Florianópolis

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César Seabra

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Percepções sobre Santa Catarina a partir do olhar do diretor de jornalismo da NSC Comunicação

César Seabra

(Diorgenes Pandini/DC)

Pensamentos, pensamentos...

Por César Seabra

19/05/2018 - 07h10

Alvoroço no Sul do Brasil. A chance é remota, afirmam os especialistas. Mas pode nevar este fim de semana. E a turma, entusiasmada, sai em busca de hotéis e pousadas da Serra de Santa Catarina. Para um carioca que gosta do sol e praia e viveu o rigoroso inverno americano por alguns anos, a busca pelo frio é algo bem estranho, beira até o masoquismo. Procuro abandonar o etnocentrismo para entender. Namorar, apreciar a boa culinária, degustar um bom vinho, se vestir elegantemente, ver os flocos caírem pela primeira vez este ano, dormir agarradinho. Estas são as respostas mais comuns quando pergunto por que tanta adoração por temperaturas baixas. Aí lembro do vento que corta a alma, da chuva que gela o coração, do “efeito cebola” (aquele em que entramos em algum lugar mais quente e vamos nos despojando dos casacos), da lama em que se transforma a neve... Mas o turismo agradece e comemora. O frio está chegando, isso é o que importa. E vou preparar meu espírito para subir e conhecer as maravilhas da Serra catarinense. Do escritor francês Albert Camus: “E no meio de um inverno finalmente aprendi que havia, dentro de mim, um verão invencível”. Veja: Chance de neve aumenta procura por hospedagem na Serra catarinense Confira as previsões na coluna do Puchalski *** Alvoroço em Santa Catarina, alvoroço no resto do mundo. É o assunto da hora. O príncipe que quebra paradigmas se casa com uma afro-americana. Harry, de 33 anos, sexto na linha sucessória do trono, e a atriz e ativista Meghan Markle, três anos a mais do que ele. Em plena Era Trump, o casamento moderniza a monarquia britânica. Acima de tudo, é uma vitória do pluralismo e da diversidade. Veja: Pai do noivo, Príncipe Charles levará Meghan Markle ao altar *** Está formada a “Família Tite”. O técnico da Seleção Brasileira convocou os 23 jogadores para a Copa da Rússia sustentado nas verdades dele. E, desse jeito, não abriu espaço para duas revelações do Grêmio. Sempre é bom lembrar que, recentemente, tivemos a “Família Dunga” (2010) e a “Família Felipão” (2014). Ambos fracassaram, morreram abraçados com suas inabaláveis convicções.  Vai, Brasil: confira as notícias sobre a Copa no NSC Total *** Nossa superedição traz, este fim de semana, números absurdos sobre a Ponte Hercílio Luz. Um exemplo clássico do desperdício do dinheiro público em Florianópolis. Uma vergonha para o Estado de Santa Catarina, que vem dando sinais consistentes de crescimento econômico nos últimos anos. Assinantes têm acesso ao conteúdo completo antecipadamente.​ *** Da escritora Zélia Gattai, que nos deixou em 2008, cheia de sabedoria e estranhamento: "Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores".   Leia outras publicações de César Seabra Veja também:  WhatsApp pode ganhar emoji de chimarrão em breve

