A hanseníase voltou a ocupar o centro das atenções da saúde pública em Santa Catarina de maneira contundente. Historicamente classificado com indicadores de baixa endemicidade na população geral, o território catarinense vivenciou um salto expressivo de 155,1% no registro de novos casos no primeiro semestre de 2026 em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Esse cenário, longe de ser apenas um dado estatístico descontextualizado, acendeu um sinal de alerta fundamental para toda a sociedade e para as equipes de vigilância epidemiológica do Estado.
A Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina (SES/SC), e a Diretoria de Vigilância Epidemiológica (DIVE/SC), alerta os municípios catarinenses para o aumento do número de casos novos de hanseníase observado no primeiro semestre de 2026.
A elevação expressiva nas notificações é concentrado de forma marcante, principalmente nos municípios de Caçador (22 casos), Lebon Régis (17) e Itapoá (14), que, juntos, responderam por 42,4% dos casos registrados no estado no período.
Por um lado, este dado pode refletir a intensificação da busca ativa de casos, a qualificação dos profissionais da atenção primária e o aprimoramento do diagnóstico nas unidades de saúde destes municipios. Por outro, aponta para a existência de cadeias de transmissão ativas na comunidade, reforçadas pela identificação de acometimento em menor de 15 anos e pelo predomínio da forma multibacilar na esmagadora maioria dos pacientes diagnosticados.
O que é a hanseníase?
O termo “hanseníase” passou a ser adotado oficialmente no Brasil a partir da década de 1970, e consagrado pela Lei Federal nº 9.010, de 1995, para rebater o forte estigma, preconceito e discriminação associados ao nome antigo: LEPRA. Além de homenagear o médico norueguês Gerhard Hansen, que identificou a bactéria causadora (Mycobacterium leprae) em 1873.
A hanseníase é uma doença infecciosa e crônica, provocada pela bactéria Mycobacterium leprae. Seu alvo principal é a pele e os nervos periféricos, manifestando-se por meio de lesões de pele com alteração ou perda de sensibilidade térmica, dolorosa e tátil, além de episódios de dormência, formigamento e diminuição da força muscular nas extremidades do corpo.
Como a hanseníase é transmitida?
A hanseníase é transmitida de pessoa para pessoa por via aérea, através de pequenas gotículas eliminadas pelo nariz ou pela boca por alguém infectado que não esteja em tratamento. A transmissão exige um contato próximo e prolongado, sendo mais comum entre pessoas que moram na mesma casa ou compartilham o mesmo ambiente.
O aspecto mais reconfortante em relação à doença, é que, assim que a medicação é iniciada, a transmissão é interrompida imediatamente.
Quais os sintomas?
Os principais sintomas da hanseníase afetam a pele e os nervos periféricos, com surgimento de manchas de cor clara, avermelhada ou acastanhada, diminuição ou perda da sensibilidade ao calor, ao frio, à dor e ao toque nas regiões afetadas da pele, sensação de formigamento, dormência, agulhadas ou diminuição de força muscular, principalmente nos braços, mãos, pernas e pés, dor ou espessamento dos nervos periféricos (como no cotovelo, punho, joelho ou tornozelo), e por último, diminuição dos pelos e ausência de suor na área da mancha.
Como é o diagnóstico?
O diagnóstico da hanseníase é essencialmente clínico e epidemiológico. Primeiramente, testam-se as manchas na pele para verificar a perda ou diminuição da sensibilidade térmica (calor e frio), dolorosa e tátil. Além disso, é examinado os nervos periféricos (principalmente em braços, pernas e pescoço) para checar espessamentos, dor ou perda de força muscular nas extremidades. Quando necessário, pode-se realizar a baciloscopia de linfa cutânea para identificar o Mycobacterium leprae e auxiliar na classificação operacional do paciente.
Tem tratamento?
Sim, e o tratamento é gratuito pelo Sistema Único de Saúde, que utiliza a Poliquimioterapia, uma combinação de antibióticos extremamente eficazes. Quando iniciado precocemente, o tratamento não apenas garante a cura definitiva, mas impede a progressão de danos neurológicos graves.
Infelizmente, o grande desafio em Santa Catarina é que mais de 10% dos pacientes nos últimos anos, e 14,4% nos primeiros meses deste ano, chegam ao diagnóstico já apresentando o Grau 2 de incapacidade física, sinal inequívoco de diagnóstico tardio. Para reverter esse quadro, é indispensável que a população atente para os primeiros sinais na pele e que os serviços de saúde fortaleçam a investigação minuciosa dos contatos de cada paciente.
Essa busca ativa precisa ser aliada à desmistificação da doença. O preconceito e a falta de informação ainda fazem com que muitos atrasem a ida ao médico por medo ou negação. Precisamos lembrar que a hanseníase tem cura, e que o tratamento gratuito oferecido pelo SUS interrompe a transmissão logo nas primeiras doses, protegendo a família e toda a comunidade.
