Número de servidores ambientais temporários explode na gestão de Bolsonaro

Especialista afirma que medida resume o quadro como uma terceirização sem exigência de especialização na questão ambiental

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Seleção pública priorizou servidores de nível médio e foi executada só como uma forma de tentar mostrar serviço na área ambiental, diz ex-presidente do Ibama (Foto: Lucas Correia/ BD)

Uma explosão de contratação de servidores temporários nas autarquias do Ministério do Meio Ambiente tem ocorrido sob o governo Jair Bolsonaro (PL). Segundo especialistas em administração pública e ambiental, a perda de funcionários permanentes e a entrada em grande escala de temporários pode levar a uma precarização da governança ambiental.

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Uma análise feita pela República.org mostra que desde o começo do governo Bolsonaro houve um salto de 564% no total de servidores temporários contratados nas autarquias ambientais, que englobam o Ibama, o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O número saltou de 396, em 2019, primeiro ano do atual governo, para 2.630, em 2022.

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A entidade, que visa melhorar a gestão de pessoas que fazem parte do serviço público brasileiro, usou dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do Siape (Sistema Integrado de Administração de Pessoal), além de portais de transparência de estados e municípios.

De 2013 até o ano atual, o número máximo de servidores temporários tinha sido de 708, em 2015, com números anteriores e posteriores bem inferiores, de forma geral.

Ao mesmo tempo, tem ocorrido uma perda ininterrupta de servidores permanentes nas autarquias. O processo já é conhecido e tem recebido destaque com alguma frequência, com apontamentos da fragilização que esse tipo de contexto pode trazer para serviços públicos especializados na área ambiental.

Os servidores permanentes representavam quase 90% dos vínculos de contrato das autarquias em 2013. No ano atual, representam cerca de 56%.

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A maior parte dos vínculos temporários está concentrada no ICMBio, segundo a República.org.

Ao mesmo tempo em que cai o número de funcionários permanentes e cresce o de temporários, o salário médio nas autarquias se reduz.

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Segundo Vanessa Campagnac, gerente de dados e comunicação da República.org e uma das autoras, uma das hipóteses levantadas, vendo a queda na folha de pagamento, é que as vagas ocupadas pelos temporários sejam de menor qualificação e que não esteja havendo uma substituição dos servidores permanentes que saíram.

— O dado, em si, é muito preocupante — diz Campagnac. — O temporário tem outro tipo de compromisso com o estado e com a máquina pública. E a gente pode supor, com certa segurança, que um vínculo permanente em uma pasta de Meio Ambiente está mais suscetível a receber capacitação, ter desenvolvimento profissional que qualifica a atuação para prestar o melhor serviço público. E, quando tem o temporário, não temos como garantir isso. Ele está ali tapando um buraco.

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Ela pondera que, assim como os cargos comissionados, os temporários também devem existir dentro da máquina pública, mas que essas manobras com servidores precisa ser feita com cuidado.

— Para gestão dos times, se isso não for bem conduzido, pode ter um impacto na operação — diz Campagnac.

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Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, diz que os sinais trazidos por esses dados são negativos e resume o quadro como uma terceirização sem exigência de especialização na questão ambiental.

— É um quadro mais amplo da administração pública federal, não é exclusivo do Ministério do Meio Ambiente, mas certamente aponta problemas, que repercutem nos resultados menos eficazes em termos de políticas públicas — afirma Araújo. — Está na hora de revalorizar o servidor o público.

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O caso do Ibama, uma das autarquias analisadas no levantamento, é bem conhecido por Araújo, que é ex-presidente do instituto. 

— Há cerca de 5.000 vagas para servidores e não tem metade disso trabalhando. No governo Bolsonaro, o concurso que fizeram para o Ibama e o Instituto Chico Mendes está longe de suprir as demandas das duas autarquias, mas longe mesmo.

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Segundo Araújo, a seleção pública priorizou servidores de nível médio e foi executada só como uma forma de tentar mostrar serviço na área ambiental.

Desde o seu início, o governo Bolsonaro tem sido amplamente criticado por falta de ações efetivas na área ambiental e pelo crescimento contínuo e acentuado no desmatamento da Amazônia. Bolsonaro tem sido acusado até mesmo de incentivar ações de destruição ambiental, considerando suas falas contra agentes de fiscalização e a defesa que faz de ações com amplo impacto, como mineração em terras indígenas.

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A ex-presidente do Ibama também afirma que, no contexto de diminuição de servidores efetivos, a partir do governo Bolsonaro, passou a haver um maior número de aposentadorias, por dificuldades de atuar na conjuntura da nova administração. 

— Quem podia aposentar, aposentou — diz.

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A reportagem tentou contato com o Ministério do Meio Ambiente para esclarecer o aumento de servidores temporários, mas, até o momento, não houve resposta.

Desigualdade de gênero

A República.org também analisou dados estaduais e municipais e achou, em meio a eles, sinais positivos e outros nem tanto.

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Um ponto problemático, segundo a análise, é a baixa presença feminina em cargos executivos ambientais nos estados. Somente 2 em cada 10 cargos de liderança de órgãos executivos são ocupados por mulheres. Na esfera municipal, o valor é praticamente o mesmo.

Ao mesmo tempo, as mulheres que chegam a esses cargos são mais escolarizadas do que os homens na mesma posição. São 8 em cada 10 delas com pós-graduação, em comparação a 6 de cada 10 deles. Nos municípios, os números também são parecidos, com 78% das mulheres com superior completo ou pós-graduação, e somente quase 52% deles com o mesmo nível de ensino.

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Já no governo federal, quase 29% dos cargos são ocupados por mulheres, das quais cerca de 81% têm graduação ou pós; entre os homens, esses níveis de ensino são alcançados somente por 47% dos servidores.

— Não é surpreendente, mas é bem ruim — afirma Campagnac, apontando que padrões semelhantes são encontrados no mercado de trabalho.

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Ao mesmo tempo, há bons exemplos. Cidades nos estados de Roraima e Piauí são as menos desiguais para a presença de mulheres em cargos de liderança.

O levantamento também observou quais tipos de capacitação eram mais oferecidos para os servidores públicos. E aqui entra outro destaque positivo. Estados do Nordeste e Sudeste abordaram, com maior frequência, a questão da participação social em fóruns e colegiados de meio ambiente. A ajuda da sociedade civil vem vem ganhando mais espaço internacionalmente.

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— Tem ocorrido esse investimento para que essa participação seja qualificada. Muitas vezes porque os gestores não estão preparados para lidar com aquela participação, eles acham que tudo é mimimi — afirma a especialista do República.org.

Esse tipo de preocupação com a sociedade civil ganha ainda mais importância, diz Campagnac, ao se considerar o contexto do governo Bolsonaro em que diversas instâncias de participação social foram encerradas. “É uma luz no fim do túnel”, afirma a especialista.

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*Reportagem de Phillippe Watanabe