Uma dor na perna parecia passageira. Pouco tempo depois, Brenda Algozino, de 10 anos, acordou sem conseguir se mexer e passou a sentir dores nos braços, nos ombros e em outras partes do corpo. Ela recebeu o diagnóstico de artrite idiopática juvenil, uma doença que pode começar justamente com sintomas confundidos com problemas comuns da infância.
A condição aparece antes dos 16 anos e está entre os diagnósticos reumatológicos mais frequentes em crianças. Estatísticas internacionais indicam que aproximadamente uma em cada mil crianças convive com a doença. No Brasil, porém, ainda não existem dados nacionais de incidência.
Quando a dor não passa
A artrite idiopática juvenil, conhecida pela sigla AIJ, provoca inflamação nas articulações. A causa é desconhecida e existem sete subtipos da doença, definidos de acordo com as articulações atingidas. Por isso, o tratamento precisa considerar as características de cada paciente.
Um dos principais obstáculos aparece antes mesmo do tratamento: reconhecer que aquela dor pode não ser apenas uma consequência do crescimento. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, muitos casos acabam associados inicialmente aos chamados “dores de crescimento”.
Existe, porém, uma diferença importante. As dores relacionadas ao crescimento costumam aparecer no fim do dia e desaparecer pela manhã. Na AIJ, a situação pode ser diferente: a doença tende a piorar durante o repouso e provocar rigidez ao acordar.
O impacto na infância
A história de Paula Gallinger mostra como a demora no diagnóstico pode alterar a rotina. Aos 10 anos, ela começou a sentir dor em um dos pés, inicialmente atribuída ao crescimento. Depois, a inflamação atingiu outras articulações e ela passou por um diagnóstico de fascite plantar antes de chegar ao tratamento correto.
A família precisou viajar de Rivera, no interior de Buenos Aires, até a capital argentina em busca de atendimento especializado. Durante o período mais difícil, a rigidez matinal chegou a impedir que Paula percorresse os poucos metros entre a casa e o ponto da condução escolar.
Mesmo com as limitações, especialistas destacam que o movimento continua importante. A recomendação é adaptar atividades físicas às condições de cada criança, em vez de simplesmente afastá-la das brincadeiras ou deixá-la em repouso.
Tratamento mudou
O tratamento da AIJ passou por mudanças importantes nas últimas décadas. Antes dos anos 2000, os corticoides tinham papel central e o uso prolongado podia provocar efeitos adversos relevantes. A chegada dos medicamentos biológicos modificou o cenário e melhorou o prognóstico dos pacientes diagnosticados e tratados adequadamente.
O acesso, porém, continua sendo uma dificuldade. Segundo a reportagem, os medicamentos biológicos podem custar cerca de 6 milhões de pesos argentinos por mês, enquanto algumas aplicações chegam a 60 milhões de pesos em situações graves. A burocracia para conseguir a cobertura também pesa sobre as famílias.
O acompanhamento envolve diferentes profissionais, incluindo pediatras, nutricionistas, oftalmologistas, psicólogos e terapeutas ocupacionais. A proposta é controlar a doença e, ao mesmo tempo, preservar o desenvolvimento e a autonomia da criança.
Autonomia desde cedo
A preocupação não termina quando os sintomas são controlados. Especialistas defendem que crianças com AIJ aprendam progressivamente sobre a própria condição para assumir responsabilidades sobre a saúde no futuro. No Hospital de Niños Sor María Ludovica, em La Plata, uma unidade de transição funciona desde 2009 com esse objetivo.
Brenda, que recebeu o diagnóstico aos 10 anos, hoje vive sozinha, estudou três carreiras, trabalha como corretora editorial e coordena clubes de leitura virtuais. A trajetória dela reforça uma das principais mensagens dos especialistas: a artrite não precisa determinar o que uma criança poderá fazer ao longo da vida.
Enquanto isso, uma pesquisa multicêntrica reúne 26 centros de reumatologia pediátrica de 14 províncias argentinas e da cidade de Buenos Aires para dimensionar a ocorrência das doenças reumáticas entre crianças e adolescentes. Os primeiros resultados são esperados para 2027 e devem ajudar a formar estatísticas nacionais.





