O desconsiderado da vez

Crônica desta semana destaca a Bola de Ouro que foi para Rodri, do Manchester City, e não para Vini Jr

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Bola de Ouro derreteu das mãos de Vini Jr (Arte: Ben Ami Scopinho)

Criado em 1956, o Bola de Ouro é um dos mais importantes prêmios do mundo do futebol. Como todo prêmio, seja sobre o que for (cinema, moda, literatura, fantasia de carnaval ou a peruca mais charmosa), este inventado pela revista “France Football” é carregado de polêmicas, discórdias e injustiças. 

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Lá no passado ele era concedido apenas a jogadores europeus. Seus organizadores não olhavam, nem se preocupavam com os demais continentes. Garrincha, Pelé, Rivellino, Gérson, Didi, Jairzinho, Dario Peito de Aço, Zico e muitos outros craques jamais levaram a bola para casa.

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Chatonildos de plantão vão dizer que dois argentinos foram premiados. É verdade. Di Stéfano em 1957 e 1959 e Omar Sívori, em 1961. Mas o primeiro era naturalizado espanhol, jogava pelo Real Madrid e pela Fúria; e o segundo, naturalizado italiano, defendia a Juventus e a Azzurra. 

O primeiro não-europeu a vencer foi o liberiano George Weah, em 1995. O atacante africano era do Milan da Itália. Já o primeiro brasileiro a conquistar a estatueta foi Ronaldo, dois anos depois, quando vestia a camisa da Internazionale, também italiano.

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Desde 2007, quando o sossegado Kaká levantou o prêmio, um jogador brasileiro não recebe a honraria. Depois vieram Messi e Cristiano Ronaldo, Cristiano Ronaldo e Messi – e assim sucessivamente. Pulamos para 2024, quando o grande favorito torna-se o desconsiderado da vez. 

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Vinicius Jr., do Real Madrid e da seleção brasileira, jogador com felicidade nas pernas e no sorriso aberto. Preferido de goleada pelo voto popular, perdeu a Bola de Ouro para outro craque, Rodri, do Manchester City e da Espanha, na votação oficial. Quem decide a eleição, de verdade, são jornalistas especializados dos países que ocupam as cem primeiras posições no ranking da Fifa. 

(Filosofia do Achismo: deve ter muito jurado que não entende bulhufas de futebol.)

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Vinicius Jr. não ganhou. Assim como, recentemente, também não ganharam Romário, Iniesta, Xavi, Paolo Maldini, Kevin de Bruyne, Neymar, Haaland. “É uma votação, tem que aceitar o resultado. Às vezes você gosta, às vezes não. Amanhã é outro jogo, outra temporada, tente de novo”, sugeriu Pep Guardiola, técnico de Rodri no Manchester City. 

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Fala-se que Vini é muito debochado dentro de campo. Especula-se que seu ativismo e a luta heroica (e quase isolada) contra o racismo podem ter atrapalhado porque incomodam muita gente – colegas de profissão, jornalistas, árbitros, dirigentes poderosos. E isso teria lhe roubado pontos.

Lutar contra o racismo realmente apoquenta, constrange e importuna muita gente. Principalmente eles, os racistas. E racista é o que não falta por todas as partes do planeta. É como diz a ativista norte-americana Angela Davis: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”.

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 Ao descobrir que Vini Jr. não receberia o prêmio principal, seu clube decidiu boicotar o evento em Paris. O Real Madrid cancelou a viagem de uma delegação de 50 pessoas. Um tremendo e antipático equívoco. Por mais injustiçados que estivessem se sentindo, deveriam ter ido e protestado contra os organizadores. Deveriam ter ido para demonstrar fair play e respeito aos principais vencedores – o espanhol Rodri e a espanhola Aitana Bonmatí. 

Deveriam ter ido para dar o contundente recado: isso é muito mais do que futebol, e estaremos com Vinicius Jr. até o fim, e seguiremos com ele nesta luta arrojada, digna e destemida contra qualquer forma de preconceito. Estaremos com ele, e seguiremos com Vinicius Jr. para mostrar que racistas não passarão.