Uma pesquisa realizada com duas populações indígenas da Amazônia boliviana encontrou poucos casos de demência, mas também revelou um detalhe que ajuda a interpretar esse resultado com mais cuidado. Entre os Tsimané e os Mosetén, a prevalência da doença permaneceu abaixo de 2%, enquanto novos casos foram registrados durante quase cinco anos de acompanhamento.
O estudo, publicado na revista Alzheimer’s & Dementia, acompanhou 730 adultos que não apresentavam demência no início da investigação. Depois de uma mediana de 4,7 anos, os pesquisadores identificaram 22 novos casos.
A taxa correspondeu a 7,40 casos por mil pessoas-ano. Ainda assim, a proporção de pessoas vivendo com demência continuou abaixo de 2%.
Quem participou do estudo
Os Tsimané e os Mosetén vivem na região amazônica da Bolívia e possuem diferentes níveis de integração à sociedade boliviana. Os Tsimané mantêm um modo de vida mais ligado à subsistência, com atividades como agricultura, caça, pesca e coleta. Os Mosetén, embora tenham relação histórica e linguística com os Tsimané, apresentam maior integração.
Essas características despertaram o interesse científico porque as duas populações apresentam rotinas diferentes das encontradas em sociedades urbanas e industrializadas.

Pesquisadores já haviam analisado a prevalência de demência nesses grupos. Em um trabalho publicado em 2022, foram avaliados 623 indígenas com 60 anos ou mais. Na ocasião, foram encontrados cinco casos entre 435 Tsimané, equivalente a 1,2%, e um caso entre 169 Mosetén, correspondente a 0,6%.
Novos casos apareceram
A pesquisa mais recente trouxe uma informação que amplia o entendimento sobre esses números.
Embora poucas pessoas estivessem vivendo com demência, 22 participantes desenvolveram a doença durante o período de acompanhamento. O resultado mostra que a ocorrência de novos casos não era tão baixa quanto a prevalência inicial poderia sugerir.
A diferença entre incidência e prevalência é importante. A incidência considera os novos casos que surgem ao longo de determinado período. Já a prevalência mostra quantas pessoas apresentam a condição em uma população em determinado momento.
Por isso, uma população pode registrar novos casos e, ainda assim, manter uma prevalência relativamente baixa.
A mortalidade mudou a leitura
Um dos principais achados do estudo foi a mortalidade significativamente maior entre os participantes que já tinham demência no início do acompanhamento.
Esse resultado pode ajudar a explicar por que a quantidade de pessoas vivendo com a doença permaneceu abaixo de 2%, mesmo com o surgimento de novos diagnósticos durante a pesquisa.
Na prática, se pessoas com demência morrem em maior proporção, o número de indivíduos que permanece vivo com a condição pode ser menor. A prevalência, portanto, não representa sozinha toda a ocorrência da doença naquela população.
A própria pesquisa também não transforma hábitos das comunidades em uma explicação definitiva para a baixa prevalência. Características como atividade física elevada, alimentação e menor frequência de determinados fatores de risco cardiovascular já haviam sido observadas em estudos anteriores, mas sua relação com a demência continua sendo investigada.
