“É importante ser protagonista do futuro e não vítima dele”, diz executivo Peter Kronstrøm

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A virada do ano é uma oportunidade para refletir sobre o futuro. Quem trabalha com megatendências há décadas é o Copenhagen Institute for Future Studies (CIFS), da Dinamarca, cujo escritório na América Latina, em São Paulo, é liderado pelo executivo dinamarquês Peter Kronstrøm. Acostumado a falar para grandes empresas que analisam cenários para inovar, ele também tem conselho claro para os trabalhadores. Nesta entrevista, diz que é preciso ser empreendedor e saber trabalhar com robôs. Para ele, a cultura do brasileiro, o jeitinho de ser resiliente na crise, pode ser referência para o mundo. 


O senhor atua numa instituição que estuda o futuro. Quais megatendências estarão em alta nos próximos anos?
O Copenhagen Institute trabalha com muitas megatendências. Usamos configurações de 14. Entre as que se destacam está o desenvolvimento tecnológico cada vez mais rápido, especialmente a inteligência artificial. Outra megatendência é a imaterialização, o que significa importância cada vez menor da matéria e maior do lado imaterial das coisas, a história por trás, a experiência… Isso está transformando a nossa sociedade. Antigamente, o valor estava na transação, ou seja, se vendia um produto e recebia dinheiro. Hoje, com a imaterialização, você assina serviços como o Uber, Airbnb. O mais importante está na relação, o valor está na relação. São serviços que criam facilidades para melhorar a vida das pessoas. Estamos vendo a transição de uma economia baseada em imput para output. Ao invés de comprar um carro, a pessoa assina um serviço e usa só o transporte. É o mesmo que ocorreu na música, no entretenimento. Antigamente você comprava um filme e um disco, hoje você assina um serviço. Vamos ver mudanças assim em quase todas as indústrias lá na frente. 

O que mais é importante…
Outra importante megatendência é a sustentabilidade. Há, cada vez mais, a necessidade de ser sustentável. A megatendência da individualização também se destaca. As tecnologias permitem, cada vez mais, fazer um alto grau de customização, permitem às empresas conhecer bem mais o seu cliente final e, assim, podem fazer mais produtos e oferecer serviços personalizados.

Um setor que recebe atenção do Copenhagen Institute é o de energia. Por quê?
Mais para frente, estamos vendo em nível global que a matriz de energia vai ser desafiada. Já estamos analisando muito como vai ser essa transição de deixar para trás as energias de origem fóssil e adotar as de fontes renováveis. Nos próximos 10 anos, esperamos ver mudanças na área de transporte. Cada vez mais teremos carros movidos a energia elétrica e vez de energia de origem fóssil.  

Na visão de vocês, o que vai acontecer com o mercado de trabalho? 
A análise do instituto se contrapõe a da Singularity University, dos EUA. Alguns futuristas falam que amanhã não vai haver mais trabalho porque os robôs vão fazer tudo. A gente tem uma análise um pouco mais tranquila. Temos tecnologias para substituir 60% a 70% dos trabalhos feitos hoje. Porque não acontece a substituição? Porque as coisas demoram para acontecer. Mas no longo prazo, tudo o que robô e a tecnologia poderão fazer, vamos deixar de fazer. Mas as pessoas vão trabalhar em atividades diferentes, que exigem criatividade, o que os robôs não fazem. Os trabalhos chatos serão feitos por robôs e as pessoas terão mais tempo para fazer coisas  voltadas à criatividade, o que não pode ser feito por máquinas. Estamos prevendo que as pessoas trabalharão menos horas, o que significa que o ser humano vai ter mais tempo para outras coisas. O que vamos fazer com esse tempo livre? Haverá um boom de empresas voltadas ao lazer, aventura, em atividades que permitam curtir mais a vida.  

