A tese de que os jovens se afastaram da política institucional contrasta com os números da Justiça Eleitoral. Quase 30 mil candidatos com menos de 30 anos registraram candidatura no último pleito municipal, demonstrando mobilização na base. No entanto, a taxa de conversão desses nomes em cadeiras efetivas expõe um filtro econômico operado dentro das próprias legendas. Os dados do estudo “Juventudes e participação partidária”, elaborado pela Legisla Brasil, apontam que a barreira central não está na intenção de voto do eleitor, mas na alocação de capital na fase pré-eleitoral.
A métrica do financiamento é a taxa de sucesso
Em 2024, uma candidatura jovem recebeu, em média, R$ 23 mil do Fundo Eleitoral, o que representa 64% do valor direcionado aos postulantes das faixas etárias superiores, cuja média foi de R$ 36 mil.
A disparidade orçamentária reflete diretamente no desempenho final nas urnas:
- 18 a 20 anos: 7,1% de taxa de sucesso eleitoral.
- 35 a 44 anos: 16% de taxa de sucesso eleitoral.
- Representação final: A faixa de 18 a 29 anos conquistou apenas 6% das vagas de vereador no país.
O modelo de incentivos das siglas
A assimetria na distribuição dos recursos decorre da lógica de gestão dos fundos partidários. Como a nota de corte para a cláusula de barreira exige votação imediata, os diretórios priorizam nomes com capital político pré-existente ou em busca de reeleição, mitigando o risco do investimento.
A alocação de recursos obedece à previsibilidade de retorno nas urnas. Em entrevista ao Correio Braziliense, o diretor executivo da Legisla Brasil, Fernando Haddad Moura, explicou o funcionamento desse ciclo
O investimento em candidaturas de pessoas que tentam a reeleição costuma ter um retorno maior no número de eleitos do que o investimento em novas lideranças. Isso gera um ciclo em que os partidos priorizam candidatos experientes em detrimento dos jovens, dificultando a renovação.
O funil de representatividade
O estudo evidencia que a afunilação afeta desproporcionalmente as candidaturas que somam recortes de gênero e raça. A combinação entre juventude e primeiro mandato reduz o acesso a tempo de rádio, TV e impulsionamento digital, itens dependentes do repasse financeiro concentrado nas executivas partidárias.
Sem mudanças nas regras de distribuição interna das verbas públicas de campanha, a entrada de novas lideranças nos parlamentos municipais e estaduais continuará dependendo de exceções pontuais, mantendo a idade média dos legislativos elevada em relação ao perfil do eleitorado brasileiro.
*Com edição de Luiz Daudt Junior.
