Um pequeno frasco e a esperança de um recomeço. Um jovem de 21 anos, que ficou paraplégico após sofrer um acidente, recebeu a polilaminina, substância em estudo que pode ajudar no tratamento de lesões medulares. A aplicação foi feita em menos de 10 dias depois do acidente, no Hospital São José, em Joinville, que é o primeiro da região Norte de SC a receber e aplicar a polilaminina.
A aplicação da substância em fase de estudos ocorreu na quinta-feira (23), com a participação da equipe da ortopedia do hospital joinvilense, além de um neurocirurgião de Foz do Iguaçu e de um médico aluno de doutorado da pesquisa do Rio de Janeiro.
Como aconteceu a aplicação da polilaminina no hospital de SC
O paciente é um jovem de 21 anos que sofreu um acidente de motocicleta no último domingo (19). No mesmo dia, ele foi encaminhado ao Hospital São José, onde foi diagnosticado com lesão medular aguda completa que ocasionou a paraplegia, perda total de função motora e da sensibilidade das pernas e de parte do tronco.
A partir da sugestão de uma das médicas do hospital, a irmã do paciente entrou em contato com o Laboratório Cristália, responsável pela produção da polilaminina. A substância está em fase de estudos e, por isso, não está disponível para venda nem para uso no SUS. O acesso ao tratamento ocorre por meio do Programa de Uso Compassivo, autorização concedida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que permite a disponibilização de produtos de terapia avançada em fase de desenvolvimento.
— Eu entrei em contato com o laboratório achando que seria impossível. Eles foram atenciosos, perguntaram sobre o acidente, pediram dados do paciente, prontuário, laudo médico, tempo do acidente. Mandei isso e em menos de 30 minutos eles deram retorno dizendo que ele parecia ser elegível para receber a polilaminina — detalha Débora Souza, irmã do paciente.
Com a aprovação inicial, o médico especialista em cirurgia da coluna vertebral Alberto Kazuo Miyamoto e o ortopedista residente Ângelo Gubert Jacomel, que integram a equipe médica do paciente no Hospital São José, reuniram a documentação necessária e passaram a fazer contato com a equipe do estudo.
— Nós temos que atender aos protocolos de inclusão no programa e somente após a aprovação da equipe de pesquisa que o medicamento é liberado para que a equipe vinculada ao programa de pesquisa venha até nós — explica Alberto.
Com a aprovação do paciente para receber a polilaminina pelo laboratório, o pedido de aplicação ainda foi submetido à Anvisa. Foi a última etapa antes da realização do procedimento que reacendeu a esperança da família em uma melhor recuperação para o paciente.
— A gente está bem ciente da gravidade do caso, mas temos esperança de que se ele não voltar a ter todos os movimentos, que tenha autonomia no cotidiano, que a medicação consiga manter a medula saudável após ter sofrido muitas lesões. Nosso milagre a gente já recebeu porque ele está vivo e o segundo é receber a medicação. Se Deus quiser dar pra gente o terceiro milagre, que é recuperar os movimentos, a gente tem fé — diz a irmã.
Como funciona a aplicação da polilaminina
A polilaminina é aplicada apenas em pacientes que atendem aos requisitos. De acordo com o neurocirurgião João Sarraf, que aplicou a polilaminina e integra a equipe da pesquisadora Tatiana Sampaio, o paciente foi elegível porque sofreu um traumatismo raquimedular em uma fase aguda, bem precoce, e um trauma dorsal nas vértebras, o que o engloba os nossos protocolos de aplicação. O neurocirurgião ainda explica que a polilaminina é diluída e aplicada sobre a lesão do paciente.
— A gente aplicou nas duas extremidades para fazer como uma ponte para a medicação agir de forma mais eficaz — complementa. O procedimento foi acompanhado por técnicos, enfermeiros e médicos do hospital joinvilense.
o médico Alberto Kazuo Miyamoto lembra que o Hospital São José é um hospital porta aberta, então a maioria dos traumas da região chega na unidade.
— Não teria outro lugar que desse pra fazer isso e a estrutura daqui permitiu que a gente executasse corretamente — complementa.
Antes da aplicação da polilaminina, o paciente já havia passado por uma cirurgia para fixar a fratura. Ele segue internado em estado estável no Hospital São José, onde é acompanhado por uma equipe de ortopedistas e fisioterapeutas. Apesar de não fazer parte do estudo clínico, o paciente terá os resultados avaliados também pelos pesquisadores do Rio de Janeiro.
— O procedimento representa um marco para a assistência SUS a nível de Brasil, Santa Catarina e Joinville. O Hospital São José já é referência em alta complexidade e isso mostra cada vez mais a qualidade do serviço de ortopedia prestado pelo São José — destaca o diretor-presidente do hospital, Arnoldo Boege Junior.
O que é a polilaminina
A polilaminina é a versão polimerizada (quimicamente unida) da laminina, proteína naturalmente encontrada no corpo humano. Para a produção da polilaminina, a laminina é extraída de placentas e levada ao laboratório para a formulação do medicamento.
Estudos indicam que a polilaminina cria uma espécie de malha por onde os axônios, neurônios que caminham pela medula espinhal, reconectam-se e restabelecem a transmissão de comandos entre o cérebro e o restante do corpo. Dessa forma, pessoas com lesão medular podem recuperar parcial ou totalmente os movimentos.
Como a aplicação da polilaminina está em fase de estudos, a substância não está disponível no Hospital São José ou em outras unidades hospitalares, e seu uso é realizado mediante avaliação da equipe e autorização da Anvisa.