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Surpreender é preciso

Por César Seabra

05/05/2018 - 03h30

Não é segredo para ninguém, o mundo da informação vive tremenda onda de mutação. O que se faz agora fica velho amanhã. As novidades têm prazo de validade cada vez mais curto. Sobreviver neste mundo exige agilidade, pede coragem. Exige observar a realidade; ir às ruas, conversar, conhecer, criar empatia com os consumidores; tentar compreender desejos, sonhos, hábitos e até medos; humanizar a relação com quem nos consome. Exige, sobretudo e sempre, fazer jornalismo com ética, imparcialidade, criatividade, equilíbrio, com pluralidade - como manda a regra sempre ouvindo todos os contraditórios. Exige a busca incessante, incansável, inegociável, interminável pela verdade: não pode haver trégua na guerra contra as notícias falsas. Tudo isso é essencial para informar com muita qualidade e ajudar a formar opinião. Tudo isso é o que os jornais da NSC Comunicação vêm fazendo desde o nascimento. Este fim de semana o Diário Catarinense completa 32 anos. Neste mês de maio a nossa edição especial do DC, do Santa e do AN completa seis meses. E para comemorar as efemérides apresentamos aos amigos leitores, neste fim de semana, algumas mudanças importantes. São mudanças gráficas que revitalizam, fortalecem e valorizam ainda mais nossas principais reportagens, nossas grandes entrevistas. Exemplos desta edição: a entrevista com Paulo Cezar Caju, craque campeão do mundo em 1970 e primeiro atleta popstar do Brasil. PC fala de futebol, da Copa da Rússia, de Seleção Brasileira, da vida. E o relatório com informações exclusivas sobre a tragédia da Chapecoense, em 2016. Leituras imperdíveis. Assinantes têm acesso ao conteúdo completo antecipadamente.​ Os nossos suplementos também ganham mais personalidade, rostos mais bem definidos. O “NÓS”, com reportagens profundas, nos ajudará a tentar desatar os nós de nossas vidas (perdão pelo trocadilho infame), discutirá temas complexos e também divertidos de nosso cotidiano. O “VERSAR” falará de cultura, tendências, comportamento. O “ESPORTE” fica muito mais bonito, mais elegante e moderno, com reportagens mais analíticas. E o “CLUBE”, nosso fundamental caderno de entretenimento e oportunidades, muda até de formato. Sabemos, desde já, que daqui a pouco teremos de trazer mais novidades. O mundo da informação, não podemos esquecer, nos exige isso. Vamos buscá-las o tempo todo, sempre procurando entender e atender os anseios de nossos amigos leitores. Por enquanto, aproveitem o fim de semana, relaxem e curtam a Superedição. Ela é toda de vocês. *** Um gentil taxista me diz que o Brasil é um país maravilhoso, onde não há terremotos, maremotos, tsunamis e afins. Discordo dele e digo que a tragédia do prédio de São Paulo é um vergonhoso desastre, prova de que o descaso pela vida é uma triste recorrência de nosso cotidiano. *** O filósofo iluminista francês Voltaire escreveu: “Encontra-se oportunidade para fazer o mal cem vezes por dia e para fazer o bem uma vez por ano”. Nada mais a declarar.   Leia outras publicações de César Seabra

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Simplifique

Por César Seabra

28/04/2018 - 07h00

São aquelas surpresas boas da vida. Você busca um livro que pode nos ajudar a escrever de forma mais límpida e atrativa e encontra muito mais do que isso. Encontra dicas de como é possível viver melhor. O livro tem nome óbvio – “Como escrever bem”, lançado aqui pela editora Três Estrelas. O autor é o escritor, crítico literário e professor americano William Zinsser, morto em maio de 2015. Uma das boas sacadas de Zinsser: “A paisagem do nosso dia a dia é abundante em mensagens absurdas e presságios. Observe-os”. Verdade, perder o estranhamento é como a morte. Não estranhar as coisas ao nosso redor, por mais banais e ridículas que sejam, é a opção por desistir da vida.

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(Reprodução)

