Ele assassinou duas mulheres e quase matou uma terceira: o retrato dos feminicidas em SC

Enquanto homicídios caem, feminicídios avançam em SC. Reportagem revela o perfil dos homens que matam mulheres e as falhas da Justiça.

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Vítima segura a foto de homem que tentou matá-la e hoje está na cadeia por assassinar outras duas mulheres (Foto: Patrcik Rodrigues, NSC)

Vaidoso, galanteador, bebia apenas socialmente, cativante. Assim é descrito Vanderlei Pedroso Pereira. Se alguém o encontrasse hoje na rua, dificilmente imaginaria seu passado. Aliás, hoje ninguém o encontraria livre. Ele é um dos 274 homens presos atualmente em SC por feminicídio. Para além da crueldade do crime, o caso do morador de Brusque chama atenção por outro motivo: ele matou duas companheiras e o número quase foi maior.

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Maria* foi a primeira vítima de Vanderlei de que o sistema judiciário tem conhecimento. O casal viveu dois anos junto. Ela sofreu várias agressões e ameaças até conseguir colocar fim à relação. O caso da mulher de 45 anos ajuda a dimensionar um problema que assusta em Santa Catarina. O Estado registra o maior número de casos de ameaças contra mulheres no país ao longo de todo o ano passado.

Mesmo depois do fim do relacionamento, Vanderlei invadiu a casa da vítima. A mulher foi estuprada e levada para a rua à força com uma faca no pescoço. Tudo indica que ela seria colocada em um cativeiro. Ela correu para tentar escapar e acabou levando nove facadas. Por sorte, naquela madrugada de 2010, um vizinho ouviu os gritos, correu para ver o que acontecia e impediu o pior. Havia uma medida protetiva em vigor contra o agressor.

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“Ia trabalhar com medo”

Em agosto do ano seguinte, Vanderlei recebeu pena de três anos e meio por tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil e desobediência. Entretanto, cumpriu a pena em liberdade, para o pânico da vítima.

“Eu ia trabalhar com medo. Todo mundo que eu via de capacete parecia que era ele. Andava com o vidro do carro fechado, levantava de noite, fechava a janela várias vezes, conferia se as portas estavam trancadas. Passei muito tempo no psicólogo. Na época, ganhei um apartamento do Minha Casa Minha Vida, mas não morei lá muito tempo, porque eu tinha medo”, desabafa a mulher que ainda mantém o endereço sob sigilo. 

Maria ainda tentava superar o drama pessoal quando soube que Vanderlei tinha matado a mulher com quem estava se relacionando. Conta que passou mal ao receber a notícia. Afinal, pensou, poderia ter sido o desfecho dela. Chegou a consolar a mãe que perdeu a filha vítima de feminicídio. O homem recebeu, em junho de 2015,  pena de 20 anos por homicídio qualificado por motivo fútil e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima.

O que a vítima sobrevivente não imagina é que aquilo tudo ia se repetir — de novo. Ela ainda acreditava que seu agressor estava preso quando ele assassinou, em abril de 2025, outra companheira. Hoje, Vanderlei está atrás das grades para cumprir uma sentença de 53 anos e quatro meses por feminicídio com o agravante de surpresa. Neste terceiro julgamento, a pena já estava mais dura. Entre 20 e 40 anos de prisão, conforme lei de 2024.

“Ele não me matou porque não era a hora de eu morrer. Se ele saiu duas vezes e não teve Justiça, ele sai e faz de novo, pode ter certeza. Porque ele é bandido, é psicopata, ele não está nem aí”, afirma Maria.

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Menos assassinatos comuns, mais femicídios

Os crimes de Vanderlei expõem um número de contrastes no Brasil. Os assassinatos caem ano após ano no país, e Santa Catarina acompanha essa tendência. O Estado comemora a menor taxa de homicídios proporcional à população, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Mas quando as vítimas são mulheres, a história é outra. A cada 10 vítimas assassinadas no Estado, seis foram mortas por questão de gênero. Neste indicador, SC tem o quarto pior indicador do país.

Um estudo feito pelo Ministério Público de Santa Catarina, analisando os casos registrados entre 2020 e 2024, mostra qual é o perfil dos feminicidas no Estado. Os dados revelam que 64,4% deles têm entre 25 e 44 anos, 67,3% não finalizaram a educação básica, 53,6% têm filhos com a vítima, 72,6% têm ao menos um registro policial e 44,5% já cometeram violência doméstica contra mulher anteriormente. 

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Há três décadas na polícia, a coordenadora das Delegacias de Proteção à Mulher de Santa Catarina, Patrícia Zimmermann D’Ávila, avalia que uma série de fatores dificulta a redução desses crimes:

“O feminicídio envolve, na maioria dos casos, o relacionamento íntimo de afeto, além da condição do gênero feminino. Nestes casos, muitas mulheres ainda não conseguem identificar as formas de violência e outras não percebem o agravamento do risco que estão sofrendo. Analisando as estatísticas, vemos que a maioria das mulheres morre sem fazer um único boletim de ocorrência contra seu agressor. Olhando pela ótica do feminicida, podemos dizer que, muitos destes homens, não aceitam o término do relacionamento, não aceitam que mulher deixe de ser uma propriedade sua e que ela tenha uma vida livre da sua dominação”.

Assassinatos totais e feminicídios em SC de 2015 a 2025

  • 2015 — 976 assassinatos totais e 46 feminicídios
  • 2016 — 1.037 assassinatos totais e 54 feminicídios
  • 2017 — 1.155 assassinatos totais e 52 feminicídios (pico da série histórica)
  • 2018 — 940 assassinatos totais e 42 feminicídios (menor número de feminicídios do período)
  • 2019 — 818 assassinatos totais e 58 feminicídios
  • 2020 — 811 assassinatos totais e 57 feminicídios
  • 2021 — 746 assassinatos totais e 55 feminicídios
  • 2022 — 686 assassinatos totais e 57 feminicídios
  • 2023 — 674 assassinatos totais e 58 feminicídios
  • 2024 — 689 assassinatos totais e 51 feminicídios
  • 2025 — 622 assassinatos totais e 52 feminicídios

Fonte: SSP, Observatório da Violência, Anuário da Violência