Corte de rotas de ônibus deixa 3,3 mil cidades sem transporte interestadual regular e atinge viagens no país. O encolhimento de 17% nas ligações entre os estado nos últimos sete anos isola mais de 60% dos municípios brasileiros, apontam dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres, a ANTT, reunidos pela Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia, a Amobitec. A queda de 2,4 mil para 2 mil conexões ativas afeta diretamente o deslocamento de passageiros.
O levantamento compreende o período entre 2019-2026. Esse estrangulamento da oferta do transporte interestadual coincide com a acentuada queda de passageiros, que despencou de 43,1 milhões em 2023 para 36,7 milhões em 2025, derrubando o faturamento total das viações de R$ 6,7 bilhões para R$ 6,15 bilhões no mesmo período.
Regulamentação e travamento de rotas
Buscando equacionar esse represamento histórico do transporte interestadual, e tirar do isolamento dos municípios desassistidos, a ANTT projetou abrir a chamada Janela Extraordinária em março, mirando licitar 47.291 mercados, sendo 38.379 localidades atualmente desassistidas e 8.912 sob monopólio.
O cronograma de expansão do transporte interestadual, contudo, sofreu uma reviravolta no Supremo Tribunal Federal (STF), que paralisou o processo após questionamentos movidos pela Associação Nacional das Empresas de Transporte Rodoviário de Passageiros, a Anatrip, sobre fragilidades no sistema tecnológico da agência reguladora.
Esse impasse regulatório no STF mantém o transporte interestadual em banho-maria comercial, deixando os usuários isolados e reféns da falta de opções e de tarifas elevadas nas rotas de ônibus por todo o país. Enquanto a solução definitiva para a disputa no setor não se consolida em Brasília, a mobilidade das cidades do interior segue isolada pela falta de concorrência nas estradas.
Monopólio e impacto do isolamento no interior
Essa retração contínua na oferta do transporte interestadual empurrou o mercado para uma forte concentração de mercado, onde apenas cinco grandes grupos econômicos (Gontijo, Guanabara, JCA, Suzano e Águia Branca) já controlam 36,5% do ecossistema nacional.
A consequência direta dessa centralização do transporte interestadual transparece nas viagens diárias do cidadão. Cerca de 80% das rotas de ônibus operam atualmente sob o domínio de apenas uma ou duas empresas, que frequentemente pertencem ao mesmo conglomerado financeiro. Como reflexo da escassez competitiva, mais de 3,3 mil municípios, o equivalente a mais de 60% das cidades do país, estão isoladas e desassistidas de serviços regulares.
Paralelamente ao afunilamento das escolhas dos passageiros, o segmento do Transporte Rodoviário Regular Interestadual de Passageiros (Trip) converteu-se em um complexo campo de batalha jurídico. Em 2025, dos 33 mil mercados formalmente registrados, aproximadamente 25 mil dependiam diretamente de liminares e decisões judiciais para continuar circulando.
Em busca de espaço na malha nacional, novos entrantes submeteram cerca de 70 mil pedidos de autorização à ANTT para o transporte interestadual nos últimos dois anos, esbarrando na resistência das empresas tradicionais que alegam riscos à segurança operacional.
*Com edição de Nicoly Souza






