Governo Lula aprova benefícios em série a empreiteira suspeita de liderar cartel alvo de TCU e CGU

Estatal diz que aditivos buscam continuar obras e aproveitar recursos

Compartilhe:
lula

Presidente Lula durante declaração à imprensa no Reino Unido (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

O governo Lula (PT) assinou neste ano aditivos contratuais que favorecem a empreiteira Engefort, alvo de acusações de irregularidades detectadas pela Controladoria Geral da União (CGU) e indicada em auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) como a líder de um cartel que teria fraudado licitações de pavimentação no total de mais de R$ 1 bilhão de 2018 a 2021.

Continua após a publicidade

Receba notícias de Santa Catarina pelo WhatsApp

Esses aditivos, por meio da estatal federal Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), tratam principalmente da prorrogação ou “reinício” de 12 contratos cujos valores originais somam cerca de R$ 180 milhões para obras nos estados de Amapá, Bahia, Ceará, Paraíba, Sergipe e Tocantins.

Continua após a publicidade

Dois desses contratos do Amapá já foram atacados por fiscalizações do TCU e da CGU. Os auditores encontraram nas obras desvios, superfaturamentos e falta de projeto, entre outras irregularidades.
Apesar disso, agora sob Lula, um desses contratos teve seu valor aumentado e seu prazo prorrogado em 2023. Outros contratos foram estendidos apesar de ainda não terem saído da estaca zero.

Além das irregularidades nos contratos aditivados, o TCU e a CGU já apontaram irregularidades graves em várias outras obras da Engefort, levando a própria Codevasf a abrir procedimentos internos. A estatal já afirmou que suas apurações podem levar a pedidos de ressarcimento à Engefort. No Maranhão, por exemplo, as acusações são de desvios com “sarjetas fantasma” nas obras.

Índices de violência sexual contra crianças em SC preocupam autoridades em mês de conscientização

A Codevasf foi entregue pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL) ao centrão e é mantida dessa forma por Lula em troca de apoio no Congresso, no chamado toma lá dá cá.

Continua após a publicidade

Presidente da estatal desde 2019, indicado pelo líder da União Brasil na Câmara, Elmar Nascimento (BA), o engenheiro Marcelo Moreira foi mantido pela gestão Lula no cargo. O novo governo promove mudanças em diretorias e nas superintendências estaduais para conseguir apoio no Congresso Nacional.
A Engefort, construtora maranhense sediada em Imperatriz (a 630 Km de São Luís), chegou a dominar licitações de pavimentação da Codevasf na gestão Bolsonaro, muitas vezes participando sozinha ou na companhia de uma empresa de fachada, como revelou a Folha.

A maior parte dos contratos da estatal com a empreiteira foi abastecida por emendas parlamentares.
Três das obras que receberam aditivos em 2023, orçadas em R$ 90 milhões, foram indicadas pelo senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Continua após a publicidade

Em um dos casos que envolveu emendas de relator de autoria de Alcolumbre, técnicos do TCU já chegaram a apontar inclusive direcionamento pelo congressista em favor da Engefort.

Quem são os catarinenses no “Conselhão” de Lula

Continua após a publicidade

Em ofício que enviou à estatal no qual escolheu as cidades a serem beneficiadas e o tipo de pavimento que elas receberiam, Alcolumbre anexou até uma planilha com o timbre da construtora.

Já o relator do caso, o ministro Jorge Oliveira, não viu favorecimento de Alcolumbre à Engefort. O ministro acatou o argumento de que a construtora havia ganhado todas as licitações de diferentes tipos de pavimentação no Amapá, e assim de qualquer forma levaria os contratos no estado.

Continua após a publicidade

A construtora também já fez uma reunião na Codevasf com Alcolumbre, sem registro em ata.
Em 22 de setembro de 2021, o senador e Fernando Teles Antunes Neto, gerente comercial da Engefort, tiveram encontro com o presidente da Codevasf, Marcelo Moreira.

Em relatório divulgado neste ano, a CGU afirmou que ainda não havia definição sobre quais ruas seriam pavimentadas em duas destas obras apadrinhadas por Alcolumbre, cerca de dois anos após a assinatura dos contratos.

Continua após a publicidade

Lula pretende igualar salários entre homens e mulheres e criar regra para trabalhos via aplicativos

Além de atrasos, a controladoria aponta sobrepreço (R$ 1,4 milhão), superfaturamento (R$ 592,5 mil) e outros prejuízos no valor de R$ 1,9 milhão, como em falhas no dimensionamento das pavimentações. Ou seja, irregularidades de cerca de R$ 3,9 milhões.

