Livro sobre menopausa convida mulheres ao autoconhecimento e à rede de apoio feminina

Obra se volta para o fim do ciclo menstrual, abordando as inquietações da idade madura

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"Depois da última lua" é o novo livro da psicóloga e escritora Carol Petrolini (Foto: Divulgação)

Na infância, Alice descobriu, com a ajuda da avó, que o corpo feminino guarda ciclos tão misteriosos e potentes quanto as fases da lua. Na maturidade, é a mãe de Alice, Inês, quem precisa aprender a lidar com um corpo que já não responde como antes, que transpira, chora, se irrita e se pergunta sobre o tempo que passa. Foi dessa continuidade simbólica que nasceu Depois da última lua, novo livro da psicóloga e escritora Carol Petrolini, que transforma a experiência da menopausa em narrativa poética e em espaço de acolhimento para tantas mulheres.

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A obra, segundo livro da autora, é uma espécie de espelho invertido do primeiro, A Lua de Alice (2020). Se no título de estreia Petrolini retratou a primeira menstruação a partir do olhar assustado de uma menina e do acolhimento da avó, agora ela se volta para o fim do ciclo menstrual, abordando as inquietações da idade madura. 

— Não tem como falar do segundo livro sem falar do primeiro. ‘A Lua de Alice’ surgiu de uma demanda que percebi quando minha filha chegou perto dos 12 anos. As meninas falavam da menstruação como algo horrível, cheio de vergonha e dor. Eu quis mostrar outros olhares. Com o tempo, nas rodas com mães, tias e avós, veio à tona o outro extremo: a menopausa. E quando eu mesma comecei a sentir as transformações do climatério, foi natural pensar: o que estaria acontecendo com a mãe da Alice? Assim nasceu Inês—  conta a autora.

A protagonista

Protagonista de ‘Depois da última lua’, Inês é uma mulher de 48 anos que se vê diante do turbilhão do climatério: calores, alterações de humor, inseguranças, medos. A princípio, encara os sintomas como sinais de perda de controle. Aos poucos, no entanto, ela encontra no diálogo com outras mulhere, como a mãe, a filha, a prima cardiologista, as amigas, um caminho de reconhecimento e apoio.

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Essa multiplicidade de vozes constrói uma espécie de colcha de retalhos narrada em primeira pessoa, com cada mulher trazendo seu relato, suas dores e descobertas. — Uma das coisas mais marcantes nessa fase é perceber o valor das amizades femininas. Durante muito tempo, a sociedade nos colocou em posição de rivalidade. Mas a maturidade nos mostra a importância de resgatar os vínculos entre mulheres como fonte de apoio e afeto—  reflete Carol.

Poesia, clínica e acolhimento

Psicóloga do Tribunal de Justiça de São Paulo, Carol Petrolini imprime no romance sua escuta clínica. As histórias das personagens, ainda que fictícias, nascem da soma de experiências partilhadas em atendimentos e rodas de conversa. — Atendo majoritariamente mulheres. Muitas das falas que ouvi ao longo dos anos estão condensadas nessas personagens. O retorno das leitoras tem sido emocionante, muitas me dizem que sentiram alívio, que não estão sozinhas. Oferecer, pela literatura, um abraço nesse momento de transição era meu objetivo—  relata.

O livro, porém, não é um manual. Ainda assim, ganhou inesperado caráter informativo. — No final, eu trouxe referências e indicações de materiais. Muitas mulheres me disseram que foram atrás de podcasts, textos e informações a partir do que viram no livro. Foi uma surpresa boa, porque ele é, antes de tudo, uma narrativa literária, não um guia— explica.

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O tabu do envelhecimento

No livro, ao lado das transformações físicas, Inês e as demais personagens levantam questões mais amplas sobre o envelhecer feminino em uma sociedade que cultua juventude, beleza e produtividade. — A menopausa é só um marco dentro de muitas mudanças que a mulher vive nessa idade. O corpo já não é o mesmo, os filhos crescem e saem de casa, há um choque com as cobranças sociais. É um convite a se perguntar o que eu quero daqui para frente?—  provoca Carol.

Na voz da avó, personagem que atravessa os dois livros, a comparação entre primeira menstruação e menopausa também ganha força,se ambas são turbilhões, uma traz o bônus da juventude, a outra carrega o ônus do envelhecimento. É nesse confronto que a narrativa encontra poesia e potência.

Desde o lançamento em junho, a autora promoveu rodas de conversa em escolas, grupos de escritoras e na Flip, sempre reunindo mulheres de diferentes idades para refletirem juntas sobre corpo, tempo e maturidade. “A roda é íntima, mas poderosa. Algumas falam, outras apenas ouvem, e mesmo assim se sentem tocadas. É uma forma de romper o silêncio, de perceber que não estamos sozinhas”, afirma.

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— Cada mulher vai viver esse processo de forma única. Não existe protocolo. Mas é possível encarar a travessia com menos medo e mais presença. Esse é o convite do livro— conclui a autora.

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