Uma enfermeira de Goiânia, capital de Goiás, morreu na última sexta-feira (11) seis meses após ser diagnosticada com a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), a mesma que acometeu o influenciador Lito Sousa, do canal Aviões e Músicas. Érika Fernandes Viana, de 51 anos, teve os primeiros sintomas em dezembro do ano passado e, com o passar do tempo, perdeu os movimentos até ficar sem andar. O diagnóstico ocorreu em março de 2026.
Segundo Elizabeth Nunes, amiga da enfermeira, Érika atuava em Senador Canedo. Também era técnica de enfermagem na UPA Novo Mundo, na capital goiana. Ao g1, a amiga contou que os primeiros sintomas surgiram no fim de 2025, com episódios de tontura. Inclusive, a suspeita inicial era que fosse labirintite, porém o quadro motor da enfermeira piorou muito rápido.
“A gente foi acompanhando porque ela foi perdendo os movimentos e começou a andar com andador. Foi ao médico, ao otorrino, porque começou com tontura e pensamos que era labirintite. […] Depois de um mês de internação, veio o diagnóstico da doença”, explica Elizabeth.
A amiga complementou, ainda em entrevista ao g1, a rapidez com que a doença priônica, que afeta o sistema nervoso central, comprometeu as capacidades motoras de Érika:
“Ela foi perdendo os movimentos das pernas, dos braços, foi perdendo tudo. A doença atinge o cérebro, o sistema nervoso, e o cérebro vira como se fosse uma esponja, perdendo todas as funções”.
Com o avanço rápido da doença, a família da enfermeira ficou profundamente abalada. A mãe dela e os demais parentes, por exemplo, enfrentaram momentos de extrema tristeza. Além disso, a rapidez da doença diminuiu drasticamente o tempo de convivência, como conta Elizabeth:
“Ninguém esperava por isso. Ela era alguém que transmitia muita alegria para todos nós, então a dor é imensa. […] É uma doença que não tem tratamento nem cura, com sobrevida estimada de seis meses a um ano. De dezembro até a partida foram cerca de nove meses; em março ela já começava a paralisar. É muito triste, ficamos sem chão”.
“Pessoa feliz e de coração aberto”
Ainda conforme a amiga em conversa com g1, Érica era uma pessoa de ótimo humor, sempre disposta e alegre.
“Ela era uma pessoa feliz e de coração aberto. Não tinha tempo ruim para ela, topava tudo a qualquer hora. Trabalhava em dois empregos: como enfermeira em Senador Canedo e como técnica de enfermagem no Cais dos Municípios. Estava sempre rindo, brincando e ajudando todo mundo”, relembra Elizabeth.
Por fim, a amiga destaca o atendimento humanizado que Érica mantinha nos lugares em que atuava em Goiás:
“Ela se esforçava para resolver as necessidades de cada paciente, cuidava muito bem das pessoas e mantinha uma ótima relação com a equipe de trabalho. Não havia quem não gostasse dela. Vai fazer muita falta”.
Lito também foi diagnosticado com Creutzfeldt-Jakob, doença rara e sem cura
Os primeiros indícios da doença surgiram durante a elaboração de conteúdos para o canal Aviões e Músicas, quando Lito notou perda súbita de coordenação motora e dormência no braço e na mão esquerdos. Com o agravamento dos sintomas neurológicos no decorrer de uma viagem ao exterior, ao voltar ao Brasil ele buscou atendimento no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, dando início a uma extensa bateria de exames laboratoriais e de imagem.
A confirmação da doença neurológica ocorreu de forma concomitante ao tratamento de um câncer de próstata, descoberto anteriormente em exames preventivos de rotina e tratado em uma cirúrgica de prostatectomia. Segundo o relato, o avanço acelerado da condição neurodegenerativa tem provocado impactos na mobilidade e na visão do paciente, mobilizando familiares, amigos e seguidores em campanhas virtuais por uma alternativa terapêutica.
Condição é tão rara que dificulta os estudos clínicos sobre o caso
A raridade da Doença de Creutzfeldt-Jakob é um dos fatores que dificultam os estudos para encontrar tratamentos. Segundo o Paulo Victor Machado, médico neurologista assistente do Hospital e Maternidade Marieta Konder Bornhausen e professor titular de Neurologia da Univali, a evolução acelerada também pesa nesse cenário, já que os danos ao sistema nervoso podem estar avançados antes mesmo de a doença ser identificada.
A grande questão é que a doença evolui de forma tão acelerada que muitas vezes o dano neuronal já foi estabelecido antes mesmo do diagnóstico.
A doença é provocada por uma proteína chamada príon, que desencadeia um processo de neurodegeneração e morte acelerada dos neurônios. Conforme o doutor Paulo, um dos principais sinais de alerta costuma ser um declínio cognitivo de rápida evolução, muito mais acelerado do que em outras demências, além de sintomas motores, como por exemplo, as contrações musculares involuntárias e semelhantes a um “susto”.
O diagnóstico definitivo pode ser realizado por meio de biópsia cerebral, mas o procedimento é invasivo e geralmente evitado. Atualmente, uma das principais formas de investigação é a análise do líquido extraído da medula espinhal, que pode detectar a presença do príon por meio de uma exame. Além disso, ressonância magnética e eletroencefalograma também podem apresentar alterações que ajudam na investigação.
Com a progressão da doença, o paciente pode perder diferentes funções corporais “O declínio cognitivo é marcante, com evidência de déficits em diversas áreas da cognição, incluindo memória, habilidades visuoespaciais, linguagem, capacidade de leitura e cálculo, além de manifestações motoras. Os pacientes tendem à evoluir com perda de mobilidade e dificuldade para deglutição, eventualmente com necessidade de uma via alternativa para alimentação”, explica o médico neurologista.





