A 625 metros de altura, uma ponte na província chinesa de Guizhou atravessa um dos enormes desfiladeiros que cortam o território montanhoso da região. Além de se tornar a ponte mais alta do mundo, a estrutura ganhou elevador panorâmico, áreas com chão de vidro, passarela de madeira, hotel, restaurante, mirante e até torres de 5G.
A dimensão da construção ajuda a explicar por que a ponte se transformou em mais do que uma obra de infraestrutura. Ela também passou a funcionar como atração turística e cenário para transmissões ao vivo de influenciadores, que mostram aos seguidores a paisagem e o cotidiano das comunidades próximas.
“Depois que passei a administrar a pousada, minha renda ficou muito maior”, conta um dos moradores apresentados durante a reportagem. Segundo ele, parte da rotina envolve passar cerca de duas horas por dia fazendo transmissões ao vivo dos confortos da pousada e do vilarejo localizado logo abaixo da ponte.
A estrutura continua sendo uma ponte pênsil e, apesar de sua imponência, pode balançar com a ação dos ventos e com a passagem de veículos. Para quem atravessa a área turística, no entanto, o que mais chama atenção é a altura: são 625 metros entre a ponte e o fundo do desfiladeiro, o equivalente à altura aproximada de um prédio de 175 andares.
O espaço turístico também ganhou uma área com piso de vidro, que permite observar o desfiladeiro abaixo, além de uma passarela de madeira construída no alto da estrutura. A instalação de torres de 5G completa o projeto e garante conexão de alta velocidade na região.
A ponte está localizada em Guizhou, uma das províncias mais montanhosas da China. O território é marcado por grandes desfiladeiros e, historicamente, foi ocupado por diferentes grupos étnicos. Em meio às montanhas, pequenas comunidades passaram a ser conectadas por grandes obras de infraestrutura.
É nesse cenário que a ponte assume outro significado. Mais do que facilitar deslocamentos, ela representa uma das histórias que o governo chinês pretende contar sobre o desenvolvimento do país: a de que regiões isoladas e comunidades rurais podem ser integradas ao mundo digital por meio de grandes investimentos em infraestrutura e tecnologia.
As informações foram apresentadas pelo jornalista Felipe Santana em reportagem da série Entre Dois Mundos, exibida no Fantástico deste domingo (6).
A reportagem acompanhou uma excursão organizada pela empresa responsável pela instalação do 5G, pela companhia de telefonia que opera o sistema e pelo governo local. Segundo o relato apresentado, as três partes passaram um ano negociando o que poderia ser mostrado durante a visita.
O resultado foi um roteiro previamente definido, no qual moradores eram apresentados aos visitantes para contar determinadas histórias. Influenciadores também participavam da viagem e produziam conteúdo para as redes sociais, mostrando diferentes aspectos da vida na China.
Durante a visita, jornalistas e criadores de conteúdo faziam fila para entrevistar as pessoas autorizadas a conversar com o grupo. O tradutor utilizado pela comitiva também havia sido indicado pela organização.
A experiência levanta uma questão que vai além da engenharia da ponte: até que ponto uma viagem organizada pelo governo e por empresas pode mostrar a realidade de um país sem também funcionar como instrumento de propaganda?
A estratégia não é exatamente nova. Durante a era de Mao Tsé-Tung, visitas guiadas semelhantes já eram utilizadas para apresentar uma determinada imagem da China aos estrangeiros, com tradutores oficiais cuidadosamente selecionados para acompanhar os visitantes.
Para a professora Maria Repnikova, especialista em comunicação política chinesa, esse tipo de iniciativa atende tanto ao público estrangeiro quanto aos próprios chineses. A intenção é fortalecer uma percepção positiva sobre o país e sobre os rumos que ele está tomando, reduzindo o espaço para questionamentos e críticas.
Ao mesmo tempo em que a ponte representa modernização, tecnologia e integração, a reportagem encontra outro cenário logo abaixo dela. Em uma das comunidades apresentadas, quase não há moradores nas ruas. Muitas pessoas deixaram a região em busca de trabalho em outras cidades.
O êxodo das áreas rurais é um dos problemas que a China enfrenta nas últimas décadas. Agora, enquanto grandes obras conectam essas regiões ao restante do país e levam internet de alta velocidade às montanhas, existe também o desafio de fazer com que os moradores voltem.
É nesse contraste entre desenvolvimento, propaganda e realidade local que a história da ponte ganha outra dimensão. A construção pode ser vista como um símbolo da capacidade de engenharia chinesa, mas também revela as disputas em torno da imagem que o país deseja apresentar ao mundo.





