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César Seabra

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Percepções sobre Santa Catarina a partir do olhar do diretor de jornalismo da NSC Comunicação

César Seabra

Extrema leveza

Por César Seabra

10/11/2018 - 05h00

O passado, algumas vezes, traz boas memórias e boas risadas. Depois do peso das eleições, leveza e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Então segue uma historinha. Está perto de completar 25 anos uma pequena tragédia do futebol brasileiro. Aconteceu no velho Maracanã. Eu estava lá. Agora estou cá, para relembrar e relatar a vocês. Era uma manhã calorenta de dezembro de 1993. Eu tinha 32 anos e carregava volumosa barriga para um cara tão jovem. Naquele dia, um time de jornalistas brasileiros enfrentaria uma equipe austríaca também de jornalistas. Não havia dúvidas: arrogantes que somos, na época ainda tricampeões mundiais, tínhamos a certeza de que seríamos lembrados, eternamente, por uma vitória avassaladora. Afinal, o que era (e ainda é) a Áustria para o futebol mundial? Estavam no Maracanã cerca de cem torcedores: 60 austríacos; 30 operários que pararam o trabalho para ver a peleja; e apenas 10 loucos e amorosos parentes nossos. Os rivais entraram em campo enfileirados, bem arrumados, com o uniforme da seleção austríaca. Pareciam profissionais. Nós pisamos a grama sagrada com 26 atletas, todos com calções, camisas e meias diferentes. Éramos um bando de esfarrapados. Acreditem, a nossa camisa era a da seleção... holandesa. Aquilo era um pequeno sinal do infortúnio que se aproximava, com todo o respeito à Holanda. O jogo começou, para a alegria dos torcedores austríacos e dos operários traidores da pátria, que dançavam e gargalhavam como se ouvissem música. Seguem alguns detalhes do que ficou conhecido, para alguns gatos pingados, como "A Desonra do Maraca": 1) Nossos dois goleiros, o titular e o reserva, tinham assustadores 1,60 m de altura; 2) Um de nossos zagueiros trocou as chuteiras por um par de tênis americano All Star; 3) Um de nossos atacantes arriscou um chute de longa distância. A bola sequer chegou à linha da grande área; 4) Em 90 minutos de jogo nosso artilheiro tocou na bola apenas uma vez - no apito inicial do árbitro; 5) Nosso lateral-esquerdo, com camisa laranja, calção azul e meias do Vasco, não sabia o que era a regra do impedimento. Passou o jogo colado à trave, tricotando com nosso goleiro verticalmente prejudicado; 6) Parado em campo, deslumbrado com o tamanho do estádio, outro atacante de cabelos enormes ganhou coro dos operários: "Cabeluda! Cabeluda!"; 7) E o zagueiro que vos escreve levou um drible tão desconcertante que se estatelou com a cara e a pança no chão, parecendo um João-Bobo. Ah, o resultado? A Áustria venceu por 7 a 0. Nosso sonho virou constrangimento. Graças aos deuses do futebol, tudo aquilo foi esquecido por conta dos 7 a 1 de 8 de julho de 2014, no Mineirão. Muito obrigado, Felipão. °°° Do comediante americano Jerry Seinfeld:  “Os seres humanos têm relacionamentos abusivos uns com os outros”. °°° Uma das obras mais bacanas da literatura brasileira, “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino, bateu um recorde: chegou à centésima edição. Foi leitura obrigatória de minha juventude. Continua leitura imprescindível em meu caminho à implacável quarta idade.   Leia outras crônicas

