Imagine navegar 30 horas rio adentro, a partir de Santarém, para levar cuidados básicos de saúde a populações que não veem um médico há anos. Foi com esse espírito de entrega e solidariedade que um grupo de cerca de 11 profissionais da saúde de Blumenau embarcou na missão humanitária do Projeto Bem-Aventurados, a bordo do famoso Barco Hospital Papa Francisco.
A expedição levou uma equipe multidisciplinar completa, entre eles: Maria Elisabete Goedert (dentista) , Amanda Mandelli (anestesista) Isadora Heinzen (radiologista) , Rodrigo Muller (oftalmologista), Rinaldo Danesi Pinto (cirurgião)com cirurgiões, até o coração das comunidades ribeirinhas do Rio Amazonas e seus afluentes.
O saldo em apenas três dias e meio de trabalho intensivo foi impressionante: mais de 4.600 atendimentos e 51 cirurgias realizadas.
Tecnologia no rio e enfermaria de redes
Engana-se quem pensa que a medicina no meio da floresta precisa ser improvisada. O Barco Hospital Papa Francisco impressiona pela infraestrutura de ponta: possui ambulatórios, laboratório, farmácia, exames de radiologia e um centro cirúrgico equipado com videolaparoscopia.
“Fizemos procedimentos como colecistectomias por videolaparoscopia com toda a segurança necessária. Mas o toque regional é inesquecível,a enfermaria onde os pacientes se recuperam da anestesia e das cirurgias é composta por redes, em vez das tradicionais macas de hospital”, relata Rinaldo Danesi Pinto, cirurgião oncologista, especialista em fígado, pâncreas e vias biliares.
O retrato do isolamento
A missão aportou em duas localidades com realidades severas de desassistência. A primeira delas foi a Comunidade do Recreio, que estava há 3 anos sem receber qualquer assistência médica. Após o grupo partiu para a Comunidade de Barreiras, que não via um profissional da saúde há 1 ano e 7 meses.
Nessas regiões, a logística dita o ritmo da vida e da sobrevivência. Na seca, navegar é quase impossível; na cheia, a viagem em pequenas embarcações até o município mais próximo leva de 4 a 8 horas. Para chegar a um centro maior como Santarém, são 30 horas de barco.
Como em toda grande expedição, a jornada não esteve isenta de percalços. Um voo cancelado na saída quase comprometeu o cronograma. Quando o grupo finalmente desembarcou na região, o barco hospital já havia partido.
A solução foi digna de filme: a equipe precisou embarcar em um pequeno avião monomotor, sobrevoar a imensidão da Floresta Amazônica e pousar em uma pista de terra no meio da mata. De lá, pegaram uma lancha rápida para alcançar a embarcação principal já em curso pelo rio.
Entre os voluntários estava o cirurgião blumenauense Dr. Rinaldo, que vivenciou dias de intensa dedicação e aventuras no coração da floresta, abaixo um trecho de nossa conversa sobre a expedição:
PERGUNTA: Dr. Rinaldo, como foi a estrutura da equipe e qual foi o alcance dessa missão no Barco Hospital?
RESPOSTA: Fomos em um grupo de aproximadamente 11 médicos de várias especialidades cirurgião, ginecologista, dentista, radiologista, anestesista, clínico geral e pediatra. Fizemos 4.600 atendimentos nessa semana. Considerando que são cerca de 30 horas só para chegar até a comunidade ribeirinha saindo de Santarém: 30 horas de barco para ir e 30 para voltar, tivemos cerca de três dias e meio de atendimento efetivo, onde conseguimos esse número expressivo e realizamos 51 cirurgias.
PERGUNTA: Como é a infraestrutura de um barco hospital no meio da Amazônia? Dá para realizar cirurgias com segurança?
RESPOSTA: É um barco muito organizado e bem estruturado. Ele tem ambulatórios, radiologia, laboratório, farmácia e uma sala cirúrgica equipada com videolaparoscopia. Eu pude fazer, por exemplo, colecistectomia (retirada da vesícula) por videolaparoscopia. Fazemos tudo com total segurança e não operamos pacientes de alto risco para evitar complicações. E os pacientes ficam internados numa enfermaria muito peculiar: em vez de macas e camas, são redes! Eles ficam de um dia para o outro, nós avaliamos e depois liberamos.
PERGUNTA: Quais comunidades vocês atenderam e qual era a situação de saúde dessas pessoas?
RESPOSTA: Atendemos duas comunidades: Recreio e Barreiras. A comunidade do Recreio estava há três anos sem receber nenhuma assistência médica. Já a de Barreiras estava há um ano e sete meses sem atendimento. São locais que levam muito tempo de deslocamento. Na época da seca, nem se consegue navegar muito; na cheia, barcos menores levam de 4 a 8 horas para ir até uma cidade próxima. Para Santarém, são 30 horas. Então, eles ficam realmente muito desassistidos.
PERGUNTA: Vocês também passaram por um percalço logístico antes mesmo de a missão começar, não é?
RESPOSTA: Tivemos uma verdadeira aventura na ida! A companhia aérea cancelou nosso voo e precisamos pegar outro. Quando chegamos a Santarém, o barco já tinha partido. Tivemos que embarcar em um aviãozinho pequeno, sobrevoando a Amazônia, e aterrissamos numa pista de terra no meio da floresta. De lá, pegamos uma lancha rápida que nos levou até o barco hospital, que já estava no meio da viagem pelo rio.
PERGUNTA: Qual o sentimento ao retornar para Blumenau após essa vivência?
RESPOSTA: Foi uma experiência muito legal, muito gratificante. Sou extremamente grato por termos estado lá. Foram várias histórias e momentos marcantes que vamos guardar para sempre.
A ação do grupo blumenauense no Projeto Bem-Aventurados reitera a vocação da nossa medicina para além dos consultórios e hospitais locais. Fica o registro de uma viagem histórica, onde a técnica médica se uniu à empatia para transformar a realidade de milhares de brasileiros invisibilizados pela distância.






