Me desloquei para a pequena cidade chamada Saudades em silêncio, com o rádio do carro desligado, me questionando por que estava indo fazer esse trabalho, sabendo que ia encontrar muita dor.
Sabendo que isso ia me trazer todas as lembranças mais dolorosas que já vivenciei na vida, que não foram esquecidas, mas que ficaram guardadas bem lá no fundo, para que eu pudesse ainda ver beleza na vida que ficou. Eu sabia que fotografar uma história de tamanha dor ia abrir esse baú e trazer à tona todas as imagens mais dolorosas que vivenciei cinco anos atrás.
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Mas fui, porque precisava ir, porque estava com saudades do jornalismo, e jornalista não escolhe pautas. É preciso dizer, não somos abutres, e nossa profissão precisa ser respeitada, somos humanos, choramos, rezamos, torcemos, ajudamos e vivemos da informação. Mas poucos entendem o quanto é difícil essa profissão.
Quando cheguei naquele ginásio, e vi os olhares das pessoas na porta, paralisei. Não conseguia entrar, nem clicar, nem falar. Tentava me acalmar mentalmente e dizer para mim mesma que precisava fotografar, enviar as imagens, fazer meu trabalho.
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As imagens da morte vieram fortes e com ela toda a dor. Eu conhecia aquele sentimento, aquela dor insuportável. Essa despedida do corpo é realmente desumana, sem falar em toda barbárie deste caso.
“Isso não tem explicação”, era a frase mais falada pelas pessoas naquele dia.
Realmente, a morte não tem explicação, essa dor não tem explicação, a dor de uma mãe com seu bebê morto em seus braços não tem explicação. Não morreram só cinco pessoas em Saudades, morreram muitos pais, amigos, vizinhos, educadores e pessoas que nem conheciam a pequena cidade.
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Chorei. Chorei pela minha dor, chorei pela dor das mães, chorei pela dor de todas as pessoas que perderam seus amores nesta pandemia.
Chorei pela família do homem que fez o ataque. Resiliência é o que espero para Saudades. Alguns de nós estão chorando essa dor, outros estão convertendo dor em luta, em luto.
É preciso respirar e acolher, lembrar de se nutrir e seguir, sem fórmulas mágicas mas com amor e afeto para suportarmos. Para nós e para os outros.
* Por Sirli Freitas
Repórter fotográfica