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Reta final

Por César Seabra

27/10/2018 - 03h00

Posso dizer, com orgulho, que trabalhei em várias eleições. Muitas delas enormemente importantes, no Brasil e fora daqui. Por exemplo, a cobertura das eleições de 1989, aquela em que Collor e Lula sobreviveram para o acirrado segundo turno. Não foi nada fácil, assim como também foi dureza a disputa entre o democrata negro Barack Obama e o republicano veterano de guerra John McCain, em 2008, nos Estados Unidos. Mas nada se compara às eleições que vivemos agora em nosso país. Nunca vi tanto ódio, menosprezo e hostilidade pela opção do outro, tanto jogo sujo, desprezo pelos valores democráticos. Nunca vi tanta gente de bem - filhos, pais, amigos, irmãos, casais - tomada pela animosidade, pela raiva. Ninguém sairá ileso desse faroeste tupiniquim, dessa incomensurável confusão. Pelas redes (antissociais) - principalmente pelo WhatsApp - vi velhas amizades se dissipando, namorados se separando, irmãos se ofendendo. Vi xingamentos, promessas de agressões físicas e, simplesmente inacreditável, até de morte. O horror, o horror. "Largar as redes sociais é a maneira mais certeira de resistir à insanidade dos nossos tempos", escreveu o filósofo da internet Jaron Lanier. As redes gratuitas cobram muito caro, manipulam e mudam nossos comportamentos, acrescenta Lanier, pioneiro da realidade virtual. Perfeito, é o que vem acontecendo de forma nua e crua por aqui. As redes sociais estão nos tornando uns idiotas, ignorantes do terceiro milênio. Vivemos a “imbecilização da sociedade”, como diz Caetano Veloso. Para manter integridade e preceitos éticos, não preciso justificar em quem votarei. Muito menos tentar subjugar, reprimir ou dominar o outro que votará em candidaturas diferentes. Meus valores são inegociáveis, não dependem da força. Em tempos de cólera, o recolhimento e o silêncio tornaram-se produtos de inestimável valia. E assim chegamos à reta final das eleições 2018. Neste domingo vamos às urnas decidir quem será o nosso presidente e quem será o governador de Santa Catarina. Que tenhamos paz nas ruas. Que os eleitores exerçam o poder do voto com cidadania e sabedoria. Que os políticos, os vencedores e os vencidos, respeitem os princípios básicos da democracia, reconquistada nos anos 80 do século passado. Que respeitem os Poderes, as instituições, a Constituição, os adversários e partidos rivais.  Que respeitem, sobretudo, as dores e os sonhos dos seres humanos que habitam este conturbado país. °°° Para mostrar por que a democracia americana é tão poderosa, apesar dos históricos solavancos, seguem pequenas pérolas de dois personagens fundamentais: Thomas Jefferson, terceiro presidente e o principal autor da declaração da Independência dos Estados Unidos: "Quando estiver zangado, conte até 10 antes de falar; se estiver muito zangado, conte até cem." Abraham Lincoln, presidente que liderou o país na sangrenta Guerra Civil, manteve a União e acabou com a escravidão: "Aqueles que negam liberdade aos outros não a merecem para si mesmos." Definitivamente, nada é tão grande e forte por acaso.   Leia outras crônicas