A primeira Copa a gente nunca esquece

Por César Seabra

25/04/2018 - 06h00

Cinquenta dias para mais uma Copa. Lembro da primeira que acompanhei, a de 1970, no México, ao lado de meu pai. Tão perto, tão longe. Aqueles caras – Jairzinho, PC Caju, Rivellino, Gérson, Tostão e até um tal Pelé – me fizeram amar o futebol. Depois veio tanta gente boa, campeões ou não. Cruyff, Beckenbauer, Paolo Rossi, Maradona, Romário & Bebeto, Zidane, Rivaldo, Ronaldinho & Ronaldão, Iniesta, Kroos... Cinquenta dias para mais uma Copa. Lembro da primeira que acompanhei bem de perto, a de 1998, na França. Quase fui espancado por hooligans, entrevistei Zico, Roberto Baggio e Zagallo, não vi o pânico do Ronaldão, mas vi o francês Zidane acabar com o Brasil na grande decisão.   Leia também: Começamos a contagem regressiva para a Copa do Mundo Era Neymar   Cinquenta dias para mais uma Copa. Lembro de quatro anos atrás, o segundo Mundial no Brasil. O país achando que o evento seria um desastre, a Seleção enchendo o povo de esperança, a invasão de argentinos às praias do Rio de Janeiro, a inacreditável surra que a Alemanha nos impôs... Tudo muito fresco na memória. Copa não é apenas futebol. Tem um país inteiro mobilizado, aberto, recebendo gente de todo o mundo. Tem a economia girando com os turistas. Tem a alegria de fazer amizades pelas ruas... Copa não é apenas futebol. Poder conhecer um novo país, com sua gente e seus hábitos, desprovido de ideias preconcebidas, é bacana demais.  Copa não é apenas futebol. Conhecer a cultura desse país, visitar museus, apreciar a culinária, a música, a dança, tudo nos enriquece a alma e o coração. A Copa está pertinho. Será que Neymar vai estar pronto? Será que Messi vai desencantar? Quantos gols Cristiano Ronaldo vai marcar? Será que o uruguaio Suárez vai morder alguém? E a Espanha, a França, serão fortes? Meu Deus, lá vêm os alemães, muito medo... A bola vai rolar na Rússia daqui a 50 dias. E a NSC Comunicação começa nesta quarta-feira (25) uma extensa cobertura multiplataforma. Com vocês, catarinenses, vamos nos divertir, pular, vibrar, nos emocionar. É a nossa primeira Copa – e será inesquecível. A primeira Copa a gente nunca esquece. Vai, Brasil.   Confira as últimas notícias de Esporte no Diário Catarinense