Como as pessoas devem se preparar e/ou serem preparadas para essas mudanças?
Eu sempre falo que é muito importante ser protagonista do futuro e não vítima dele. Para ser protagonista, todo mundo tem que pensar como um empreendedor, com responsabilidade sobre a vida própria, o que o faz feliz, que áreas quer seguir… O modelo atual, em que as pessoas estudam quando jovens para apenas uma carreira, não servirá para todo mundo no futuro. Então, as pessoas terão que se preparar, fazer várias especializações durante a vida e cada uma deve tomar as decisões para ser protagonista da sua vida. Elas terão que escolher se vão dominar a tecnologia ou serão dominadas por ela, se terão capacidade de construir seu próprio caminho na vida de maneira empreendedora. Como preparar as crianças? Desde cedo devem se envolver em atividades nas áreas em que têm interesse. O mais importante é conseguir trabalhar junto com a tecnologia, trabalhar junto com robôs. A combinação ser humano e robô dá os melhores resultados. 

Como está sendo o impacto dos robôs na Dinamarca?
No nosso país era grande o temor do avanço dos robôs. Mas a realidade mostra que quanto mais robôs tem uma empresa, mais ela contrata pessoas porque ela avança mais rápido e têm resultado melhores. São essas empresas que mais contrataram pessoas na Dinamarca. Os robôs geram demandas por mais trabalho de pessoas nas empresas.  

O brasileiro mostra que está cansado de corrupção. O senhor acredita que a tecnologia pode ajudar a tornar governos mais éticos?
Na nossa análise, nos próximos 10 a 15 anos a corrupção em nível global vai diminuir muito por causa do avanço da tecnologia. Estamos vendo essa série de denúncias no Brasil porque é cada vez mais difícil cometer irregularidade e se esconder. É fácil fazer gravações, denúncias. A gente espera um aumento da transparência e redução da corrupção. Também acreditamos que haverá redução de corrupção com a tecnologia aplicada nos governos. O uso de blockchain (tecnologia que descentraliza) na governança pode trazer mais transparência. Acreditamos que um governo robô será mais justo do que o governo humano. Isso para provocar (risos). Mas precisamos também da boa vontade de governantes adotarem essas tecnologias. Se o Brasil conseguir reduzir a corrupção de 10% a 30% nos próximos anos, já vai ter uma realidade melhor. 

O mundo valoriza muito a engenharia, mas isso está mudando. A cultura do Brasil pode ser referência para outros países nessa nova fase?
O Brasil, além de muitas riquezas naturais, tem muita riqueza da cultura do seu povo, que é empreendedor. Quando a crise atinge países escandinavos, cai o empreendedorismo, as pessoas vão para o Estado solicitar dinheiro. Aqui no Brasil e na América Latina ocorre um alto grau de empreendedorismo. As pessoas se viram. Falam do jeitinho brasileiro, do lado ruim. A gente vê também um potencial enorme de inovação nisso. É uma capacidade muito útil para o futuro porque a única coisa que devemos saber sobre o futuro é que tem um alto grau de incerteza. A atitude mais resiliente diante dessa incerteza é o alto grau de adaptação e essa adaptação o brasileiro tem muito por natureza. 

O senhor presta consultoria e faz palestras para grandes empresas. O que elas focam sobre o futuro?
Elas querem se preparar porque, talvez, o amanhã não é igual a hoje. Elas usam nosso conhecimento para planejamento no longo prazo e para entender que o mundo está mudando. Nosso trabalho é para inspirar e pensar no processo de inovação. Uma megatendência que analisamos muito é a evolução demográfica. Se as pessoas estão morando mais sozinhas, que tipo de produto vão consumir. Entender em que caminho segue o mundo e o que é possível fazer para não ficar para traz. 

Qual é o país com mais pessoas morando sozinhas?
É a Suécia. Hoje, 46% a 47% dos suecos moram sozinhos. Quase a metade da população. O Brasil, é o país fora do Norte da Europa onde mais cresce o número de residências de pessoas solteiras. Hoje, no país, há de 6% a 10% de residências com uma pessoa. Dentro de 10 a 15 anos, será um número bem maior e isso significa uma mudança profunda da sociedade. Como as empresas se preparam para isso? Há a necessidade de mais produtos individuais. Outra coisa. Há, cada vez mais, pessoas mais velhas e ativas. As cidades do futuro não

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