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A rede

Por César Seabra

21/10/2018 - 05h00

O inferno astral do Facebook parece não ter fim. Entre tantos outros graves problemas, a rede ajudou a levar Donald Trump à Casa Branca, em 2016. Somente este ano foi provado que a consultoria Cambridge Analytica se apropriou indevidamente de dados pessoais de 50 milhões de usuários em benefício da campanha do bilionário americano.Mais recentemente, foi confirmado que 30 milhões de usuários tiveram dados roubados por hackers. Nomes, telefones, correios eletrônicos, gênero, idiomas, status de relacionamento, religião, cidade natal, data de nascimento, dispositivos usados para acessar a rede, grau de educação, emprego e os últimos 10 locais onde as vítimas estiveram ou foram marcadas. Ouro em pó tirado do Facebook.Até gosto do Face, tem seu valor. Nele pude reencontrar queridos amigos e mantenho contato com pessoas que provocam boas lembranças e risadas. Graças a ele quase sempre escapo da gafe de esquecer aniversários de gente que quero muito bem. Este é o Face do bem. Também temos o Face do mal. Nele me surpreendo com aberrações ali despejadas e com o livre terreno para o ódio em que se transformou. Aqui a rede de Mark Zuckerberg é completamente desnecessária e despropositada.Mas tem um dia em que o Facebook nos pega pelo pé e sacode nosso esqueleto. Todos passaremos por isso. Minha vez chegou na semana passada, quando fui convidado, via rede, para ser modelo de ensaios fotográficos, propagandas de TV e afins. O convite da agência dizia: “Estamos com demandas imensas de trabalho para modelos comerciais e seu perfil se encaixa. Modelos publicitários não têm exigência de altura, peso e idade.”Com o ego tomado pela vaidade e o coração partido, enviei a negativa: “Não conseguiria conciliar a atribulada vida de jornalista com a também dura vida de modelo.”Quando se recebe um convite assim, tão bizarro quanto o topete de Trump, precisa-se fazer uma profunda autorreflexão e dizer, sem medo de ser feliz: você não faz mais sentido, está chegando a hora de partir, Facebook.°°°De Valter Hugo Mãe, importante escritor português: "O inferno não são os outros. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti."°°°Marcelo Adnet, com os tutoriais dos candidatos à Presidência, é um tremendo destaque das eleições 2018.  Viva o humor! Leia também:Vazamento de dados do Facebook atinge 443 mil usuários no BrasilFacebook 'melhor preparado' contra ingerência eleitoral, diz Zuckerberg

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Foto:Jean Pimentel/Agencia RBS

Recados e sinais

Por César Seabra

13/10/2018 - 04h50

Um amigo emitiu, pelas redes sociais (ou antissociais), um recado. Não sei para quem, nem importa saber. Em tempos de ódio, a missiva de Rodrigo Araújo é pungente e emocionante. Segue um trecho:

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Recados e sinais

Por César Seabra

13/10/2018 - 03h00

Um amigo emitiu, pelas redes sociais (ou antissociais), um recado. Não sei para quem, nem importa saber. Em tempos de ódio, a missiva de Rodrigo Araújo é pungente e emocionante. Segue um trecho: “Lamento informar, mas ‘eu não quero estar junto com você’ é democracia. Não conviver é democracia. Rompimento sem agressão é democracia. Defendo até a morte o seu direito de escolher quem você quiser. Você lá, eu cá. Democraticamente. Um dia, quando você entender que duas pessoas devem estar vivas e em condições iguais para se relacionarem, voltaremos a conviver. Até lá, a nos separar, estará um enorme abismo chamado respeito.” Respeito é tudo. Respeito, acima de tudo. Aprendi desde moleque a respeitar as opiniões do outro, a respeitar as preferências do outro, a ouvir e refletir sobre o que o outro tem a dizer e a contar. Aprendi com frases repetidas pela minha mãe, Dona Leila, a Fera da Tijuca: "Sempre coloque-se no lugar do outro; procure sempre sentir a dor do outro; procure sempre andar com o sapato do outro”. Recados simples e diretos. Empatia não funciona somente para um lado. Empatia para um lado só é toxicidade. Empatia significa compreensão, identificação, respeito - produtos que não são encontrados a preço de banana na birosca do Zé Fuinha, ali na esquina. Em tempos de recados, esta semana recebemos um bem simbólico, referente ao nosso ofício, o trabalho jornalístico. Tristemente, ele diz muito sobre o país que esboçamos. O remetente, dizendo-se economista de uma importante universidade catarinense, termina a mensagem assim: “Espero que minha crítica tenha sido construtiva.” Não, senhor economista, sua crítica nada edifica. Simplesmente porque, além de pessimamente escrita, é desrespeitosa, tomada de xingamentos. Sua crítica, senhor economista, é racista, homofóbica. Sua crítica é deplorável e desnecessária. Sua mensagem, senhor economista, faz eu refletir se este é o Brasil que nós plantamos, queremos e merecemos. O Brasil que o senhor prega, preconceituoso e colérico, está distante do meu. O Brasil que eu quero e sonho, desde guri, é de paz, entendimento, amor. De respeito entre os homens. °°° Por falar em recados, as urnas nos mandaram alguns bem interessantes no domingo passado. Elas nos disseram que não aguentamos mais a velha política, a roubalheira, o coronelismo. Elas nos provaram o poder das redes sociais (ou antissociais). Elas avisaram que desejamos uma renovação nos governos e no Congresso. E sinalizaram, fortemente, o crescimento de uma onda conservadora. Dia 28 de outubro teremos o segundo turno. Que novos recados as urnas nos enviarão? °°° Segue poderoso recado de Ai Weiwei, importante artista chinês: “A humanidade e a liberdade não são dádivas que vêm do nada, e sim produto da luta de quem as defende.” °°° Santa Catarina está recebendo os irmãos venezuelanos. SC por um mundo melhor! Um viva ao Humanismo!   Leia outras crônicas