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Humanismo

Por César Seabra

21/04/2018 - 07h30

Gentilmente carregado por minha mãe, fui estudar piano quando era molecote. Nunca fui um virtuose, mas aprendi a arranhar Bach, Beethoven, Schubert... O tempo voou, a vida me empurrou para outros rumos, desisti de jogar bola, abandonei a música... Mas o piano (chamado de Perivaldo, homenagem a um ex-jogador do Botafogo) continuava lá em casa, ocupando espaço. Minha relação com ele, o piano, era profundamente afetiva. Vê-lo naquele canto do escritório me alegrava. Mas não a ponto de abri-lo novamente e me arriscar a interpretar os mestres citados acima. Até que, dois meses atrás, uma amiga contou que um padre fazia a inclusão de refugiados haitianos por meio da música. A ideia da doação me deixou com uma pulga atrás da orelha. Não seria nada fácil me desfazer do amigo de longa data. Mas a decisão foi tomada. O piano foi levado para a igreja. E fui invadido por uma emoção impossível de descrever quando recebi imagens de meninos do Haiti se divertindo com o Perivaldo. É muito boa a sensação de sentir-se útil e ajudar o próximo.   Leia também: O desafio para receber venezuelanos em SC   Santa Catarina já recebeu alemães, italianos, austríacos, poloneses, portugueses, japoneses... Se fez um Estado grande, e se faz um Estado próspero, graças à união de brasileiros com esses e muitos outros povos — respeitando, entendendo e se fortalecendo com suas diferenças e suas habilidades. Agora, recebe também haitianos, sírios, iraquianos, africanos, imigrantes de um mundo que está fora da ordem, de cabeça para baixo. E deve se preparar para receber os irmãos venezuelanos. Essa gente foge das crises. Escapa de guerras, de governos tirânicos, de ditadores assassinos. Essa gente luta contra a morte. E deseja apenas melhores condições de vida para os filhos. Gente é para brilhar, não para morrer de fome, canta Caetano Veloso. E já que estamos no campo da música, vamos de Bob Marley: “Enquanto a cor da pele for mais importante do que o brilho dos olhos, sempre vai existir guerra”. Há crises por todos os lados. Fascistas, racistas, reducionistas e xenófobos também estão por todos os lados. Espalham preconceito. Derramam repulsa. Banham a terra com sangue. Propagam a intolerância social, racial e religiosa em reuniões secretas e nas redes sociais.     Viajemos aos Estados Unidos. Eles só existem hoje como o país mais rico do mundo por conta dos  muitos povos que lá foram tentar a sorte. A terra que em 2008 elegeu Barack Obama não anda em boa fase. A escolha de Donald Trump como presidente e o recente episódio da prisão de dois negros, que queriam usar o banheiro de uma rede de café, comprovam que racismo e xenofobia estão fortemente presentes. Mas nesse grande pote americano, onde se misturam o preconceito e o espírito de que a terra é minha porque cheguei primeiro, existe Nova York. Cidade difícil, mas que abriga todos os povos. Cidade dura, em que pode até não haver confraternização entre os estrangeiros, mas onde todas as comunidades têm o seu espaço. É como os novaiorquinos dizem: “Se eles não estão aqui, então eles não existem”. Voltemos ao Brasil, voltemos a Santa Catarina. Não há espaço para ingenuidade. Receber os imigrantes não é tarefa nada fácil. É preciso organização, vontade política, dinheiro, espaços públicos. A nossa economia está combalida. Faltam vagas no mercado de trabalho, o índice do desemprego é alto. Mas não podem faltar solidariedade e generosidade. Não pode faltar amor ao próximo – seja ele um vizinho de rua, seja ele um refugiado de outro país, não importa. É como sentenciou Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da pele, pela origem ou pela religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Portanto, Santa Catarina, braços e corações abertos. Hoje e sempre. *** Foi Dostoiévski quem disse: “Os seres humanos são criaturas indignas de confiança”. Sou eu que digo: por isso, enquanto houver mundo, leis e regras serão necessárias. Sempre. Nossa edição especial traz duas grandes entrevistas: o filósofo italiano Domenico de Masi dá uma aula sobre a vida; e o pré-candidato Ciro Gomes apresenta suas ideias e seus projetos para tentar chegar ao Palácio do Planalto. Leituras obrigatórias de fim de semana. Assinantes têm acesso ao conteúdo completo antecipadamente. A vida passa rapidamente. Não há mais tempo a se perder com picuinhas, pequenezas. O tempo realmente voa. Há que se aproveitar os pequenos prazeres, aqueles que a vida nos oferece. Um abraço do filho, um beijo da namorada, um sorvete na esquina, um pastel na feira, a cerveja com o amigo, admirar o pôr do sol, emocionar-se com uma inusitada atitude de carinho, sentir o cheiro do orvalho no mato. É como diz o querido amigo Zé: “Eu não quero ser o mais rico do cemitério. Eu quero é viver”.   ​Leia outras publicações de César Seabra​  

