Pouco mais de 3,6 mil pessoas vivem em Vila Flores, pequena cidade da Serra Gaúcha escolhida para representar o Brasil em uma seleção da Organização das Nações Unidas (ONU). Localizado entre Veranópolis e Nova Prata, o município preserva costumes herdados da imigração italiana, com celebrações religiosas, encontros comunitários e receitas transmitidas entre gerações.
A indicação faz parte de uma iniciativa internacional que reconhece localidades capazes de desenvolver o turismo sem deixar de lado a identidade cultural, a inclusão social e a sustentabilidade.
Em Vila Flores, essas características aparecem no cotidiano. O pão continua sendo preparado em um casarão centenário, os encontros entre vizinhos mantêm vivas antigas tradições e a produção de vinho reúne uma história que ultrapassa os cem anos.
Uma cidade de tradições
A convivência entre os moradores é uma das marcas do município. Em uma comunidade pequena, cumprimentar os vizinhos e participar de celebrações coletivas são hábitos que ajudam a preservar as relações construídas ao longo dos anos.
Um dos principais exemplos dessa convivência são os filós, encontros inspirados nos costumes dos imigrantes italianos. Reunidos em ambientes iluminados por lampiões, moradores e visitantes compartilham comidas típicas, histórias, músicas e brincadeiras.
A polenta ocupa lugar de destaque na mesa, enquanto apresentações culturais recuperam atividades que faziam parte da rotina das famílias. Entre as brincadeiras está o chamado “chinelo de três”, que costuma provocar risadas entre os participantes.
Capela nasceu de promessa
A religiosidade também ajuda a explicar a história de Vila Flores. No interior do município, a Capela São Jorge guarda a memória dos primeiros imigrantes que se estabeleceram na região.
Construído com pedra e barro, o templo tem mais de um século de história. Sua origem está ligada a uma promessa feita pelos moradores durante um período de dificuldades, marcado por vendavais e uma infestação de gafanhotos.
A construção permanece preservada e representa a importância que a fé assumiu na formação das comunidades locais.
Essa relação também aparece na trajetória de Glória Zancanaro, de 81 anos, idealizadora do Santuário Divino Pai Eterno. Ela mantém o hábito de rezar diariamente no espaço, cuja construção ajudou a tornar possível.
Para Glória, a religiosidade continua sendo um elemento importante da identidade da população.
Vinho produzido por freis
Outro costume que atravessou gerações está relacionado à produção de vinho. Em Vila Flores, a atividade preserva uma ligação particular com os freis capuchinhos, responsáveis por manter viva uma tradição iniciada há mais de cem anos.
Segundo o enólogo Djair Galvan, a história começou com a chegada de religiosos provenientes do sul da França, em 1896. Com o tempo, os conhecimentos sobre a produção da bebida passaram a integrar a cultura das famílias da região.
Atualmente, a atividade também faz parte das experiências oferecidas aos visitantes, interessados em conhecer os processos de elaboração e maturação dos vinhos.
Um detalhe chama a atenção: o canto gregoriano utilizado nos ambientes de maturação. A prática estabelece uma ligação simbólica entre a produção e a espiritualidade dos religiosos.
O frei José Lagni comenta com bom humor que, se o canto faz bem às pessoas, também poderia fazer bem ao vinho.
Por que a ONU escolheu?
A indicação de Vila Flores está relacionada a características que vão além de suas paisagens. O município foi selecionado para representar o Brasil por reunir elementos associados à preservação cultural, ao turismo sustentável e ao desenvolvimento comunitário.
Segundo Beatriz Paulus, diretora executiva da Associação de Turismo da Serra Nordeste, o destaque é resultado de um trabalho de planejamento desenvolvido ao longo dos anos.
A dirigente explica que a continuidade dos projetos, mesmo com mudanças de gestão, contribuiu para preservar a identidade local e fortalecer as atividades turísticas.
Vila Flores busca agora um reconhecimento internacional semelhante ao alcançado por Antônio Prado no ano anterior.