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Viva a democracia

Por César Seabra

06/10/2018 - 05h00

Usar o termo “festa da democracia” em redação de jornal ou de televisão é quase um atentado. Nem ouse... Jornalistas babarão de ódio e te fuzilarão com olhares professorais, arrogantes, raivosos. “Festa da democracia” é da mesma turma de “correr atrás do prejuízo” ou “a rua virou uma verdadeira praça de guerra”. Frases feitas, jargões esfarrapados dos quais repórteres e pseudocomunicadores pretendem distância. Pois bem, nadarei contra a corrente. Lutamos muito por ela, pelo reencontro com ela, pelo recomeço do namoro com ela. E vamos viver, este fim de semana, mais uma festa da democracia. O Brasil viveu sob governos militares de 1964 a 1985. Teve atrocidade cometida pelos guerrilheiros de esquerda. Teve atrocidade cometida pelos aparelhos repressores. Teve ditadura, tortura, AI-5, censura, violência, assassinatos. Não reconhecer tudo isso é como negar o nazismo e o holocausto. Ignorância e obtusidade não são bênção nem virtude, minhas amigas e meus amigos. Nesse longo percurso, teve a derrota da campanha das eleições diretas. Teve eleição indireta e a morte de Tancredo Neves. Teve a volta do direito de votar para presidente. Teve impeachment de dois presidentes. Tem ex-presidente preso. E este domingo tem eleição de novo. Vivemos numa democracia, queiram ou não. O caminho até ela foi espinhoso. Agora temos que desfrutá-la da forma mais responsável e consciente possível. É nosso dever cuidar bem desse namoro. Não devemos transformar estas eleições numa espécie de referendo sobre a própria democracia, se ela faz bem ou mal ao país. Ela faz bem, e ponto. Se não fosse por ela, a democracia, não estaríamos ouvindo as aberrações que são ditas por aí, à esquerda, ao centro e à direita. Não estaríamos lendo o show de ódio e atos irracionais nas redes sociais, disseminados por gente boa e gente nem tão boa assim. Nem vendo tanto humor de qualidade, como os ótimos tutoriais de Marcelo Adnet com os principais concorrentes ao Palácio do Planalto e as hilárias manchetes do Sensacionalista. Isso é a democracia, gostem ou não. Com o projeto SC Ainda Melhor, as plataformas da NSC Comunicação vêm fazendo importante cobertura do processo eleitoral. Entrevistamos todos os candidatos à Presidência da República e ao governo de Santa Catarina. Fizemos debates em nossas rádios e na NSC TV. Apresentamos os resultados de três pesquisas Ibope. Nosso objetivo principal é assegurar, aos catarinenses, o direito à informação independente, crítica, apartidária, ética e responsável, à pluralidade, à diversidade de ideias, ao contraditório de opiniões. Agora é com a gente. Bom voto e viva a democracia! °°° Do economista americano Milton Friedman: “Liberdade política significa ausência de coerção de um homem pelo seu compatriota. A ameaça fundamental à liberdade é o poder de coagir, esteja ele nas mãos de um monarca, de um ditador, de uma oligarquia ou de uma maioria momentânea.”   Leia outras crônicas: Governar o governo Ruy e o enigma  