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Verdades e ódio

Por César Seabra

14/04/2018 - 05h00

Onde as coisas se quebram? Esta é uma pergunta que me tira o sono. O fim de uma relação profissional, a fratura de uma amizade, o ocaso de um amor. Penso, mergulho nas profundezas de minha alma, chego a conclusões simplistas, reducionistas até. Os seres humanos têm verdades demais. E, o pior, nos levamos a sério demais – faltam a autocrítica sem perder a ternura jamais, o humor, o reconhecimento de que somos patéticos. Corre nas redes sociais um parágrafo bonito de Milan Kundera, escritor tcheco. Extraído do livro “Um Encontro” (lançado aqui pela Companhia das Letras), o trecho seguinte é tiro-e-queda:  “É preciso realmente uma grande maturidade para compreender que a opinião que nós defendemos não passa de nossa hipótese preferida, necessariamente imperfeita, provavelmente transitória, que apenas os muito obtusos podem transformar numa certeza ou numa verdade”. É arduamente pesado conviver com uma pessoa cheia de verdades. Dá uma tremenda preguiça. Para ela não há dúvidas, temores, empatia. Não há diálogo. Ela está sempre armada com a verdade entre os dentes. Fingir que interage é uma arte - as frases entram por um ouvido, saem pelo outro, porque ela já sabe e já viu tudo do mundo. Para ela não há espaço para surpresas, estranhamentos, para o novo. E pobre de quem tenta enfrentá-la com argumentos, sejam precisos ou vacilantes. Este coitado muito provavelmente passará a ser odiado pelo dono das imperturbáveis e inquebrantáveis verdades. Talvez tudo isso explique um pouco do ódio que está tomando conta do país. O apego a verdades toscas, o horror às ideias do outro, a profunda aversão a respeitar o pensamento alheio. Se sou de esquerda e tenho boas ideias? Se sou de centro e tenho argumentos bem sustentados? Se sou de direita e tenho razoável argumentação? Se simplesmente odeio política? Não importa. É muito mais fácil partir para o xingamento, a ofensa moral, a materialização da porrada – seja pelas redes sociais ou ao vivo. O recado é direto: tenho as minhas verdades, as suas não valem uma moeda sequer. Isso é de um infantilismo atroz. Ouvi esses dias que o Brasil está ficando um país cansativo. Já tínhamos a malandragem, a violência, a bandalheira, a desgraça dos jeitinhos, a pobreza, a falta de educação (em todos os sentidos). Agora temos a crescente intransigência – e ela não pode ser sinônimo de nosso declínio como sociedade.  Contra isso há apenas um antídoto, e seus princípios ativos são a inteligência, o respeito ao cara da porta ao lado e o perseverante abraço ao mundo das ideias. Sem esse remédio, caminharemos a passos largos para virar o país da intolerância.   *** O advento e o fortalecimento das redes sociais acabaram com a separação entre os espaços público e privado. Quando criou o Facebook num dormitório em Harvard, Mark Zuckerberg sonhava aproximar as pessoas. Hoje a rede tem mais de 2 bilhões de usuários e se transformou num canal de disseminação do discurso do ódio e de invasão de privacidade. *** Hermann Hesse, escritor alemão, escreveu: “Se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba”. *** Esta Superedição de fim de semana publica extensa entrevista com Jair Bolsonaro. Já conversamos com Henrique Meirelles. E falaremos com os demais pré-candidatos à Presidência do Brasil. Tudo para que os catarinenses possam entender o que os postulantes pensam e conhecer seus projetos de governo. E que a decisão do voto seja tomada com consciência, com amor. Sem ódio. Assinantes têm acesso ao conteúdo completo antecipadamente.   *** O momento é de altruísmo, humanismo, desprendimento, generosidade. Parafraseando aquele velho programa de TV: faça amor, não faça a guerra. Leia outras publicações de César Seabra Veja também: Um sonho de caminhada  

