Partidos querem eleição em 2020 sem destinar fundão ao combate ao coronavírus 

O fundo eleitoral, no valor de R$ 2,035 bilhões, permanece por ora reservado para a campanha dos candidatos

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Partidos não querem abrir mão dos valores que irão financiar as campanhas (Foto: Diorgenes Pandini, BD, 18/10/2018)

RANIER BRAGON – BRASÍLIA

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Apesar de ter alterado substancialmente a rotina da população, de empresas e governos, a pandemia do novo coronavírus ainda não abalou o calendário das eleições municipais nem as regras e condições para a disputa.

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A maioria dos partidos e a Justiça Eleitoral defendem que, se o pleito for adiado – as datas oficiais de votação, em primeiro e segundo turno, são 4 e 25 de outubro, respectivamente–, que o sejam por um curto período, evitando assim o prolongamento do mandato de prefeitos e vereadores eleitos em 2016.

O fundo eleitoral, no valor de R$ 2,035 bilhões, também permanece por ora reservado para a campanha dos candidatos, como defendem os principais partidos, e não para uma nova função –o combate à pandemia, como pregam alguns isoladamente.

O principal argumento ouvido pela reportagem nas últimas semanas foi o de que a atual crise mundial não pode servir de pretexto para a fragilização de um dos pontos fundamentais das democracias, a realização de eleições.

"Não se faz uma eleição sem despesa. E é melhor fazer com uma despesa clara do que fazer como era antes", afirma o presidente do PSB, Carlos Siqueira, em referência ao financiamento empresarial das campanhas, fonte de vários escândalos de corrupção, proibido desde 2015.

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Para o presidente do Solidariedade, Paulo Pereira da Silva, uma eleição sem o fundo eleitoral seria um caos e abriria margem para "caixa dois para todo lado".

Assim como o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ele afirma que o governo até poderia usar nesse momento o dinheiro do fundo nas medidas de combate à doença, mas com uma recomposição da rubrica posterior, no período de campanha.

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A extinção do fundo ou seu uso para outros fins é bandeira empunhada especialmente pelo partido Novo e por congressistas do PSL aliados ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em linhas gerais, eles defendem ser um escândalo o uso de dinheiro público para financiar candidatos em um país tão carente.

Alguns líderes políticos, como o presidente do MDB, Baleia Rossi, adotam discurso maleável, como o de que, "se a emergência exigir", o partido não se oporá ao uso do fundo no combate à pandemia.

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Nos bastidores, porém, a opinião majoritária no Congresso é a de que não serão os R$ 2 bilhões do fundo que farão diferença em uma situação que exige valores muito mais altos. Segundo esses parlamentares, os que pregam a destinação da verba ao combate ao coronavírus surfam na onda antipolítica e querem jogar para a plateia, uma movimentação que tende a perder força com o passar dos meses.

O Novo tem entre suas fileiras e apoiadores vários empresários, o que, apontam críticos, lhe dá enorme vantagem em relação a candidatos de outros partidos que não contam com dinheiro próprio para se autofinanciar.

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Apesar de criticar publicamente o uso de dinheiro público nas campanhas, Bolsonaro se beneficiou dessa verba na corrida presidencial de 2018 –além de ter recorrido a essa fonte, abertamente, antes de se tornar candidato a presidente da República.

Em 2014, por exemplo, 97% do dinheiro de sua campanha a deputado federal vieram dos cofres públicos. Para tentar afastar de si a imagem de ter sido financiado pela JBS (envolta anos depois em um grande escândalo de financiamento ilegal de políticos), o hoje presidente fez questão de ressaltar publicamente que exigiu que seu partido à época, o PP, colocasse em sua campanha R$ 200 mil vindos do fundo partidário, e não do dinheiro repassado à sigla pela gigante de carnes.

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Até há alguns anos as campanhas eram financiadas majoritariamente pelas grandes empresas, como empreiteiras e bancos. Em 2015 o Supremo Tribunal Federal proibiu a prática, sob o argumento principal de que o poderio econômico feria o princípio de equilíbrio de armas na disputa.

Com isso, o Congresso criou o fundo eleitoral em 2017, que se juntou ao fundo partidário (com verba de R$ 960 milhões neste ano), totalizando R$ 3 bilhões de dinheiro público em 2020 –além da renúncia fiscal de TVs e rádios para veiculação do programa eleitoral.

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Além disso, candidatos podem receber doações de pessoas físicas ou se autofinanciar, respeitados alguns limites.

Assim como na defesa do fundo eleitoral, há posição majoritária favorável à realização das eleições para prefeito e vereadores ainda em 2020.

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"Menosprezar os atos democráticos, falando como se fosse uma coisa que não é essencial, como algo 'se der, faz, se não der, deixa pra lá', o que é isso?", afirma o presidente do Cidadania, Roberto Freire.

A oposição a um adiamento para além de 2020, que resultaria em prorrogação automática do mandato de prefeitos e vereadores, também é atacada, entre outros, por Maia e pelo futuro presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso.

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Na sessão virtual em que se confirmou sua eleição para o cargo, na semana passada, o ministro lembrou que qualquer alteração na data dependerá de aprovação pelo Congresso. Barroso disse defender o adiamento, se ocorrer, "pelo prazo mínimo e indispensável para que elas possam ser realizadas com segurança".

O TSE criou um grupo de trabalho para avaliar os impactos da pandemia no calendário eleitoral e, até o momento, não há indicativo de necessidade de adiamento.

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A próxima movimentação eleitoral significativa ocorre com as convenções partidárias, que definirão os candidatos, marcadas para o período de 20 de julho a 5 de agosto.