Ela transformou a dor em propósito e hoje reconstrói a autoestima de mulheres após o câncer de mama

Com um projeto social para pacientes do SUS e através da Rede Feminina de Combate ao Câncer, Ana Bomsenhor reconstrói autoestimas com a tatuagem paramédica

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Ana Paula Bomsenhor ainda buscava uma forma de transformar em propósito a dor causada pela perda do pai para o câncer. (Fotos: Arquivo pessoal)

Há quatro anos, quando decidiu se especializar em tatuagem paramédica, Ana Paula Bomsenhor ainda buscava uma forma de transformar em propósito a dor causada pela perda do pai para o câncer. Hoje, a tatuadora e micropigmentadora de Blumenau já realizou mais de 300 procedimentos de reconstrução de aréolas em pacientes que passaram pelo câncer de mama, tornou o trabalho voluntário pelo SUS ainda mais amplo por meio de uma parceria com a Rede Feminina de Combate ao Câncer e acaba de se tornar campeã nacional em um campeonato mundial da área.

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“Sempre penso em cada procedimento que eu faço como uma cura emocional para essas pacientes. O sentimento de saudade do meu pai se modificou através desse meu propósito. A cada vida que eu consigo impactar emocionalmente, com certeza essa ferida acaba mudando.

Prêmio de campeã nacional e reconhecimento

A conquista ocorreu na categoria de aréolas realistas em paciente real, uma das modalidades do campeonato, realizado de forma on-line e considerado por Ana um dos maiores do mundo na área de Permanent Makeup. Para participar, ela precisou registrar um procedimento realizado em uma paciente e apresentar o resultado depois de cicatrizado. O trabalho foi avaliado pela técnica e pelo resultado da reconstrução.

O título também representa uma espécie de validação de uma técnica que Ana aperfeiçoa há anos. Antes de se dedicar à tatuagem paramédica, já trabalhava com micropigmentação voltada ao embelezamento há mais de uma década. A especialização em procedimentos paramédicos veio depois, quando percebeu que poderia usar a experiência com pigmentação e arte para ajudar pessoas que carregavam no corpo as marcas de cirurgias e tratamentos médicos.

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“É uma experiência emocionalmente positiva, repleta de cuidado e empatia. É uma oportunidade para essas mulheres se olharem no espelho e se sentirem completas novamente, recuperarem a autoestima depois de um processo tão doloroso. É encerrar um ciclo de luta e dor com cor e arte. É ressignificar histórias”, expressa Ana.

Confira algumas fotos do trabalho de Ana

“Autoestima às mulheres”

O reconhecimento chega em um momento de expansão do trabalho para além do estúdio na Avenida Brasil, no bairro Ponta Aguda. Neste fim de semana, Ana viaja a São Paulo para receber o troféu do campeonato e também foi convidada para ministrar uma palestra durante o evento. Nos últimos meses, ela passou a participar de congressos e feiras de beleza, além de ministrar conteúdos e oferecer mentorias e workshops para profissionais interessados na tatuagem paramédica.

“Para mim, é a validação de estar entregando a melhor técnica para as pacientes. E também receber essa visibilidade a nível nacional sempre foi o meu objetivo, de mostrar a importância desse trabalho e o quanto ele devolve a autoestima para as mulheres”, elabora a tatuadora.

Uma técnica que reconstrói a alma das mulheres

A técnica de Ana consiste na aplicação de pigmentos sobre a pele para criar uma reconstrução visual das aréolas e mamilos ou para suavizar a aparência de cicatrizes, estrias e outras marcas. No caso de mulheres que passaram por uma mastectomia, o procedimento pode representar uma das últimas etapas de reconstrução depois do tratamento contra o câncer de mama.

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É justamente nesse momento que Ana percebe a dimensão do trabalho que escolheu fazer. Ela conta que algumas pacientes chegam fragilizadas emocionalmente, com dificuldade para olhar para o próprio corpo depois das cirurgias. O procedimento, segundo ela, pode ajudar a recuperar a autoestima e trazer a sensação de encerramento de um ciclo.

Entre as pacientes que mais a marcam estão as mulheres jovens que enfrentaram a doença. A tatuadora paramédica conta que já atendeu pacientes com menos de 30 anos e que, nesses casos, sente ainda mais forte a responsabilidade de ajudar alguém tão jovem, que tem uma vida inteira pela frente depois de uma experiência tão difícil.

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Da dor ao propósito

A inspiração para entrar na tatuagem paramédica veio da experiência pessoal de perder o pai para o câncer. Na época, a dor da perda acabou se transformando em uma vontade de fazer alguma coisa por pessoas que também precisavam reconstruir a própria vida depois de superarem a doença. Com o passar dos anos, o trabalho fez com que a lembrança do pai ganhasse outro significado.

“Essa experiência impulsionou meu propósito e desejo de fazer a diferença na vida de pacientes que passaram por situações semelhantes”, conta Ana.

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O projeto social “Seja Forte e Corajosa” nasceu dessa vontade e, com o tempo, também cresceu. Ana já realizava gratuitamente tatuagens de aréolas para mulheres que haviam feito todo o tratamento de câncer de mama pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O trabalho ganhou uma nova dimensão quando ela passou a atuar como voluntária na Rede Feminina de Combate ao Câncer.

“A rede faz esse encaminhamento e eu atendo lá a cada 15 dias. E, para mim, é muito importante porque traz um impacto realmente na prática, na autoestima das mulheres, qualidade de vida e bem-estar. São mulheres que, muitas vezes, estão em processo de depressão, que não conseguem se olhar no espelho e, agora, é aquele sentimento de recomeço, de renascimento mesmo após um momento tão difícil”, explica a micropigmentadora.

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O trabalho também rendeu uma homenagem durante um encontro que reuniu representantes das Redes Femininas de Combate ao Câncer de toda Santa Catarina pelos 65 anos. Ana recebeu um reconhecimento, no dia 6 de maio deste ano, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) pelo trabalho humanizado desenvolvido junto às pacientes.