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Um sonho de caminhada  

Por César Seabra

30/03/2018 - 18h39

Sempre que dou minhas preguiçosas corridas pela orla de Florianópolis, me deparo com a Hercílio Luz. Para um “estrangeiro”, olhar aquela ponte inutilizada é bem esquisito. Aquela lindeza sobre o mar, espaço amplo, no meio da natureza, com vista para o continente e para a ilha, uma charmosa estrutura de metal em estilo geométrico... Me deparo com ela e me pergunto: por que isso não se transforma num jardim suspenso? E passo a delirar, a imaginar a ponte lotada de gente - namorando, fotografando, apreciando o nascer e o pôr do sol, tomando um café. Sigo a minha corrida, vagaroso, pensativo...Leigo no assunto, recorro ao amigo Leão Serva, colunista do jornal “Folha de S.Paulo” sobre temas urbanos e autor do livro “Como viver em SP sem carro”. E recebo uma aula sobre espaços públicos. A ideia de usar estruturas viárias decadentes ou abandonadas como jardins suspensos surgiu em Paris, com o Promanade Plantée, ensina Leão. Construído numa linha de trem desativada e inaugurado em 1994, o parque tem quase cinco quilômetros de extensão e vai da Bastille ao Bois de Vincennes. Belíssimo, o viaduto foi construído no século 19 com 71 arcos.  A atração parisiense influenciou decisivamente o projeto do High Line Park. Este projeto pude acompanhar bem de perto, desde a criação. Amigos de Manhattan se uniram para transformar uma obsoleta rede ferroviária, usada por trens de carga de carne, num dos pontos mais visitados de Nova York. A inauguração foi em 2009. Hoje o High Line, com seus 2,3 quilômetros, vai do Museu Whitney até a Rua 34,  recebe mais de dez milhões de pessoas por ano. Um golaço para a mais importante cidade dos Estados Unidos. O parque suspenso se transformou num ícone da arquitetura moderna. Deu mais vida à região. As galerias de arte vivem bombadas. Os restaurantes estão sempre cheios. E os apartamentos do Chelsea custam, agora, os olhos da cara.Voltemos à nossa realidade. Vamos a São Paulo, onde o High Line está servindo de base para o Parque Minhocão, projeto que ganha corpo na maior cidade da América Latina. “Aqui temos um caso bem diferente”, afirma Leão Serva. “Trata-se de uma estrutura de avenida elevada para automóveis construída em 1971 e ainda em uso”. No fim de 2017 o projeto para o Parque Minhocão foi aprovado. Mas muitos paulistanos querem ver o monstrengo demolido. É uma batalha longe do fim. Por enquanto,, o elevado vai sendo usado, pelo público, durante todos os fins de semana. Fera no tema, Leão Serva vai além: “Há questões importantes de engenharia que devem ser consideradas, tanto no Minhocão, como num futuro projeto para a Ponte Hercílio Luz. Estudos técnicos são fundamentais para analisar a capacidade da estrutura que vai suportar o peso de um jardim, a água que pode ser absorvida e escoada... E há também de pensar em banheiros, barraquinhas, lanchonetes, infraestrutura para os visitantes”.Exemplos não param de aparecer pelo mundo. Em Londres há um projeto de jardim suspenso entre Waterloo e Westminster. Bastante diferente, uma das poucas coisas boas que o Rio de Janeiro herdou, com os Jogos Olímpicos de 2016, foi a revitalização da região do Porto. Os fins de semana por lá se tornaram uma tremenda festa – mesmo com o medo tomando conta de cariocas e turistas. “Tudo isso é um exercício de desenvolvimento de áreas que darão alegria e conforto para milhares de moradores e visitantes, onde havia antes estresse, poluição e abandono”, arremata Leão Serva.As obras da Hercílio Luz estão chegando à etapa final. Pelo menos é o que dizem. São 35 anos em obras. Simplesmente patético. Quantos catarinenses jamais cruzaram a ponte, seja de carro, ônibus ou a pé? Agora, discute-se o que vai acontecer com ela: vai se transformar num corredor cultural? Vai ser usada para transporte coletivo? Vai servir apenas para pedestres, ciclistas e carros de passeio? Quantos políticos usaram a ponte, inaugurada em 1926, para se eleger a alguma coisa? Quanto dinheiro foi jogado – e desperdiçado – ali?    Como “estrangeiro”, espero manter minha esperança, vencer minha preguiça e, um dia, caminhar pelos 821 metros da belíssima Velha Senhora.-------------Aí você entra numa livraria e se depara com uma pérola: “A felicidade” (Editora Globo), do sociólogo Domenico di Masi e do fotógrafo Oliviero Toscani. Dentro dessa pérola, uma pequena obra-prima do químico e escritor Primo Levi:“Todos descobrem mais cedo ou mais tarde na vida que a felicidade perfeita é irrealizável, mas poucos se detêm na consideração oposta de que assim também é a infelicidade perfeita. As contingências que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza: decorrem de nossa condição humana, inimiga de tudo o que é infinito”.----------------Na grande reportagem de Ânderson Silva e Diógenes Pandini, os catarinenses podem entender por que os cariocas vivem hoje o estado de horror. E o que os governantes de Santa Catarina podem fazer para não repetir os erros do Rio de Janeiro. Assinantes têm acesso ao conteúdo completo antecipadamente. Leia mais textos de César Seabra 

