Com mais de 23 mil focos, entenda por que SC tem dificuldade para superar a dengue

Quando o assunto é saúde pública, um dos estados com melhores índices de desenvolvimento econômico e social sofre para combater o Aedes aegypti, que mata e faz a população adoecer

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Especialistas destacam a necessidade de se combater o mosquito-vetor e a replicação dos mosquitos (Foto: Marcelo Martins / PMB / Divulgação)

Santa Catarina enfrenta simultaneamente dois grandes desafios reconhecidos pelas autoridades de saúde pública, a pandemia da Covid-19 e o aumento de casos de dengue. São quatro mortes confirmadas por dengue em 2022 e seis em investigação. Os óbitos foram de moradores de Criciúma (caso importado), Seara, Itá e Romelândia (todos autóctones). Os seis casos em investigação (aguarda-se resultado dos exames na Fiocruz) são de residentes em Chapecó (dois), Ascurra, Brusque, Seara e Palmitos.

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A idade das vítimas varia de 40 a 89 anos, alguns com comorbidades, o que agrava o quadro. No período entre 2 de janeiro e 26 de março, foram identificados 23.253 focos do mosquito Aedes aegypti em 209 municípios catarinenses. O aumento é de 144% se comparado com o mesmo período do ano passado e 108% nos casos confirmados da doença. Ao todo, 16 municípios estão em nível de epidemia.

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Uma série de fatores contribui para a proliferação do mosquito transmissor da dengue, o Aedes aegypti. Por isso, alertam os especialistas, a erradicação é quase impossível. Mesmo sendo Santa Catarina um estado com boas condições de saúde, com índices positivos de desenvolvimento social se comparado com outras regiões do país e elevado Produto Interno Bruto (PIB). Mas uma coisa é certa: não haverá casos de dengue se não houver mosquito transmissor.

José Henrique Oliveira é professor de Parasitologia no Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Para ele, um dos cientistas referências no país em Aedes aegypti, erradicar o mosquito da dengue é difícil por serem muitos e se replicarem de forma bastante rápida. Há estimativas que para cada humano na terra, existam 200 milhões de insetos, ainda que nem todos sejam mosquitos:

— Além da questão do número e da velocidade de desenvolvimento, mosquitos como o Aedes aegypti são muito bem adaptados às condições ambientais para se reproduzirem facilmente nas cidades.

Apesar disso, o especialista destaca a necessidade de se combater o mosquito-vetor e a replicação dos mosquitos já que não dispomos de vacinas ou tratamentos com antivirais específicos.

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— De imediato é o que funciona para combater o Aedes. Nesse sentido, campanhas em veículos de grande alcance, como a TV, ajudam na conscientização das pessoas para a redução de criadouros. Além disso, tem que investir em ciência. Só a ciência será capaz de entender a dinâmica da transmissão e propor soluções como vacinas, antivirais, método wolbachia — pondera Oliveira.

O professor tem razão. O mosquito é eclético, e faz uso tanto de uma tampinha de garrafa PET jogada aleatoriamente no chão quanto de uma piscina cuidada com desleixo. Estima-se que 80% dos criadouros estejam nas casas das pessoas. Por isso, o enfrentamento passa pela educação da população e uso de tecnologias que ajudem a prevenir a doença.

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“O controle do vetor exige muita disciplina e governo deve incentivar boa educação aos catarinenses”, sugere virologista

Para ajudar a enfrentar a dengue, é preciso vencer a cultura do descarte irregular de lixo e entulho. É preciso uma gestão ambiental. Caso contrário, calor e umidade vão continuar ditando as regras sobre a proliferação do mosquito. O virologista Daniel Santos Mansur tem estudos aprofundados sobre o Aedes aegypti e dengue. Para ele, que também atua na UFSC, combater o vetor não é uma coisa fácil.

— Não acho que seja culpa de um ou de outro, da população ou do gestor público. Em Santa Catarina, talvez se não olhe para a dengue como deveria ser pelo fato de a doença não ter sido uma realidade na maior parte do Estado, e sim, em algumas reuniões. Isso faz com que as pessoas não prestem muita atenção nos riscos trazidos pelo vetor —sugere Mansur.