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Os sem-educação

Por César Seabra

29/09/2018 - 04h00

Thiago dos Santos Conceição é negro, pobre, 31 anos, único dos quatro irmãos que se formou na universidade. Desde os 10 anos dizia à mãe que queria ser professor. Conseguiu. Thiago é um vitorioso que viveu, recentemente, um dia de agressão e humilhação, retrato da educação no Brasil. Thiago dava aula de Português numa escola de Rio das Ostras, cidade do Rio de Janeiro. Era dia de prova. Descontrolados, alunos tentaram agredi-lo, depredaram a escola, um chegou a comer a prova, outro dizia que ia matar o professor. Tudo filmado. As cenas são aterradoras, deprimentes. Apesar de tudo, Thiago mantém vivo o sonho de menino: “Tenho orgulho de ser professor. Apesar de todas essas mazelas, amo meu ofício”. Sensato, Thiago pinta o quadro perfeito do que vivemos: “Negligência da família com a escola, porque escola não funciona sozinha. Negligência do Estado, negligência das autoridades, porque não têm propostas para a educação”. Equilibrado, Thiago vai além: “A escola está se tornando um depósito de crianças e adolescentes, e isso precisa ser mudado. E a mudança tem que começar agora. Hoje. Precisamos resistir”. Tomado por uma inexplicável resiliência, Thiago completa: “Vale a pena investir na educação, porque ela transforma. É isso em que acredito, é isso que eu entendo como educação”. Odeio saudosismo. Comprova a finitude, confirma que estamos ficando velhos. Mas às vezes é preciso olhar lá longe para tentar enxergar algo que pode estar bem perto. Estudei anos em escolas públicas. Numa delas cheguei a aprender a língua alemã. Eram outros tempos. Escolas públicas eram valorizadas. Professores, amados e admirados. De lá para cá o aprendizado se deteriorou. Os indicadores de qualidade das escolas pioram ano a ano. O nível dos estudantes segue ladeira abaixo. As diferenças regionais são avassaladoras. Não dá para esperar milagres. As raras iniciativas exitosas são obras de diretores e professores perseverantes, idealistas incansáveis. É preciso aprender com elas, valorizar, replicá-las. Está provado que o professor é o segredo das reformas mais bem-sucedidas de potências educacionais. Foi assim na Polônia, na Finlândia, na Coreia. Países com culturas diferentes, regimes políticos diferentes, eles decidiram investir na preparação dos professores para a sala de aula. Deu muito certo. Chegaremos a esse nível um dia? Não, nunca. Mas sonhar é de graça. E, para nos fazer sonhar, precisamos de mais gente como o valente e obstinado professor Thiago dos Santos Conceição. °°° Na última pesquisa contratada pela NSC, o Ibope perguntou aos catarinenses quais são as duas principais características para alguém que queira ser governador do Estado. Em primeiro lugar ficou “ser honesto”, com 60%. Depois vêm “ouvir o povo” (21%), “combater a corrupção” (20%) e “ser competente” (19%). Ao exigir honestidade dos políticos, desenhamos um fiel autorretrato e fazemos uma bela autocrítica da nossa sociedade. Afinal, somos o país do jeitinho, o país da malandragem, o país de gente que quer levar vantagem em tudo, o país do "farinha pouca, meu pirão primeiro". É a nossa natureza. Somos o que somos. Nada é pequeno por acaso.   Leia também: Debate à brasileira

