“Empresários têm de ser camaleões”, diz Arthur Igreja

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O avanço da tecnologia não vai destruir o planeta, como o da chuva de meteoros que devastou os dinossauros da face da Terra. Processos que se utilizem da chamada inovação disruptiva, baseados na transformação digital, exigem cada vez mais que empresários assumam a condição de camaleões, ou seja, adaptem-se às exigências do novo mercado, porque os negócios sofrem impactos com mudanças que ocorrem de maneira drástica.

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O foco não deve ser na tecnologia ou no que as máquinas podem fazer em substituição ao que o ser humano faz, mas sim na atitude que as pessoas devem ter na relação com os consumidores, em quaisquer setores.

O recado foi deixado a empresários de Jaraguá do Sul por Arthur Igreja, cofundador da plataforma de inovação AAA (ao lado de Ricardo Amorim e Allan Costa), durante palestra comemorativa aos 80 anos da Associação Empresarial de Jaraguá do Sul. A coluna publica a síntese do pensamento dele, que falou sobre tecnologias, inovação e mercados.

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Como as transformações tecnológicas mudaram o mundo?
Arthur Igreja –
Há três fatores que estão diretamente relacionados com o novo viés tecnológico que influencia a sociedade: aumento da expectativa de vida, formação profissional e durabilidade dos produtos. Há um século, a expectativa de vida do brasileiro era de 44 anos, hoje chega a 76 anos. Se no começo da década de 1990 somente de 3% a 4% dos brasileiros passavam por uma faculdade, nos últimos anos houve uma proliferação de cursos superiores e um aumento no acesso à formação profissional. Os produtos duravam muito mais tempo e hoje a atualização é rápida. Isto mudou a dinâmica dos negócios, trouxe novos consumidores, gerou pessoas preparadas para múltiplas carreiras e um novo perfil no mundo do trabalho, com consumidores mais exigentes.

Neste contexto, a renda também subiu…
Igreja – Estudo do economista Ricardo Amorim (sócio de Arthur Igreja) aponta que no ano zero a renda per capita mundial era de 467 dólares por ano, em valores de hoje. Em 1850, subiu 30% e chegou a 600 dólares, graças à chegada da eletrificação, da vaporização, da urbanização, que trouxe um boom tecnológico. Em 150 anos, este crescimento foi de 300%, chegando a 2 mil dólares. De 1996 a 2000, a renda per capita global saiu dos 2 mil dólares para 10 mil dólares na era pós-internet, com 500% de evolução. Isto só foi possível graças ao impacto da evolução tecnológica, econômica e social.

Tornar-se gigante ainda é para poucos?
Igreja –
Antes, um negócio levava 30 anos para chegar a um faturamento de US$ 1 bilhão. Hoje, com o advento das startups, os negócios milionários aparecem muito mais frequentemente. Em 2009, a Apple chegou a esta marca em 36 meses. Em 2014, já eram quatro empresas. Entre 2016 e 2017, o número de empresas bilionárias chegou a 185, e, de lá para cá, este número já dobrou. Resultado puxado pela tecnologia.

Há algumas companhias ainda mais fortes…
Igreja –
Em 2007, quando surgiu o smartphone, a Apple valia US$ 74 bilhões. De lá para cá, a marca ultrapassou US$ 1 trilhão. Viabilizou a mobilidade das empresas que vinham a reboque, como a Amazon, que até então vendia livros e saiu de US$ 17 bilhões para também US$ 1 trilhão. Na semana passada, as duas empresas – ligadas à tecnologia e ao varejo – sozinhas, já chegaram a um tamanho pouco menor do que o PIB brasileiro: cerca de US$ 2,5 trilhões.

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Para ser competitivo, dominar tecnologia é decisivo?
Igreja –
A velocidade da tecnologia exige do empresário uma capacidade de adaptação, como a de um camaleão se ajusta ao ambiente, porque o seu negócio sofre impacto com as mudanças que ocorrem de maneira drástica no mundo. O foco não deve ser na tecnologia ou em máquinas, mas sim nas pessoas e nas suas atitudes de comportamento. O varejo sente muito este efeito porque o consumidor mudou, enquanto as empresas continuam oferecendo o mesmo atendimento de 20 anos atrás.

O smartphone mudou comportamentos coletivos. Que impactos isso tem para os negócios?
Igreja –
O brasileiro passa 55% do seu dia no celular, no tablet ou no computador. Isto exige também que as empresas mudem sua forma de se comunicar com o consumidor. A maioria das empresas tem uma página na internet, que quase não atualizam, e acham que isto é se comunicar com seu público. A mudança comportamental é a mais profunda de todas. E isto veio com a mobilidade que o smartphone proporciona. O que importa não é a tecnologia, mas sim o que ela implica no comportamento das pessoas.

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As empresas estão prontas para essa nova realidade?
Igreja –
A inovação disruptiva não é como um meteoro, que veio para acabar com tudo, mas ela muda completamente a relação das empresas com o consumidor, e qualquer negócio que não se adaptar rapidamente a esta nova realidade está fadado a desaparecer. Para muitas empresas brasileiras, o módulo de gestão ainda é baseado em tabelas do Excel, quando não em pilhas de anotações no papel. Quando se fala em inovação ou transformação digital, tem-se em mente que o assunto é somente tecnologia, mas 90% se referem a pessoas. A tecnologia é somente um meio, e se ela não atende ao propósito de servir às pessoas, de nada serve. A tecnologia surge para ajudar as pessoas a resolver a maior escassez do mundo atual, a falta de tempo.

A inteligência artificial vai destruir os relacionamentos?
Igreja –
A inteligência artificial cada vez mais será aplicada no sentido de estabelecer relacionamentos. Se a característica da automação até aqui sempre foi baseada em braços e pernas mecânicas, ela passa a ser focada no cérebro, liberando a empresa naqueles processos em que necessitava de um batalhão de pessoas para contar com snipers, uma tropa de elite que faça trabalhos customizados, que liberem energias para que a empresa tenha resultados.

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Como ficarão as negociações pessoais neste novo mundo?
Igreja –
Os grandes negócios respeitam uma lógica econômica que jamais será violada: atender à necessidade do consumidor. Com isto, as pessoas podem utilizar o tempo disponível de maneira mais positiva, enquanto a tecnologia cumpre tarefas desgastantes. A tecnologia não substitui o olho no olho, as conversas presenciais que são indispensáveis ao negócio porque são baseadas em experiências de vida. Ocorre que este atendimento presencial não pode ser pior do que aquele do site desatualizado.

Em que circunstâncias a inovação pode deslanchar?
Igreja –
O campo mais fértil para a inovação é aquele onde prevalece a burocracia e onde se gasta muita energia para se cumprir uma tarefa, o que faz do Brasil um cenário apropriado. A inovação começa quando se pratica, e isto traz novas experiências aos seus usuários. Não dá para esperar que a situação econômica do Brasil melhore ou para ver quem ganhará as eleições, porque as mudanças vão ocorrer independentemente de qualquer resultado.
 

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