formal para a rodada decisiva
- Amapá: Dr. Furlan (PSD) – optou por não se manifestar
- Maranhão: Eduardo Braide (PSD) – adiou definição sobre apoio público
- Pernambuco: Raquel Lyra (PSD) – evitou declaração de voto no 2º turno nacional
