Criança não é cachorro

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Piangers: "Talvez seja um momento gostoso entre pai e filho. Mas o tratamento que damos pra crianças parece um pouco adestramento de pet" (Foto: Freepik)

Lembro de pensar isso pela primeira vez quando meu amigo Ricardo me mostrou o bebê de um ano e pouco. “Bate palminha pro tio”, ele dizia, e a criança batia palma. “Grita Greeeeeeeeeeeemmmmmmmmmiooooooooooooooooo”, e o bebê dizia eeeeeeiiiiioooooo, exatamente na mesma entonação. E assim o pai ia: “Faz carinha de foto”, sorriso falso, “Mostra pro tio o Hang Loose”, e a criança tentava mostra apenas o polegar e o dedo mínimo, com imensa dificuldade, exigindo auxílio do pai, que segurava os outros três dedos dobrados. “Estamos treinando esse ainda”, ele me avisou.

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Talvez seja um momento gostoso entre pai e filho. Mas o tratamento que damos pra crianças parece um pouco adestramento de pet. Quando pegam algo que não lhes pertence arrancamos de suas mãos e repetimos: “Não! Não! Papai NÃO deixa! Não pode! Ouviu? Não pode”. E se o bebê está curioso com algo e insiste em pegar, alguns pais dão um pequeno tapa na mão da criança. “É pra aprender”, dizem eles.

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Adestramos nossos filhos para mostrar para os outros. “Mostra pro tio como você sabe fazer conta”, diz um pai. “Canta o hino do Flamengo!”, manda outro ao filho pequeno. E quando você se despede, inevitável será ouvir de um pai para seu bebê: “Diz tchau pro tio! Faz com a mãozinha! Manda beijinho! Tchaaaaaaauu”.

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Sou compreensivo com os estabelecimentos que preferem não permitir a entrada de cachorro e gatos. Mas crianças? Ora, bebês são pessoas. Não me parece que cai bem um aviso “Proibido entrada de pessoas desse tipo neste estabelecimento”. Não demonstra, esta proibição, algum tipo de desprezo?

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Gostar de criança significa aceitá-la e celebrá-la, mesmo quando chora. Mesmo quando esperneia. Mesmo quando não se comporta perfeitamente. Mesmo quando ainda não consegue fazer Hang Loose.

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