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Crônica: Amor inteligente

Por César Seabra

22/09/2018 - 04h00

Salman Rushdie nasceu em Mumbai, na Índia, onde passou parte de sua infância. Aos 13 anos sua família se mudou para a Inglaterra. Seu sonho era ser ator. Não funcionou. Então ele se tornou um importante escritor de nossos tempos. Em 1989, por conta do livro "Os Versos Satânicos", foi condenado pelo governo do Irã. O aiatolá Khomeini, líder religioso iraniano, promulgou uma sentença de morte a Rushdie, alegando que o romance carregava blasfêmias contra Maomé, o profeta do islã. A vida de Rushdie virou um inferno. Ameaçado e perseguido, andava com seguranças 24 horas por dia, sete dias por semana. Escondia-se em pequenos quartos de diferentes cidades de toda a Europa. Hoje, quase 30 anos depois, vive em Nova York, onde continua a carreira de sucesso, refletindo sobre o futuro do mundo. "Vivemos uma grande Idade da Migração. Nos últimos cem anos, mais pessoas se mudaram de país em todo o mundo, deixando seus lugares de origem, do que em toda a história da humanidade antes disso. Isso redesenhou nossas culturas, nossos idiomas, nossas cidades e nosso senso do que é um ser humano", disse o anglo-indiano Rushdie, ele mesmo um migrante, em recente entrevista ao jornal "Folha de S.Paulo". Por meio de sua corajosa literatura, Rushdie escreve e luta contra o preconceito, a homofobia, a xenofobia, a misoginia. Rushdie escreve e luta pelo entendimento, pela tolerância, pelo conhecimento, pelo amor entre os homens. De forma bem simples, homofobia significa repugnância a homossexuais, lésbicas, bissexuais e transexuais. Já xenofobia é a profunda aversão aos estrangeiros e a culturas, hábitos, raças e religiões diferentes. E a misoginia é o ódio e o desprezo pelas mulheres. Ler a brilhante obra de Salman Rushdie ensina a respeitar o contraditório. Fortalece a adoração pelos direitos humanos. Reforça o horror por armas, tortura, violência. Faz manter cabeça, coração e mente abertos ao diferente, ao debate de ideias. Ajuda a tirar os olhos do umbigo. Ajuda a estranhar os desafios generosamente oferecidos pelo novo mundo. Rushdie revigora os eternos sonhos de solidariedade e humanismo. °°° Do escritor britânico Ian McEwan sobre o amor: "O amor não é sempre uma virtude, ele pode ser uma ferramenta muito controladora. Nunca estive de acordo com a canção dos Beatles "All You Need Is Love". Também é preciso inteligência. É preciso amor inteligente."   Leia também: “Apenas 5% das capas tiveram mulheres negras”, afirma autora de livro sobre revistas femininas

