“Não faz sentido tirar um projeto da gaveta se o Brasil continuar com insegurança jurídica e política”, diz analista político sobre novos investimentos

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O analista político Richard Back, da XP Investimentos, finalizava uma apresentação a empresários de Itajaí na manhã desta terça-feira quando estourou o fato político do dia: bem cotado nas pesquisas de intenção de voto a presidente, Joaquim Barbosa anunciava em sua conta no Twitter que não disputará as eleições.

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A ausência do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) nas urnas acaba beneficiando todos os principais postulantes ao cargo, avalia Back, mas não muda o cenário de imprevisibilidade a cinco meses do pleito.

Essa instabilidade respinga na economia, que custa a deslanchar, a despeito das expectativas positivas de retomada na largada de 2018.

Para o especialista, o mercado está em “compasso de espera”, aguardando o “jogo esquentar” para então tomar decisões mais claras sobre novos investimentos.

Pouco depois do evento na cidade do Litoral, Back conversou com o blog por telefone. Confira:

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Como o mercado tem visto a imprevisibilidade que ronda a corrida eleitoral?

O mercado ainda vem andando meio de lado, esperando mais definições e o jogo começar a esquentar. Até lá, tem se dado ao processo eleitoral o benefício da dúvida. Um risco ou outro o mercado tem colocado na conta, mas ainda não se sabe se será uma eleição boa ou ruim. Se o mercado achar a eleição boa, a bolsa vai subir muito, bater em quase 100 mil pontos, e o câmbio descer. Essa é a perspectiva dos nossos analistas. Se for ruim, ao contrário, a bolsa perde pontos e o câmbio sobe.

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O que é uma eleição boa para o mercado?

O mercado considera bom um candidato que tenha compromisso com as reformas em geral, especialmente a da Previdência, e que tenha interlocução com o Congresso.

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O cenário hoje é de pulverização de nomes e propostas para a disputa presidencial. Esse quadro deve se manter ou vai haver um afunilamento de candidaturas com a proximidade das eleições?

Vai haver um afunilamento, isso é inevitável. O (Joaquim) Barbosa acabou de desistir, por exemplo. Mais um ou outro também vão porque não terão condições políticas ou financeiras. Pode ser o caso do Rodrigo Maia (DEM-RJ). Não se sabe ainda se o PMDB vai lançar candidato ou não. Só na centro-esquerda há a Marina Silva (Rede), o candidato do PT, o Ciro Gomes (PDT), a Manuela D’Ávila (PC do B) e o Guilherme Boulos (PSOL). Já são cinco. Aí tem o Geraldo Alckmin (PSDB), pode ter o candidato do PMDB, o Flávio Rocha (PRB), Paulo Rabelo de Castro (PSC) e Jair Bolsonaro (PSL). São pelo menos dez candidatos. É possível reduzir para uns oito, mas ainda assim é bastante gente. Não vai existir a polarização tradicional como houve entre PT e PSDB nos últimos 20 anos.

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Qual a sua leitura sobre a decisão do ex-ministro Joaquim Barbosa de não ser candidato? Surpreende ou era esperada?

Surpreende um pouco porque ele estava subindo muito nas pesquisas sem pedir voto. Barbosa era muito viável do ponto de vista eleitoral, mas havia problemas na formação de um programa. O PSB tem um programa contra privatizações, contra a reforma trabalhista e contra um monte de coisas que para o Barbosa não são valores tão fortes. Ele queria uma coisa e o partido outra. O que o Barbosa disse, em uma conversa que nossa equipe teve com ele rapidamente hoje (terça-feira), é que foi uma decisão pessoal, a família não topou caminhar com ele. Isso pesou. Para o cenário eleitoral, de uma forma geral, é bom porque reduz (as possibilidades de candidatura), é menos uma. É especialmente bom para o Alckmin, que leva o aliado em São Paulo. O Márcio França (PSB, atual governador de São Paulo) fecha o Estado para ele. O PT ganha alguma coisa com o apoio do PSB no Nordeste, pelo menos uma aliança um pouco mais ampla. O Ciro, o Bolsonaro e a Marina também se beneficiam. Os principais candidatos do processo ganham um pouco com a saída do Barbosa.

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O ano começou cheio de expectativas positivas em torno da economia, mas o setor produtivo ainda não deslanchou como se esperava. Há relação disso com a instabilidade política?

Há, porque o investidor estrangeiro, por exemplo, que é quem traz dinheiro em volume para o Brasil, está esperando o que vai acontecer na eleição. Se continuar um quadro instável politicamente, o estrangeiro não tem como investir nem no mercado e nem na economia real. Há um compasso de espera. O corte de juros tem um atraso para chegar na ponta. Há uma série de fatores que dificultam a vida do empresário em geral. Mas uma das grandes questões é sim a eleição, tanto para o investidor interno quando externo. Não faz sentido tirar um projeto da gaveta e colocar dinheiro nele se o Brasil continuar com a insegurança jurídica e política de hoje.

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O debate em torno do ajuste fiscal é necessário, mas impopular. Acredita que os candidatos priorizarão este tema em suas agendas de campanha?

Acho que não. Em eleição nenhuma, em nenhum lugar, se aprofunda isso. Claro que será um tema pautado, muito mais do que nas outras eleições. Os problemas são reais e têm de ser enfrentados. Não dá mais para empurrar com a barriga e fazer de conta que está tudo bem. Não tem mais como fazer cara de paisagem na eleição. A reforma da Previdência tem que ser apresentada como corte de privilégios. Tem que vender bem isso, porque senão a população não entende e isso pode matar algumas candidaturas. É mais natural que Alckmin, (Henrique) Meirelles e outros candidatos mais ligados à base do governo Temer façam esse discurso a favor de reformas e recuperação fiscal. E também é mais natural que os partidos de esquerda tenham mais distanciamento deste tema e se posicionem contra.

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Pode acontecer de o presidente eleito ser de um partido pequeno que não terá força no Congresso para aprovar medidas polêmicas. Como enxerga essa situação?

Isso é um problema porque o Congresso continuará muito empoderado, a renovação é muito baixa e a renovação de verdade, de gente nova chegando, é mais baixa ainda. O próximo presidente vai ter que ter um poder de negociação bastante forte. Quem está em partido pequeno hoje, caso do Bolsonaro e de outros candidatos de legendas menores, não necessariamente é um bom articulador, muito pelo contrário. Essa é uma preocupação na nossa análise. Presidente tem que ter três coisas: legitimidade da urna, programa e capacidade de negociação no Congresso. Sem isso em 2019, complica bastante para aprovar a reforma.

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A eleição para o Congresso é tão ou mais importante quanto para presidente?

Exato. Isso é algo que o Brasil tem descoberto cada dia mais. O presidente não tem poder imperial. É preciso votar bem para o Congresso também, porque senão o presidente não faz nada. O Eduardo Cunha (PMDB), por exemplo, conduziu o impeachment (da ex-presidente Dilma Rousseff), mas antes disso montou uma pauta que quebrava o Brasil umas três vezes. Era a pauta-bomba do Cunha para desestabilizar o governo. Isso mostra como o Congresso é muito importante.

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