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O especialista acredita que com técnicas tradicionais como o fumacê (estratégia encontrada para controlar as populações de mosquitos e que consiste em passar um carro que emite uma “nuvem” de fumaça com baixas doses de um agrotóxico) seja extremamente difícil que a eliminação ocorra. Mas defende que a população deva ficar mais atenta e os governantes fazerem mais pressão para isso:

— Existem outras estratégias a serem tentadas, como o próprio wolbachia e o mosquito geneticamente modificado.

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O virologista explica que desde 1940 os cientistas tentam a produção de uma vacina, a qual permanece como um desafio:

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— Tal qual como ocorre com o HIV, tecnicamente é difícil fazer uma vacina contra a dengue. Se compararmos, a humanidade deu sorte acerca da vacina contra a Covid. Impedir o avanço da dengue sem vacina e/ou uma droga efetiva é muito complicado. Por enquanto tem que ser com o controle do vetor, mas isso exige muita disciplina. Penso que o governo deva incentivar uma boa educação por parte dos catarinenses.

Condições ambientais são favoráveis ao mosquito

Em todo o país, as condições ambientais são bastante favoráveis ao mosquito, com temperaturas variando entre 20°C e 40°C na maior parte do território. Apesar de termos regiões com clima diferentes ao longo do ano, sempre haverá probabilidade da circulação do mosquito em algum canto do país. O regime de chuvas também incide no ciclo reprodutivo do inseto, considerado adaptável às variações climáticas tropicais.

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A proliferação do bicho não depende apenas do povo e das condições tropicais, mas dos gestores públicos que fecham os olhos para o crescimento desordenado das cidades e precariedade do saneamento básico. Acúmulo de lixo, coleta irregular, esgoto a céu aberto, e fornecimento irregular de água são fatores que dependem dos governantes.

Alerta sobre notificação de mortes suspeitas

A dengue pode matar, por isso todo cuidado é importante. Em 2021, foram confirmadas sete mortes por dengue em Santa Catarina.Diante do aumento de casos, a Secretaria de Saúde do Estado emitiu no último dia 29 um alerta aos serviços e profissionais de saúde sobre a necessidade de fazer a suspeita e notificação no primeiro atendimento dos casos, realizando o manejo clínico conforme o Fluxograma de Classificação de risco e manejo do paciente com dengue, zika vírus e febre de Chikungunya. Os casos com sinais de alarme, graves e óbitos devem ter amostras laboratoriais coletadas para diagnóstico, sendo obrigatoriamente encaminhadas para o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen/SC) para análise.

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Os óbitos suspeitos devem ser notificados imediatamente (em até 24 horas) para a vigilância epidemiológica municipal, regional e estadual, considerando que é um evento sentinela, que demanda investigação e acompanhamento da situação.

Butantan anuncia vacina para 2024

Nesta semana, o Instituto Butantan divulgou resultados considerados promissores de uma vacina contra a dengue e que vem sendo desenvolvida em parceria com o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID). Os resultados de uma análise mostraram que a vacina induziu a geração de anticorpos em 100% dos indivíduos que já tiveram dengue e em mais de 90% naqueles que nunca haviam tido contato com o vírus.

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A vacina vem sendo desenvolvida há mais de 10 anos pelo Instituto Butantan e a expectativa que esteja finalizada em 2024. Os resultados referentes à fase 1 do ensaio clínico, feita nos Estados Unidos, foram publicados no periódico científico Human Vaccines & Immunotherapeutics por pesquisadores da farmacêutica Merck, também parceira do Butantan.

Até hoje, só se conseguiu imunizar para duas cepas (tipos), e é contraindicado para quem já teve doença por determinada cepa. A segunda etapa da pesquisa mostrou que a vacina induz a formação de anticorpos em mais de 70% dos indivíduos contra os quatro subtipos do vírus da dengue com apenas uma dose. Os resultados dessa fase foram publicados na Revista Lancet Infectious Diseases.

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Atualmente os especialistas conduzem os estudos clínicos de fase três. A capacidade de indução da resposta imunológica (chamada tecnicamente de imunogenicidade) foi analisada durante um ano por meio de testes de neutralização do vírus e se manteve alta em todos os participantes. A vacina também se mostrou segura e sem efeitos adversos graves, tendo sido registradas como reações mais comuns dor de cabeça, fadiga, erupção cutânea e dor muscular.

No Brasil, a vacina disponível contra a dengue é a Dengvaxia, fabricada pelo laboratório francês Sanofi Pasteur. O imunizante é vendido na rede privada na maior parte do Brasil e não está disponível no Programa Nacional de Imunizações (PNI).