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Intolerância

Por César Seabra

08/09/2018 - 04h55

Sábado passado, enquanto assistia a um tributo a Cazuza, pensava na riqueza, no furor e na atualidade das letras do poeta. “Nas noites de frio é melhor nem nascer/Nas de calor, se escolhe, é matar ou morrer/E assim nos tornamos brasileiros./Te chamam de ladrão, de bicha maconheiro/Transformam um país inteiro num puteiro/Pois assim se ganha mais dinheiro”, escreveu Cazuza em “O tempo não para”. No dia seguinte, domingo à noite, aconteceu o incêndio que comoveu o Brasil. Primeiro, toda a negligência de vários governos e administradores, estaduais e federais, de vários espectros políticos. Depois, as chamas que destruíram o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Choque geral, aqui e no mundo. O incêndio foi capa de grandes jornais, como no britânico “The Guardian” e no americano “The New York Times”. E, então, a semana foi marcada novamente pela virulência nas redes sociais. O país viu queimar grande parte de sua história. E o que se encontra? Troca de acusações e maquiavelismos bizarros. Notícias falsas plantadas e espalhadas sem o menor pingo de cuidado e apuração. Um retrato desse Brasil polarizado, dividido e tomado pelo ódio, pela imbecilidade, pela intolerância. O retrato de um país em chamas. Estamos estacionados numa encruzilhada. O trem vem logo ali, a todo vapor. Teremos em outubro uma oportunidade importante para tentar dar um passo à frente e buscar o renascimento. Ou fincar o pé, ainda mais profundamente, na ignorância e no obscurantismo.     Cazuza morreu cedo. Uma pena. Seria bom tê-lo aqui hoje, ler o que escreveria sobre esse novo mundo, sobre esse velho Brasil. E é sempre bom agradecer a ele por tamanha genialidade: "Meu partido/É um coração partido/E as ilusões estão todas perdidas/Os meus sonhos foram todos vendidos/Tão barato que eu nem acredito/Eu nem acredito."  Viva Cazuza. *** Meus pais me levaram varias vezes ao Museu Nacional. Tenho ótimas memórias. Mas museus não são importantes apenas pela visitação. São muito mais do que isso. Eles guardam e registram o que fomos, somos e seremos.  Eles são o HD da Humanidade. *** Do psicólogo e linguista canadense Steven Pinker: “Humanismo é o princípio de que é o bem estar dos seres vivos o maior valor moral, não a glória de uma tribo, nação ou uma lei religiosa”. *** Nada é tão ruim que não possa piorar. Vêm o feriadão, o atentado à democracia, a facada na eleição, em mais uma demonstração da intolerância que está no dia a dia do país.  Deus, onde isso vai parar?

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(João Cotta, Globo)

Indignação

Por César Seabra

01/09/2018 - 07h00

Esta semana ouvi muita gente dizer que Renata Vasconcellos e William Bonner foram impiedosamente duros com os candidatos à Presidência da República. Nas mídias sociais, os apresentadores do Jornal Nacional foram acusados de paladinos da justiça e de transformar as entrevistas em tribunal de inquisição. "Eles fazem jornalismo tarja-preta”, gritaram alguns. "Eles foram deselegantes com os convidados", reclamaram outros. Discordo de todos. Os apresentadores do JN estavam bem preparados e fizeram jornalismo de verdade, crítico como precisa ser. Estamos na encruzilhada. Não há mais espaço para sentimentalismos tolos, não dá mais para passar a mão na cabeça. Pesquisas mostram que o descrédito da sociedade com a classe política é gigantesco. A cada eleição aumenta o índice de gente que não sai de casa para votar. Por que será? Porque políticos prometem, enrolam, nada fazem. Porque participam de acordos repugnantes por um punhado de votos. Porque não reconhecem erros banais. Porque estão envolvidos em cabeludas falcatruas. Porque são despreparados. Porque não têm ideologia e trocam de partido como se troca de roupa. Porque fazem demagogia. Porque mentem na maior cara-de-pau e nos fazem de palhaço. As raras exceções para tudo o que citei acima apenas confirmam a regra. Onde os políticos escondem os projetos para melhorar a saúde, a educação, o transporte? E o que fazer para combater as gangues e a violência em Santa Catarina e em todos os cantos do país? E quais as propostas para consertar a gestão pública, para administrar com ética e responsabilidade sem gastar mais do que o previsto no orçamento? Onde estão as ideias para que possamos discutir o sonho de uma sociedade mais bem organizada e com menos desigualdades? Quantas promessas são feitas sem a menor intenção de cumpri-las? O que vemos, na maior parte do tempo, são compromissos vazios e infundados, sem sentido, simplistas, reducionistas. Pessimismo, derrotismo, ceticismo, desencanto, desconfiança, indignação, desesperança e descrença são palavras e sentimentos ligados à imagem do mundo político. Por conta de tudo isso é importante uma cobrança mais dura. Por conta de tudo isso é preciso estar bem informado e votar com consciência. Porque, com boa vontade, ainda dá para acreditar em alguma coisa. *** Nise da Silveira, uma das mais importantes psiquiatras brasileiras: "É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade".

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