Cidades inundadas, rios em níveis extremos e centenas de milhares de pessoas obrigadas a deixar suas casas marcaram o Sul do Brasil em 1983. Naquele ano, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná enfrentaram uma sequência de enchentes durante o El Niño de 1982/1983, um dos episódios mais intensos do fenômeno já registrados.
Em Santa Catarina, somente em julho, as enchentes deixaram 49 mortos e quase 200 mil desabrigados. Blumenau esteve entre as cidades mais atingidas: o Rio Itajaí-Açu chegou a 15,34 metros em 9 de julho, e as águas tomaram ruas do Centro e deixaram famílias isoladas.
No Paraná, o Rio Iguaçu chegou a 10,42 metros em União da Vitória. No Rio Grande do Sul, sucessivas enchentes atingiram municípios às margens do Rio Uruguai entre maio e julho de 1983, entre eles Itaqui, Porto Lucena, Porto Xavier, São Borja e Uruguaiana. Já na região Nordeste do Brasil, o cenário foi o oposto: a seca que se estendia desde 1979 prosseguiu durante o forte El Niño de 1982/1983, com redução das chuvas e impactos sobre a produção agropecuária.
O El Niño é o nome dado ao aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico, em um trecho perto do Peru. O vapor sobe para a atmosfera e, para além disso, há uma mudança nos padrões de pressão, ventos e sistema climático sazonal. Ou seja, a circulação atmosférica é alterada e o impacto é global.
Veja fotos das enchentes de 1983 no Sul do Brasil
O que mudou desde o último El Niño?
O El Ninõ atual pode vir a se tornar um dos mais intensos das últimas décadas, segundo cientistas. Pesquisadores acompanham agora a formação de um possível “Super El Niño”, fenômeno que pode superar os estragos causados pelo que até então era o maior El Niño já registrado, que ocorreu em 1982 e 1983. Segundo meteorologistas, a principal mudança agora estaria na forma de monitorar e tentar prever o fenômeno.
Depois dos estragos registrados entre 1982 e 1983, uma ampla rede de monitoramento do Oceano Pacífico foi criada. Liderados pelo pesquisador Michael McPhaden, cientistas espalharam centenas de boias pelo oceano com sensores espalhados ao longo dos primeiros 500 metros de profundidade. Eles medem a temperatura da água em diferentes camadas e a salinidade e transmitem, em tempo real, informações sobre os ventos e a temperatura da superfície do mar.
A forma de analisar e prever fenômenos meteorológicos mudou em Santa Catarina após o fenômeno registrado em 1982 e 1983, segundo o meteorologista Marcelo Martins, da Epagri/Ciram.
“Na época, era tudo analógico, convencional. A pessoa tinha que chegar lá, pegar e medir. Depois as coisas mudando e foram automatizando os radares. A gente também começou a ter radar, mais estacionamento meteorológico, estação automática.” afirmou o especialista.
“Hoje a gente tem a maior cobertura de estação meteorológica, que é a do governo do estado. A gente passou por uma tragédia muito grande. E, hoje em dia, a gente não tem mais essas tragédias que aconteceram antigamente. Por exemplo, a última foi em 2008, e de lá para cá foram vários e vários pontos de alagamentos imensos e grandes, e a gente não teve mais aqui no estado, como teve no Rio Grande do Sul, por exemplo” disse o profissional.
Aquecimento no céu e na água
Desde 1950, os cinco episódios de El Niños fortes foram em 1972/1973, 1982/1983, 1997/1998, 2015/2016 e em 2023/2024, conforme a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). No último, ocorreram as chuvas que devastaram o Rio Grande do Sul, com impactos também para os catarinenses, com enchentes especialmente no Vale do Itajaí.
De acordo com o Atlas de Desastres do Brasil, do governo federal, 2023 foi o segundo ano com o maior número de eventos hidrológicos de Santa Catarina das últimas três décadas, com enxurradas, alagamentos, enchentes, deslizamentos e chuvas intensas.
Esses extremos já estão mais frequentes por conta do aquecimento global e, com a temperatura do Oceano Pacífico mais elevada. Entre a metade do século passado e meados do atual, foram mais de 10 anos entre um “super El Niño” e outro. Na história recente, esse tempo caiu para oito anos. E agora, se de fato o próximo aquecimento ficar acima dos 2ºC, a “pausa” será de menos de cinco anos.