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A flecha do ódio

Por César Seabra

24/03/2018 - 12h33

Vou chover no molhado. Impossível escapar. É preciso falar de ignorância, burrice, rancor... É preciso falar do terreno livre para o ódio em que se transformou o mundo das redes sociais. A morte de Marielle Franco, na semana passada, ainda põe mais lenha na fogueira dos ataques irracionais e pessoais. Cito apenas dois exemplos de gente que considerou justo o assassinato da jovem vereadora carioca: um acha que ela mereceu ser executada porque era “ultraesquerdista”; outro defende o crime porque ela seria “defensora de bandidos”. Em ambos os exemplos, mentiras. A pergunta que me faço é: como combater tanta estupidez? A resposta parece ser bem simples: com educação, aprendendo a ler e a estranhar, aprendendo a ouvir o contraditório e a respeitar outras opiniões. Somente assim seremos menos preconceituosos, menos ignorantes, menos imbecis. Outra coisa que me instiga profundamente a curiosidade: descobrir gente que considero decente disseminando pensamentos de gente que considero indecente. O que há por trás disso? A prática da falta de (bom) senso crítico antes do clique “compartilhar” não vem de hoje. Antes tínhamos coisas inocentes, como frases de Clarice Lispector que jamais ela criaria, declarações do Papa argentino que jamais ele diria, textos de Arnaldo Jabor que ele jamais teria a incompetência de escrever. Agora, o incremento disso tudo é a cegueira, é a raiva. O ódio é a vingança do covarde, diria o dramaturgo Bernard Shaw. E a maldade bateu à porta, está no centro da sala, está sobre a nossa mesa. Quando alguém me diz que não participa do mundo das redes sociais, custo muito a acreditar. Mas isso mexe com meu esqueleto. Tenho inveja do jornalista do New York Times que ficou dois meses sem entrar em qualquer mídia social. Depois, ele chegou à conclusão de que os jornais impressos são essenciais para quem deseja ficar bem informado. “Desativar o alarido das notícias urgentes na máquina que carrego no bolso foi como me desagrilhoar de um monstro que me telefonava sem parar, sempre disposto a interromper meu dia com boletins urgentes de notícias mal apuradas”, escreveu Farhad Manjoo. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump desenvolveu um estilo de governar pelo Twitter. O microblog serve para disparar acusações contra veículos como o “Times” e a rede de televisão CNN. Também é usado para demitir assessores e criticar a investigação do FBI que pode levar a uma abertura de processo de impeachment. Trump cria a sua verdade nas redes sociais – e ai de quem o contrarie. No país da democracia, a liberdade de expressão do presidente pode ser criticada, mas jamais censurada. Aqui mesmo, no nosso DC, fizemos esta semana um ataque pessoal pesado a um deputado federal. Não me interessa se ele é bom ou mau, feio ou bonito, se gosta de feijoada ou macarronada, se prefere o rock ao forró, se é progressista ou conservador. Não me interessam maniqueísmos. Não me interesso por paladinos da moralidade, justiçamentos ou caça às bruxas. Me interessa, sim, o bom jornalismo. Me interessa a busca inegociável pela verdade. Me interessa eternamente encostar a cabeça no travesseiro e dormir o merecido sono dos justos. Não há mais tempo a se desperdiçar com linchamentos públicos e mentiras. Gosto de frases. Elas me inquietam. Me trazem reflexão incessante. Nesses tempos de caça às bruxas, em que a barbárie ameaça a civilização, fico com uma do escritor argentino Jorge Luis Borges: “Parece-me fácil viver sem ódio, mas viver sem amor acho impossível”. l l l Casagrande foi um ótimo atacante. Hoje é um ótimo comentarista de futebol. Mas o que mais gosto dele é a visão humanista do mundo – o que os amigos leitores poderão conferir na entrevista publicada nesta edição. Leia outras publicações de César Seabra