Continua após a publicidade

Um dos contratos para o Amapá foi assinado em 2021 e recebeu três aditivos no governo Lula, em janeiro, fevereiro e abril.

Ao fim do governo Bolsonaro, o contrato tinha valor de aproximadamente R$ 28,8 milhões, mas, com os aditivos assinados em janeiro e abril, o montante subiu para cerca de R$ 29,2 milhões.

Continua após a publicidade

Já o adendo de fevereiro prorrogou o prazo do contrato em dez meses.

Um dos aditivos na Paraíba, chegou a apontar o “reinício do contrato”. Os aditivos de abril prorrogaram os prazos para mais um ano.

Continua após a publicidade

Fiscalização feita em setembro de 2022 pela CGU ainda encontrou falhas no asfalto pago com as emendas de Alcolumbre. Fotos da auditoria em Macapá (AP) mostram que parte do piso se deslocou para a extremidade da pista, formando fendas perto do acostamento.

Dos 12 contratos que receberam aditivos, ao menos quatro têm 0% de execução, segundo informações da Codevasf.

Continua após a publicidade

Lula confirma aumento do salário mínimo para R$ 1.320 e nova isenção de imposto de renda

A obra mais adiantada no grupo que recebeu aditivo em 2023 está 87% concluída e custou R$ 2,5 milhões, enquanto o segundo contrato mais avançado tem 33% de execução.

Continua após a publicidade

O site da Codevasf não mostra dados sobre duas obras. Uma delas, no Ceará, também virou alvo da CGU. O órgão afirma que o orçamento desse contrato de R$ 18,45 milhões inclui serviços de R$ 7,2 milhões que não serão feitos, como o destocamento de árvores.

Depois de a Folha mostrar a que a Codevasf trouxe para dentro da gestão Lula empresas e práticas investigadas por órgãos de controle, a Secom (Secretaria de Comunicação Social) publicou uma nota no site “Brasil contra fake” afirmando que o governo não está “envolvido” com o “cartel do asfalto”.

Continua após a publicidade

Questionada na semana passada sobre a Codevasf ter ampliado contratos com a Engefort mesmo após ressalvas de órgãos de controle, a Secom não se manifestou.

Vídeo engana ao dizer que Lula vendeu Amazônia a mineradora por verba para fundo

Continua após a publicidade

Estatal diz que aditivos buscam continuar obras e aproveitar recursos

Procurada pela Folha, a Codevasf afirmou que “os aditivos mencionados referem-se a dilatações de prazo”. “A prorrogação de prazos assegura a continuidade da prestação de serviços e o emprego efetivo de recursos orçamentários já empenhados”, disse.

A estatal negou que tenha ocorrido aumento do valor de um dos contratos do Amapá por meio de aditivo.

Continua após a publicidade

Segundo a estatal, o aditivo “refere-se à formalização de pagamento do valor indenizatório relacionado a reequilíbrio econômico-financeiro”. “O reequilíbrio tem por objetivos manter as condições efetivas da proposta aprovada em licitação pública e restabelecer a relação que as partes pactuaram inicialmente.”

Sobre a fiscalização da CGU, a estatal sustentou que “tem adotado medidas para ajustar processos com vistas ao atendimento a apontamentos de relatórios de auditoria, inclusive em relação a valores”.

Continua após a publicidade

‘Não cabe a mim dizer se Crimeia e Donbass são da Ucrânia ou da Rússia’, afirma Lula

Em nota, a Engefort afirmou que repudia “veemente quaisquer alegações de indícios formação de cartel, conluio e fraude existentes nos certames licitatórios em que participou” e “não compactua com quaisquer ilicitudes”.

Continua após a publicidade

A empresa informou que “todas as respostas necessárias serão apresentadas aos órgãos responsáveis”.

O senador Davi Alcolumbre afirmou que “acompanha e espera que os órgãos de controle, no papel de auxiliares do Congresso Nacional, como o TCU, exerçam sua missão nos processos instaurados para fiscalizar as denúncias de irregularidades, considerando que a Codevasf é a empresa responsável por todo o processo de execução orçamentária e de implantação das obras realizadas com recursos de emendas parlamentares destinadas com a finalidade de atender ao interesse público”.

Continua após a publicidade

*Reportagem de Flávio Ferreira e Mateus Vargas