O avanço do mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) por rios e reservatórios brasileiros preocupa pesquisadores pelos prejuízos que o molusco pode causar à geração de energia, ao abastecimento de água e à biodiversidade.
Originária da China, a espécie chegou ao Brasil no fim da década de 1990. Desde então, espalhou-se por corpos hídricos de diferentes regiões e passou a exigir medidas de prevenção e controle. Em pouco mais de três décadas, o organismo estabeleceu-se principalmente em ambientes aquáticos do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
A capacidade de formar colônias sobre estruturas submersas faz com que a invasão ultrapasse a questão ambiental: o acúmulo de indivíduos pode comprometer equipamentos de usinas hidrelétricas e sistemas de captação de água utilizada pela população.
As informações fazem parte do estudo Mexilhão Dourado: O Avanço da Espécie em Reservatórios Brasileiros, assinado por Guilherme Moreno Taveira, Renato Grillo e Jefferson Nascimento de Oliveira, conforme publicação repercutida pelo UOL.
Como o mexilhão-dourado chegou ao Brasil?
Nativo da bacia do rio Pearly, na China, o molusco foi introduzido na América do Sul em 1991. A principal rota apontada foi a água de lastro de navios cargueiros, que transportou os organismos até o estuário do Rio da Prata, na Argentina.
A água de lastro é utilizada para garantir a estabilidade das embarcações. Quando é retirada de um local e despejada em outro, pode transportar pequenos organismos aquáticos entre regiões distantes, introduzindo espécies em ambientes onde elas não existiam.
No Brasil, a chegada ocorreu no final da década de 1990, com a circulação de embarcações pela hidrovia Paraná-Paraguai. A partir daí, o mexilhão-dourado avançou por rios e reservatórios, favorecido pela conexão entre as vias navegáveis e pela movimentação de barcos.
O processo está relacionado a um problema ambiental mais amplo. Segundo pesquisas internacionais citadas no estudo, as espécies exóticas invasoras representam a segunda maior ameaça à biodiversidade mundial e estão associadas a 39% das extinções registradas nos últimos quatro séculos.
Por que a espécie se espalha tão rapidamente?
A expansão do mexilhão-dourado está ligada a características biológicas que facilitam tanto sua reprodução quanto sua fixação em diferentes ambientes. O estudo aponta cinco fatores que contribuem para a disseminação do organismo:
- Larvas livres na água: podem ser transportadas pelas correntes e alcançar novos locais.
- Fixação eficiente: estruturas chamadas bissos permitem que o molusco se prenda a superfícies rígidas.
- Conexão entre hidrovias: facilita o deslocamento do organismo entre bacias hidrográficas.
- Tráfego de embarcações: amplia as possibilidades de transporte para outros rios e reservatórios.
- Construção de reservatórios hidrelétricos: modifica os ambientes aquáticos e contribui para a expansão da espécie.
Os bissos são filamentos resistentes produzidos pelo animal para se prender a superfícies. Essa característica permite que ele se acumule em pedras, cascos de embarcações e estruturas utilizadas em instalações industriais.
A combinação entre reprodução, transporte e capacidade de fixação dificulta o controle da invasão, especialmente em sistemas de água conectados e com circulação frequente de embarcações.
Em quais regiões do Brasil o molusco está presente?
A distribuição descrita no estudo concentra-se nos corpos hídricos do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Também existem registros iniciais no Nordeste, incluindo o reservatório de Sobradinho, no rio São Francisco.
A presença em diferentes regiões demonstra que o problema não está restrito aos primeiros locais de introdução. A circulação de embarcações e as conexões entre sistemas aquáticos contribuem para que o organismo alcance novos reservatórios.
De acordo com o levantamento, não havia casos documentados na Região Norte no recorte considerado pela publicação. Esse dado se refere às informações reunidas no estudo e não deve ser interpretado como garantia de ausência atual da espécie em todos os ambientes nortistas.
A expansão geográfica é um dos pontos centrais para o monitoramento, pois a chegada do molusco a novos corpos hídricos pode criar dificuldades adicionais para a conservação ambiental e para a operação de estruturas que dependem da água.




