Voto feminino vira foco estratégico das campanhas eleitorais, enquanto candidaturas de mulheres seguem abaixo de 40%

Maioria do eleitorado em Santa Catarina e no Brasil, as mulheres são alvo de campanhas em busca do seu voto, mas seguem sub-representadas nas candidaturas e longe de formar um bloco único

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Mulheres são 52% do eleitorado, mas apenas 36,7% do total de candidatos em Santa Catarina (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

As mulheres são o centro da disputa eleitoral deste ano. Maioria do eleitorado, elas correspondem a cerca de 52% dos votantes, tanto em Santa Catarina quanto no Brasil, e foram consideradas decisivas para a vitória de Lula (PT) sobre Jair Bolsonaro (PL) em 2022. Mesmo com esse peso, elas não formam um bloco único e, assim como os homens, se preocupam com temas como economia, violência e corrupção, mas têm demandas específicas. Desvendar esses interesses vem sendo alvo das principais campanhas de presidente e governador nesta reta final.

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Conforme a pesquisa Quaest para presidente, divulgada em 14 de setembro, 12% das mulheres se disseram indecisas sobre os candidatos para o primeiro turno, enquanto os homens indecisos eram 8%. Em relação à rejeição, 57% das eleitoras afirmam que não votariam em Flávio Bolsonaro e 55%, em Lula. As mulheres relataram preocupações principalmente com violência (31%), corrupção (20%), economia (19%) e saúde (11%).

“O voto feminino não é homogêneo. Varia muito em relação à renda, aos valores da religião, e grande parte das escolhas não está atrelada à ideologia, mas à perspectiva do que vai fazer sentido. Será que são propostas que vão cuidar da educação, da economia, questões que interferem e atravessam a realidade das mulheres?” diz a cientista política Camilla Soares Teixeira Camargo, mestranda em Administração pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).

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A pesquisadora também aponta uma sub-representação feminina entre as candidaturas: as mulheres somam apenas 36,7% do total em Santa Catarina e 34,8% no Brasil. Na disputa aos cargos principais, o número é ainda menor. Há somente uma mulher entre os oito candidatos a governador em SC, Laís Chaud (UP); enquanto, na corrida à Presidência, há duas entre os 13 postulantes, Samara Martins (UP) e Clariana Barão (DC).

Para Camilla, essa ausência causa uma imagem negativa com o eleitorado feminino:

[Os candidatos] estão tentando sanar essa imagem com a presença de mulheres em programas eleitorais, em falar sobre a questão da violência, que é uma pauta que hoje ganhou uma representatividade muito grande (…). Mas mesmo assim, essa prática parte mais de uma estratégia eleitoral do que de fato uma preocupação com esse eleitorado, porque se eles realmente tivessem uma preocupação, a gente teria uma maior representação e maior escolhas de mulheres para estarem em chapas no executivo.

Campanhas buscam voto feminino

Nas eleições de 2022, as mulheres foram consideradas decisivas para a vitória de Lula devido à rejeição acumulada por Jair Bolsonaro. Na época, institutos de pesquisa atribuíram a rejeição à condução da pandemia, à política de facilitação do porte de armas e a declarações lidas como machistas. Tendo isso em vista, neste ano, as principais campanhas para presidente e governador vêm mirando nesse eleitorado.

A campanha de Flávio Bolsonaro vem trazendo a esposa do senador, Fernanda Bolsonaro, e a madrasta, Michelle Bolsonaro (PL), para as propagandas. Na estreia no rádio e na TV, o senador se apresentou como pai, marido e filho.

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“Lá em casa, quem manda são elas”, disse. Depois passou a explorar o recorde de feminicídios registrado em 2025 para questionar a segurança pública do governo e, mais recentemente, abordou a queda do poder de compra dos brasileiros.

Nas últimas pesquisas Flávio apareceu em crescimento entre o voto feminino. Na Quaest de 14 de setembro, ele marcou 29% no primeiro turno entre as mulheres, contra 37% de Lula. A distância caiu de 14 para oito pontos em duas semanas. No segundo turno, são 41% a 38%, a menor diferença desde 5 de agosto, quando o petista abria 12 pontos.

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Para o consultor em marketing político Fred Perillo, porém, o crescimento de Flávio não vem de pauta. “Eu não vejo nenhuma pauta forte do Flávio em relação às mulheres. O que ele teve são movimentos de empatia, de colocar a esposa em alguns conteúdos, de humanizar a figura dele como uma pessoa leve, sorridente”, diz, citando também a entrevista do senador ao Jornal Nacional, na qual ele apareceu “mais descontraído e leve do que o Lula”, o que ajudou a “quebrar um pouco aquela rejeição”.

Do outro lado, a campanha de Lula vem reforçando o apelo às mulheres em discursos e estratégias. No comício em Curitiba, no dia 12, o presidente prometeu construir mais creches e universalizar a escola em tempo integral. Além disso, a esposa do candidato, Janja estreou nos blocos de rádio apresentando ações do governo voltadas ao público feminino.

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Para o consultor, o candidato do PT teria descuidado da pauta feminina. “O Lula estava um pouco acomodado, já entendendo que as mulheres naturalmente seriam maioria a favor dele. Ele acabou descuidando da pauta feminina.”

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Em SC, menos acenos

No caso dos candidatos ao governo catarinense, João Rodrigues (PSD) vem apostando em uma estratégia de humanização ao mostrar a esposa e as filhas nas propagandas televisivas, além de apresentar entregas na prefeitura de Chapecó referentes à saúde e à segurança nas escolas.

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Gelson Merísio (PSB) tem apresentado a vice Angela Albino (PDT) como porta-voz do combate à violência contra as mulheres. Na última semana, a pauta foi reforçada com as menções às agressões sofridas pela candidata a suplente no Senado, Fernanda Klitzke (PT), pela Polícia Militar de Jaraguá do Sul, ocorridas no sábado (12).

Jorginho Mello (PL), por outro lado, não tem feito acenos contundentes, segundo o analista político. Sua campanha é focada nas entregas do governo, tocando em temas de interesse das eleitoras, como hospitais e creches, sem endereçamento mais direto.

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“Nenhum dos candidatos hoje ao governo de Santa Catarina está com um discurso forte e convincente para a questão das mulheres”, avalia Perillo. “Alguns candidatos tratam como se fosse um nicho temático, saúde ou causa animal. Não, é majoritário na população brasileira.”

Segundo o consultor, as mulheres historicamente têm maior sensibilidade a essas pautas, já que, normalmente, é a mulher quem mais recorre à saúde e à educação dos filhos no dia a dia. Além disso, nos últimos anos, elas se tornaram chefes de família, comandando cerca de 49,1% dos lares brasileiros, segundo o Censo 2022 do IBGE, o que as tornou porta-vozes do custo de vida e do poder de compra.

Não existe uma bala de prata, uma única ação que você faça e vai conquistar mulheres. Você não precisa falar de temas diferentes para as mulheres. Você precisa entender que elas têm os mesmos problemas que os homens, só que de forma diferente.