O economista Paulo Rabello de Castro encerra sua atuação na presidência do BNDES neste sábado. Quarta-feira ele entregou carta de demissão ao conselho do banco porque deve disputar a Presidência da República pelo Partido Social Cristão (PSC). O presidente Michel Temer deve indicar o sucessor (a). Numa das últimas entrevistas que concedeu à frente do BNDES, quando esteve na Federação das Indústrias de SC (Fiesc) segunda-feira, Rabello falou sobre a expansão do atendimento a pequenas empresas, retração na procura por financiamento por parte das grandes indústrias e e comentou sobre a candidatura. Confira os principais trechos.
Nos dois primeiros meses deste ano, o fechamento de contratos no BNDES caiu 32%. Por que isso está ocorrendo e quando será revertido?
Esse fenômeno tá sendo considerado provisório dentro do banco e deve ser atribuído à mudança da TJLP para a TLP (Taxa de Longo Prazo) em janeiro. Tínhamos ideia de que o sistema bancário teria dificuldades para fazer essa passagem porque não houve tempo para atualizar os sistemas de informática. Acho que isso deve refluir em abril ou maio.
Qual é a projeção de desembolso do banco para este ano?
No ano passado, tivemos desembolso total da ordem de R$ 72 bilhões. Inicialmente, imaginávamos que pudéssemos chegar a R$ 90 bilhões este ano, num processo de recuperação que refletisse a retomada que se está esperando para 2018. Entretanto, já podemos imaginar um número menor. Se bater em R$ 80 bilhões até o final do ano podemos nos dar por satisfeitos devido ao mau desempenho do primeiro bimestre. Agora, há um elemento que está ficando mais claro, que é a pouca disposição do empresário industrial de retomar investimentos, não só porque o uso da capacidade ainda é baixo e não há urgência para ampliação quando a maior parte das indústrias têm ociosidade expressiva, mas também porque há uma incerteza política. Quem tem desempenho excelente este ano é o agronegócio, que puxa o setor industrial a ele associado, mas isso deve corresponder, no máximo, 25% da demanda nacional.
Quais setores estão solicitando mais recursos?
O agronegócio é o número um. Em seguida vem a infraestrutura, principalmente em geração eólica e transmissão de energia. O problema é a indústria tradicional, a chamada grande indústria, que no passado chegou a responder por mais de 30% do total dos desembolsos e hoje está com percentual inferior ao agronegócio. É uma novidade esquisita para um banco que sempre teve tradição de emprestar ao setor industrial.
Como está a liberação de recursos para as pequenas empresas?
Hoje, as operações indiretas, onde mais de 80% correspondem a micro, pequenas e médias empresas, já correspondem a 55% do total dos desembolsos praticados pelo banco. Se a gente fizer a conta, no ano passado, mais de 40% do total dos desembolsos do BNDES já corresponderam a essa faixa de micro, pequena e média empresa. Esse número está muito próximo de 50%. Excluindo os desembolsos de projetos de infraesturutra, administração pública e exportações, a gente já ultrapassa 60% em valor para empresas de pequeno e médio porte. Atendemos milhares de pequenas empresas. Neste ano, em função da troca de indexador, houve uma redução do BNDES Giro, que é um produto típico para micro, pequena e média empresa, daí a ênfase de divulgar mais o produto para motivar esse empresário a procurar o BNDES.
Há uma polêmica sobre recursos à exportação…
Essa área de financiamento de serviços de exportação vem sendo desenvolvida há 20 anos pelo BNDES. É complexa. Por efeito da Operação Lava Jato foram inviabilizados cadastros de empresas no Brasil e exterior e o banco teve que suspender esses contratos. O BNDES nunca soube e nunca participou de malfeitos (pagamentos de propina a políticos).
O senhor pediu afastamento do BNDES porque é pré-candidato à Presidência da República. O que levou a essa decisão?
Meu perfil é de alguém que comunica para a sociedade uma possibilidade, uma janela de prosperidade maior. Essa é a razão pela qual eu fui para a área da economia e pela qual eu sempre estive vinculado a pesquisar políticas sociais e econômicas que favorecessem a geração de empregos e manutenção de um ritmo de crescimento ao país. Hoje, de um modo geral, as pessoas se sentem perturbadas por uma intromissão invisível nas suas vidas que emperra o futuro, o que gera a determinadas camadas sociais até a vontade de emigrar do país, o que não ocorria nos anos 60 e 70. Retomar aquele processo de desenvolvimento sem deixar ninguém para traz é um desafio que tem que ser empreendido nessa virada eleitoral. Como ela se apresenta de modo completamente excepcional porque para todos os lados há uma perda de candidatos tradicionais, eu recebo o convite do PSC como uma missão.
Quais são os maiores desafios para colocar a economia do Brasil na linha?
Hoje estamos começando a nos contentar de novo com muito pouco. Estamos comemorando uma reação, ainda que tímida, da maior recessão vivida no pós-guerra do Brasil. Essa recuperação não tem nada de extraordinário, é praticamente um fenômeno estatístico. Depois de uma queda tão clamorosa como ocorreu, o mínimo que se poderia esperar estatisticamente era sair lentamente da situação de queda para uma estabilização, o que está ocorrendo. Isso denota que temos que recuperar a economia de modo muito mais vigoroso, introduzindo elementos que não estão no cardápio atual. Eu começo por lembrar o mais importante de todos que é uma reforma tributária digna desse nome. Ela fica sempre sendo adiada porque o Brasil velho teima em emperrar.
Por que a reforma tributária?
Porque o excesso de tributos está na raiz da anemia produtiva brasileira, na incapacidade de o empresário ter recurso suficiente para fazer um vigoroso impulso nas suas atividades. Se a gente soma isso aos juros pornográficos que praticamos no Brasil há décadas – falo dos juros bancários, nem sempre do juro básico que em geral é alto demais e que nesse momento tende a se aproximar de uma normalidade, razão pela qual temos agora um pequeno alento na economia. Mas isso não é uma revolução econômica. Temos que desenhar um país para ser vencedor. Essa seriedade em trabalhar o melhor possível de uma equipe faz falta na economia e na sociedade. Temos uma sociedade que só agora se lembrou de criar um ministério para segurança pública. A própria educação gera enorme desperdício por conta da ineficiência como os recursos são gastos. Um novo pacto tem que ocorrer da sociedade com o governante para que esse produto seja entregue.