Tivemos a confirmação recente pela Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina (DIVE/SC) da segunda morte por hantavirose em nosso estado neste ano. O paciente é um jovem de 28 anos, morador de Itajaí e sem comorbidades prévias.
Infelizmente, esta é a realidade que a medicina tropical, uma área da infectologia que enfatiza há décadas sobre a hantavirose: sem dúvidas, ela é uma das zoonoses mais letais, fulminantes e negligenciadas do ambiente rural e de transição silvestre.
Somado ao óbito registrado anteriormente no município de Rio do Campo, este novo caso reacende a discussão sobre vigilância, diagnóstico precoce e a convivência cada vez mais próxima entre a expansão humana e os ecossistemas nativos.
O que é hantavirose e por que a doença é tão grave
Para compreender a dimensão do problema, é preciso olhar para além das nossas divisas. Globalmente, os hantavírus pertencem à família Hantaviridae e apresentam duas manifestações clínicas bem distintas, dependendo da geografia.
Na Europa e na Ásia, prevalecem as cepas do chamado “Velho Mundo”, associadas à Febre Hemorrágica com Síndrome Renal, uma condição grave, porém com taxas de mortalidade que costumam variar entre 1% e 15%. Já nas Américas, enfrentamos os hantavírus do “Novo Mundo”, responsáveis pela Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus.
Trata-se de uma entidade nosológica muito mais agressiva, cuja letalidade média no continente americano gira em torno de 35% a 50%, rivalizando com algumas das infecções virais mais temidas da história moderna.
Como ocorre a transmissão do hantavírus para humanos
No Brasil, os roedores silvestres, e não os ratos urbanos comuns, como as ratazanas ou camundongos domésticos, atuam como reservatórios naturais e assintomáticos do vírus. A transmissão para os seres humanos raramente ocorre por mordedura.
O mecanismo clássico e mais perigoso é a inalação de aerossóis. Quando a urina, as fezes ou a saliva dos roedores silvestres secam no ambiente, as partículas virais se misturam à poeira.
Ao entrar em um galpão fechado, um paiol, uma casa de campo que ficou trancada por meses ou ao manusear colheitas e entulhos sem a devida proteção, a pessoa aspira essa poeira invisível e infectada.
Hantavirose é registrada em Santa Catarina desde os anos 1990
Historicamente, Santa Catarina registra casos da doença desde o final da década de 1990, mantendo uma vigilância epidemiológica ativa conduzida pela DIVE. O cenário catarinense é marcado por uma forte presença da agricultura familiar, do ecoturismo e do reflorestamento, atividades que naturalmente aproximam o ser humano do habitat do roedor silvestre.
No caso específico reportado em Itajaí, o diagnóstico foi ratificado pelo Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) após histórico de exposição do paciente a ambientes contaminados por dejetos de roedores. O fato de a vítima ser um adulto jovem e previamente hígido reflete o padrão devastador da resposta imune à infecção.
Quais são os primeiros sintomas da hantavirose
O grande desafio da hantavirose reside na sua fisiopatologia e no seu início insidioso. O período de incubação pode variar de uma a seis semanas, o que muitas vezes faz com que o paciente não associe os sintomas iniciais àquela limpeza de galpão feita um mês antes.
A fase inicial manifesta-se de forma inespecífica: febre, dores musculares intensas, principalmente nas coxas e costas, dor de cabeça, prostração e sintomas gastrintestinais como náuseas e dor abdominal. Nessa etapa, é frequentemente confundida com dengue, gripe ou outras viroses comuns.
Hantavírus pode causar insuficiência respiratória em poucas horas
Contudo, entre o terceiro e o sexto dia de doença, ocorre a temida transição para a fase cardiopulmonar. O vírus promove um aumento abrupto da permeabilidade vascular na microcirculação dos pulmões.
O plasma sanguíneo extravasa para dentro dos alvéolos, provocando um edema pulmonar não cardiogênico fulminante. O paciente passa a apresentar tosse, taquicardia e uma falta de ar avassaladora. A evolução para a insuficiência respiratória grave e choque circulatório pode ocorrer em poucas horas.
Como é feito o tratamento da hantavirose
Sem um tratamento específico e comprovadamente eficaz contra o hantavírus até o momento, a sobrevida do paciente depende exclusivamente da rapidez do diagnóstico e do suporte de terapia intensiva precoce.
O manejo exige monitoramento hemodinâmico rigoroso, suporte ventilatório mecânico adequado e uso criterioso de vasoativos, evitando o excesso de fluidos que pode agravar o edema pulmonar.
Como prevenir a contaminação pelo hantavírus
Diante desse cenário, a prevenção continua sendo a nossa arma mais eficiente. Ambientes rurais, galpões, depósitos ou edificações que permaneceram fechados por muito tempo jamais devem ser varridos a seco.
A varredura levanta a poeira contaminada diretamente para as vias aéreas do indivíduo. A orientação técnica é abrir portas e janelas para ventilar o local por pelo menos trinta minutos antes do acesso.
A limpeza deve ser sempre umedecida, utilizando soluções à base de hipoclorito de sódio, a água sanitária, para inativar o vírus, e realizada com o uso de máscaras de proteção respiratória adequadas, como PFF2/N95, e luvas.
Caso de hantavirose em Itajaí reforça alerta em Santa Catarina
O caso confirmado no Litoral Norte alerta a comunidade médica e a população. Os profissionais de saúde de Santa Catarina precisam manter um alto grau de suspeição clínica diante de quadros febris associados a desconforto respiratório ou plaquetopenia, investigando sempre o histórico ocupacional e de exposição ambiental do paciente.
A hantavirose é uma doença grave, mas o conhecimento sobre suas formas de contágio e a suspeita precoce podem ser a linha divisória entre a vida e a morte.
