Coordenadora da área trabalhista da Martinelli Advogados em Santa Catarina, a advogada Akira Fabrin avalia que há uma preocupação maior das empresas em desenvolver programas e políticas internas de diversidade.
As empresas estão desenvolvendo mais políticas internas de diversidade?
A gente percebe bastante isso. Ao se pensar em inclusão, é preciso definir duas situações: a questão de gênero e de cor e orientação sexual. Na indústria têxtil, por exemplo, já há uma inclusão significativa de mão de obra feminina na área operacional. Mas isso não era uma realidade em outras indústrias, como os segmentos plástico, metal-mecânico e metalúrgico. E essa inserção estamos verificando agora. Empresas que não tinham mulheres no chão de fábrica agora estão contratando. Algumas nem mesmo tinham banheiro feminino na área operacional. Tem muita coisa automatizada que não exige mais a força masculina, que antes era necessária em razão das máquinas.
Vocês têm visto esse movimento também em cargos executivos?
Essa inclusão maior começou na área operacional, mas avança nos cargos executivos também. Muitas gerências e diretorias são ocupadas por mulheres. É cada vez mais comum.
Essa preocupação em garantir mais diversidade se deve a quê?
Algumas empresas que a gente atende têm programas de inclusão corporativa. O que eles pautam sempre, a base estrutural, é a ética, priorizar o ser humano e os talentos. É a atuação baseada no talento, e não no gênero.
Isso se deve a uma mudança de cultura organizacional ou a pressões externas?
Acho que são os dois, mas é algo mais interno mesmo. As empresas estão buscando a ética com economia porque as duas coisas têm que andar conjuntamente. A partir do momento em que você pensa em economia, você olha talentos, ser humano, aí independe do gênero.
Quais são as dúvidas mais comuns das empresas na hora de desenvolver programas desse tipo?
A gente sempre começa os trabalhos fazendo um treinamento in company para os gestores. O que se espera de um bom gestor é uma postura de equilíbrio, respeito e exigência. Quando você coloca respeito, você entra dentro de uma conduta ética de avaliar as pessoas pelas suas competências e oportunizar crescimento a todos.
Como essas políticas de inclusão podem beneficiar as empresas?
A questão é justamente buscar os talentos, buscar o melhor profissional para aquele setor ou para aquela atividade. É importante incluir os homens nesse debate para que essa transformação efetivamente ocorra. Dentro dos treinamentos que eu tenho feito, destaco, de modo geral, que é preciso criar oportunidades, mas também se preocupar com condutas justas e fazer com que os gestores não permitam situações de desequilíbrio em relação a isso.
Esse movimento é mais forte em SC ou em outros Estados?
A nossa atuação é regionalizada, então eu acabo participando mais aqui em Santa Catarina com os clientes que eu atendo. Mas acredito que de um modo geral é uma preocupação de todas as empresas hoje. Independentemente do porte, ela busca eficiência e crescimento, principalmente em razão da crise.
Muitas vezes quem vem de fora tem a impressão de que as empresas do Estado têm hábitos conservadores, até em função da colonização europeia e do perfil familiar de muitos negócios. Estamos prontos para promover mais diversidade no ambiente corporativo?
Eu acho que sim, porque, por mais que a cultura e a colonização sejam europeias e haja sim essa questão mais tradicional, as empresas estão preocupadas em gerar resultados. E aí qualquer tradição é superada pelo objetivo final, que é gerar lucro, crescer, vencer a crise, gerar empregos, ter maior representatividade no mercado. Essa questão se torna secundária.
Ainda há uma discrepância grande de salários de homens e mulheres, às vezes até na mesma função. Qual a orientação neste sentido?
Há uma questão legal. A legislação trabalhista estabelece a questão da identidade de funções e salários iguais. A própria convenção da OIT (Organização Internacional do Trabalho) prevê que não se pode discriminar o gênero no acesso, nas condições, nas formas e na permanência do trabalho. As empresas têm que ficar atentas para essa equidade.