Mexilhão invasor da China se espalha em três regiões do Brasil, ameaça travar hidrelétricas e afetar até água potável

Originário da Ásia, o mexilhão se espalha pelo Brasil e preocupa pesquisadores pelos riscos à geração de energia, ao abastecimento e à biodiversidade

Compartilhe:

Espécie invasora da China se espalha em 3 regiões do Brasil, ameaça travar hidrelétricas e afetar até água potável (Foto: Wikimedia Commons, Mundo Educação, Divulgação)

O avanço do mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) por rios e reservatórios brasileiros preocupa pesquisadores pelos prejuízos que o molusco pode causar à geração de energia, ao abastecimento de água e à biodiversidade.

Continua após a publicidade

Originária da China, a espécie chegou ao Brasil no fim da década de 1990. Desde então, espalhou-se por corpos hídricos de diferentes regiões e passou a exigir medidas de prevenção e controle. Em pouco mais de três décadas, o organismo estabeleceu-se principalmente em ambientes aquáticos do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

A capacidade de formar colônias sobre estruturas submersas faz com que a invasão ultrapasse a questão ambiental: o acúmulo de indivíduos pode comprometer equipamentos de usinas hidrelétricas e sistemas de captação de água utilizada pela população.

Continua após a publicidade

As informações fazem parte do estudo Mexilhão Dourado: O Avanço da Espécie em Reservatórios Brasileiros, assinado por Guilherme Moreno Taveira, Renato Grillo e Jefferson Nascimento de Oliveira, conforme publicação repercutida pelo UOL.

Como o mexilhão-dourado chegou ao Brasil?

Nativo da bacia do rio Pearly, na China, o molusco foi introduzido na América do Sul em 1991. A principal rota apontada foi a água de lastro de navios cargueiros, que transportou os organismos até o estuário do Rio da Prata, na Argentina.

A água de lastro é utilizada para garantir a estabilidade das embarcações. Quando é retirada de um local e despejada em outro, pode transportar pequenos organismos aquáticos entre regiões distantes, introduzindo espécies em ambientes onde elas não existiam.

No Brasil, a chegada ocorreu no final da década de 1990, com a circulação de embarcações pela hidrovia Paraná-Paraguai. A partir daí, o mexilhão-dourado avançou por rios e reservatórios, favorecido pela conexão entre as vias navegáveis e pela movimentação de barcos.

Continua após a publicidade

O processo está relacionado a um problema ambiental mais amplo. Segundo pesquisas internacionais citadas no estudo, as espécies exóticas invasoras representam a segunda maior ameaça à biodiversidade mundial e estão associadas a 39% das extinções registradas nos últimos quatro séculos.

Por que a espécie se espalha tão rapidamente?

A expansão do mexilhão-dourado está ligada a características biológicas que facilitam tanto sua reprodução quanto sua fixação em diferentes ambientes. O estudo aponta cinco fatores que contribuem para a disseminação do organismo:

Continua após a publicidade
  1. Larvas livres na água: podem ser transportadas pelas correntes e alcançar novos locais.
  2. Fixação eficiente: estruturas chamadas bissos permitem que o molusco se prenda a superfícies rígidas.
  3. Conexão entre hidrovias: facilita o deslocamento do organismo entre bacias hidrográficas.
  4. Tráfego de embarcações: amplia as possibilidades de transporte para outros rios e reservatórios.
  5. Construção de reservatórios hidrelétricos: modifica os ambientes aquáticos e contribui para a expansão da espécie.

Os bissos são filamentos resistentes produzidos pelo animal para se prender a superfícies. Essa característica permite que ele se acumule em pedras, cascos de embarcações e estruturas utilizadas em instalações industriais.

A combinação entre reprodução, transporte e capacidade de fixação dificulta o controle da invasão, especialmente em sistemas de água conectados e com circulação frequente de embarcações.

Continua após a publicidade

Em quais regiões do Brasil o molusco está presente?

A distribuição descrita no estudo concentra-se nos corpos hídricos do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Também existem registros iniciais no Nordeste, incluindo o reservatório de Sobradinho, no rio São Francisco.

A presença em diferentes regiões demonstra que o problema não está restrito aos primeiros locais de introdução. A circulação de embarcações e as conexões entre sistemas aquáticos contribuem para que o organismo alcance novos reservatórios.

Continua após a publicidade

De acordo com o levantamento, não havia casos documentados na Região Norte no recorte considerado pela publicação. Esse dado se refere às informações reunidas no estudo e não deve ser interpretado como garantia de ausência atual da espécie em todos os ambientes nortistas.

A expansão geográfica é um dos pontos centrais para o monitoramento, pois a chegada do molusco a novos corpos hídricos pode criar dificuldades adicionais para a conservação ambiental e para a operação de estruturas que dependem da água.