Quando a venda para os shows do BTS no Brasil abriram, mais de 1,9 milhão de pessoas entraram no site oficial de compra de ingressos para os três shows do grupo no país. Entre elas estava Joice*. Porém, a jovem moradora de Tijucas, na Grande Florianópolis, não conseguiu completar a compra, porque os ingressos esgotaram em menos de 30 minutos. O grupo sul-coreano se apresenta em São Paulo nos dias 28, 30 e 31 de outubro.
Para não ficar sem vê-los, ela entrou em um grupo de WhatsApp de venda e troca de ingressos. A intenção era comprar tickets para ela e a mãe, ambas fãs do grupo sul-coreano. Foi ali que conheceu Cíntia*, uma jovem que teria comprado mais ingressos do que precisava na venda “normal” e que, por isso, estaria repassando algumas entradas.
Assim como a catarinense Joice, Camila* que é moradora do interior de SP também conheceu Cíntia por meio do grupo do WhatsApp. Ela queria comprar ingressos VIPs para ela e a filha de 10 anos, também fã do grupo. A modalidade dá direito à entrada antecipada ao evento e a assistir a passagem de som, momento em que poderiam ver RM, Jin, Suga, J-Hope, Jimin, V e Jung Kook mais de pertinho. “Era o sonho meu e da minha filha”, conta.
Enquanto Joice comprou entradas para o setor de arquibancada no valor de R$ 2.400, Camila comprou três ingressos VIPs com Cíntia no valor total de R$ 14,4 mil.
Os tickets foram pagos na metade do ano, porém, as compradoras teriam que esperar para receber os ingressos. Isso porque, conforme a Ticketmaster, vendedora oficial do evento, eles só poderiam ser transferidos 30 dias antes do show. Portanto, quem iria ao show do dia 28 de outubro, poderia receber o ingresso no dia 28 de setembro. Outro detalhe é que o ingresso VIP não é transferível, conforme a empresa vendedora oficial.
“Em nenhum momento desconfiei dela, ela sempre muito transparente, pedia documentação, ela mandava”, diz Camila.
Além de fechar negócio, Camila ainda fez amizade com Cíntia. Elas se falavam quase todos os dias, compartilhavam a ansiedade para o show e falavam sobre coisas da rotina. Porém, quando chegou no dia 28 de setembro, dia da transferência dos ingressos, a jovem “sumiu”.
“Ela me disse que passou mal, aí eu já comecei a achar estranho. Ela colocou eu e outra menina de administradoras no grupo, disse que estava no hospital, que era para as pessoas terem calma, chegou a me dizer ‘amo você, obrigada por tudo”, mas depois ela desapareceu. Estou mandando mensagem e ela não responde”, conta Camila.
Outras vítimas da mesma golpista que vendeu ingressos para o show do BTS
O grupo de venda e trocas era de Daniela*, moradora de SP, que possui uma loja de produtos oficiais de grupos sul-coreanos e também havia ficado sem ingressos na venda oficial. Daniela, assim como Joice e Camila, buscava por revenda. Assim, Daniela começou a conversar com Cíntia, que pediu para entrar no grupo e em seguida anunciou os ingressos.
Para tentar evitar golpes, Joice começou a conversar com outras pessoas que também tinham comprado ingresso com Cíntia. A catarinense, então, buscou a revendedora, que se prontificou a fazer a venda do ingresso mediante assinatura de contrato. Lá, tinham os dados e seu nome completo. Ela também havia mandado foto do documento pessoal.
“Todos os dias ela mantinha contato, postava algo, falava de golpes que tinha sofrido, era real assim, ela tinha muita credibilidade. Eu custei a acreditar que era golpe”, conta Joice.
Joice assinou o contrato e comprou, em duas parcelas, dois ingressos do setor arquibancada por R$ 2.200. O ingresso na plataforma original era R$ 816 cada, já com taxas inclusas. Enquanto isso, Daniela também assinou contrato com Cíntia e comprou ingressos VIPs. A moradora de SP pagou R$ 4.800 pela experiência em três parcelas.
Sem receberem os ingressos nos dias combinados, outras vítimas começaram a aparecer e a informar que Cíntia havia dado um golpe nas vendas. As fãs vítimas se reuniram em um grupo de WhatsApp para trocar informações, que soma mais de 40 pessoas. Elas também iniciaram uma ação judicial, que conta com mais de 30 vítimas, além de realizarem boletim de ocorrência contra Cíntia, cada um em seu estado.
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Como se proteger de golpes na venda de ingressos
Ainda que Camila, Daniela e Joice tenham sido vítimas da mesma pessoa, quem circula nas redes sociais vai encontrar outros depoimentos de compras de ingressos que, depois, se revelaram ser golpes.
O professor e doutor Jorge Rafael Matos, coordenador do curso de Direito da Univille São Bento do Sul, explica que a assinatura de contrato é um dos meios que pode garantir alguma segurança jurídica, porém, recomenda que isso seja feito por meio do site do governo federal, o gov.br.
Segundo as vítimas, Cíntia teria dito que não estava conseguindo se conectar a esta plataforma e pediu a assinatura do contrato por meio de outro site.
Além disso, Matos também revelou que, outra forma de deixar o processo com uma maior garantia jurídica, é reconhecer assinatura em cartório.
“Então tem uma garantia jurídica se a assinatura do contrato for válida. Normalmente, com assinatura digital hoje em dia do gov.br ou uma assinatura reconhecida em cartório. Já é um indício de que houve aquela negociação, de que as pessoas estão de boa fé. Mas, é muito difícil a gente ter um mecanismo de que, no momento em que eu pagar, você vai me transferir. Boa parte disso a gente faz na boa fé atualmente”, cita o doutor em Direito.
O doutor e professor do Programa de Pós-Graduação Profissionalizante em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Orlando Celso da Silva Neto explica que outra opção é plataformas de revendas autorizadas.
“Comprar apenas em revendedores, plataformas autorizadas, porque não tem como evitar esse tipo de golpe se comprar de terceiros. Pode ser que o ingresso exista, pode ser que ele consiga entrar, mas se ele não conseguir entrar, ele não vai poder comparecer ao show e vai ter que eventualmente buscar uma indenização dessa pessoa que vendeu”, cita.
Ambos os especialistas reforçam que, em caso de golpe, as vítimas devem realizar boletim de ocorrência e, também, acionar o Procon. Além disso, guardar todas as provas de que houve o golpe, ou seja, o contrato assinado, mesmo que por plataforma não oficial como o gov.br, conversas e comprovante de pagamento, por exemplo.
Como funciona a transferência de ingressos do show do BTS
A duas semanas do show, os ingressos já podem ser transferidos. Uma vez repassados, eles não podem ser enviados para uma terceira pessoa. A informação é da TicketMaster, responsável pelas vendas originais dos ingressos dos shows do BTS.
No dia do evento, só serão aceitos ingressos digitais, por meio da plataforma Quentro. A entrada no evento é validada por meio de QR Code, que muda conforme os segundos passam no aplicativo. Ingressos impressos não serão permitidos.
É importante reforçar que, conforme a TicketMaster, ingressos VIPs não podem ser transferidos.
*Os nomes das vítimas foi alterado para preservar as identidades.