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Chico, Tim e os humanos

Por César Seabra

11/03/2018 - 15h45

Chico Buarque lançou disco novo, “Caravanas”. E corre parte do Brasil com um show lindo, sem exageros, comovente até. E tudo isso me faz lembrar os idos de 1993, quando o mesmo Chico estava nos revelando o também bonito “Paratodos”. Num sábado ensolarado do Rio de Janeiro, em plena turnê daquele CD, o time da editoria de Esportes do jornal carioca “O Globo” foi convidado para um jogo de futebol contra o Polytheama. O time do compositor apregoava, pomposo, que jamais havia sido derrotado. Nossa equipe era jovem. A deles, nem tanto... Sapecamos 4 a 0 no time do Chico, que reclamou, com razão, a partida inteira de nossa embriagada juventude e de nossa desenfreada correria. Como tudo o que é ruim sempre pode piorar, o maestro da banda de Chico, Luiz Claudio Ramos, quebrou o braço num lance fortuito. Ao fim da peleja, mesmo abalado com a derrota, Chico nos presenteou com ingressos para ver, na noite daquele mesmo sábado, o show de “Paratodos”. Nossos lugares eram privilegiados, na turma do gargarejo, à frente do palco. O show começa. Uma música, segunda música, terceira música, um sucesso atrás do outro, público em delírio... E aí Chico parte para cumprimentar a plateia. Depois, um a um, apresenta a banda. Na hora de falar das virtudes de Luiz Claudio Ramos – que tocava um pandeiro quietinho num canto, com o braço esquerdo engessado –, usa a genialidade de sempre para explicar o acontecido: – Nosso maestro e arranjador quebrou o braço num embate épico de futebol contra o time do jornal “O Globo”,  hoje de manhã, vencido com fibra pelo nosso time, o Polytheama, por 4 a 1. O plateia foi à loucura com a falsa notícia do Chico. Do que importa? Foi um sábado para jamais sair da memória. *** Numa noite qualquer de um mês qualquer de 1996, Tim Maia fez (mais) um show inacabado no Rio. Ele cantou apenas três ou quatro músicas, a plateia enfurecida quebrou a casa toda. Eu era o editor de Cidade também de “O Globo”, e lá fomos contar a história. Na manhã da publicação, o telefone toca. Era ele, o monstro sagrado da música brasileira, Tim Maia. Docemente, Tim me perguntou por que publicamos a reportagem, que não havia sido daquela forma.... Respondi que toda a história me entristecia, que aprendi a gostar de música graças a ele, mas que era meu dever como jornalista mostrar a verdade, ouvindo todos os lados. Desligamos o telefone na paz. Alguns minutos depois o telefone toca novamente. Era Tim. Um pouco tenso, foi mais duro na cobrança, dizia-se perseguido, cismava que não gostávamos de MPB... Tentei manter a calma e respondi a mesma coisa de antes. Desligamos o telefone numa boa. Mais alguns minutos depois, o telefone de novo. Agora era o Tim explosivo. Com aquele vozeirão que jamais cai no esquecimento, me fez ameaças... Dei uma risada nervosa, ele aumentou o tom. E bateu o telefone na minha cara. Mais tarde, num programa de outro gênio, Jô Soares, Tim Maia fez graça com a história e disse algo assim: – Não é o doutor Roberto Marinho que não gosta de mim... Não é o jornal “O Globo” que não gosta de mim... É aquele rapaz lá, o César... O César Seabra – disse. A plateia caiu na gargalhada. Do que importa? Graças ao maravilhoso e imprevisível Tim, tive meus 15 segundos de fama. *** Em entrevista recente ao jornal “Folha de S.Paulo”, o historiador britânico Andrew Keen disse: “Precisamos entender o que acontece no mundo moderno e desenvolver novas formas de agir. Na era das máquinas inteligentes e dos algoritmos, precisamos entender o que somente os humanos ainda conseguem fazer.” Buscar a verdade somente nós, humanos, conseguimos fazer. E para nós, jornalistas, isso será sempre um desafio incansável e inegociável. Nós, da NSC Comunicação, temos a convicção de que o projeto Prova Real, lançado neste sábado, ajudará a construir uma sociedade catarinense ainda melhor, com a ética e a responsabilidade que todos desejamos. Leia outras colunas de César Seabra Confira também: Frases, fatos e cidadania Coragem, Floripa  

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Tadeu Vilani

Frases, fatos e cidadania

Por César Seabra

04/03/2018 - 17h32

Uma das primeiras dicas para (tentar) me tornar um bom cidadão recebi, claro, em casa. Molecote ainda. De minha mãe. Dona Leila sempre dizia, dedo em riste, meio zangada: “Ponha-se sempre no lugar do outro. Não faça com o outro o que não desejas que façam com você.” Ela repetia diariamente... Uma bronca, um mantra.

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