Na novela Vale Tudo, o personagem Afonso Almeida Roitman (Humberto Carrão) foi surpeendido pelo diagnóstico de leucemia mieloide aguda. Na trama, ele inicia o tratamento com medicações, mas após não obter um bom resultado, começa a busca por um doador compatível para o transplante de medula. Fora das telas, para os pacientes com a doença que realizam o tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS), o tempo entre diagnóstico e tratamento também costuma ser rápido.
Isso ocorre por se tratar de uma doença muito agressiva, explica o hematologista André Guedes, coordenador do Serviço de Transplante de Medula Óssea do Centro de Pesquisas Oncológicas (CEPON). Dessa forma, o período entre ser diagnosticado e iniciar o tratamento é curto, de alguns dias a no máximo uma semana, mesmo no SUS.
— Por se tratar de uma doença muito agressiva, é fundamental que o tratamento seja instituído bem precocemente — pontua o médico.
Geralmente, a suspeita inicial de leucemia ocorre por alterações no hemograma, que pode mostrar anemia, diminuição da plaqueta (plaquetopenia), aumento ou diminuição das células de defesa. Ainda, podem aparecer no hemograma os blastos, essas células jovens que são características da leucemia aguda.
O paciente costuma buscar atendimento por alterações em decorrência dessas questões, como fraqueza, cansaço e palidez causados pela anemia, ou sintomas da plaquetopenia, como o sangramento no nariz ou gengiva, ou o aparecimento de hematomas. Ainda, é possível que o paciente tenha quadros infecciosos, ou seja, infecções como pneumonia e amidalite decorrentes da redução da defesa.
Depois da suspeita indicada pelo hemograma, é feita uma avaliação da medula óssea, através da extração de uma amostra retirada do quadril por punção. A partir disso, são feitos diversos exames para observar a característica das células da medula, confirmar o diagnóstico de leucemia aguda e dizer de que tipo se trata. Outros exames genéticos e de biologia molecular conseguem definir melhor as características da leucemia aguda, explica o médico.
Ele detalha que, de forma geral, o SUS oferece como tratamento para a leucemia a quimioterapia, radioterapia para alguns casos e o transplante de medula óssea.
— O tratamento no SUS é feito em centros especializados de hematologia e envolve principalmente quimioterapia e o transplante de medula óssea. Além destes, pode ser usado em alguns casos a radioterapia e também existem algumas medicações chamadas de “terapia alvo”, que são medicamentos que atacam moléculas específicas da leucemia. Infelizmente, essas drogas mais específicas não estão disponíveis no SUS — afirma.
Diagnóstico precoce e perfil
O médico afirma que, diferente de outras doenças, no caso da leucemia não há uma “fase precoce” em que a doença possa ser diagnosticada. Isso ocorre porque a leucemia aguda, diferente de outros tipos de câncer, possui uma evolução muito rápida, de dias a semanas.
— Mas é importante que, quando existe uma suspeita, o paciente seja avaliado rapidamente para que ele possa começar o tratamento em boas condições. De fato, esse início precoce do tratamento ajuda a aumentar a possibilidade de cura — destaca o hematologista.
A chance de cura também varia de acordo com o tipo de leucemia aguda, que possui tipos e subtipos, da idade do paciente, alterações de moléculas, entre outros fatores. Dessa forma, a possibilidade de cura pode variar de 80% em alguns casos até menos de 10% em outras situações.
Também não há um predomínio da doença entre homens ou mulheres. No caso da leucemia mieloide aguda, diagnosticada em Afonso na Novela, ela raramente atinge crianças, e a incidência aumenta com o passar da idade. Já em relação a leucemia linfóide aguda, são dois picos de incidência: um na infância e outro em pacientes mais idosos.
Caso de Afonso em Vale Tudo
Na novela Vale Tudo, foi Heleninha (Paolla Oliveira) que percebeu manchas roxas no braço do irmão e o alertou. Depois disso, Afonso passou mal e teve sangramento no nariz. Ele decide procurar um médico e depois de vários exames descobre que tem leucemia mieloide aguda.
O médico que atende o personagem de Humberto Carrão explica sobre o processo do tratamento e as possibilidades de compatibilidade para o transplante de medula. Ao Afonso contar para a família Roitman que está doente, todos fizeram exames para ver quem é compatível e pode doar a medula para ele. Ninguém na família era, nem Heleninha (Paolla Oliveira), nem Celina (Malu Galli) e nem Odete (Debora Bloch).
Até o irmão mantido isolado por Odete Roitman, Leonardo, é testado para ver se há compatibilidade. Os dois são compatíveis, porém Odete não revela isso para que não tenha que revelar que manteve um filho com deficiência física isolado e em segredo, como se estivesse morto.
Segundo o site Observatório da TV, são os filhos que Solange está esperando que irão salvar a vida de Afonso. O médico dirá que o cordão umbilical dos gêmeos poderá ser utilizado no tratamento de Afonso. Essas cenas só devem ser exibidas na reta final da novela, que chega ao fim no dia 17 de outubro.
Transplante de medula óssea
Em Santa Catarina, 55 pacientes começaram a buscar por um doador compatível de medula óssea somente em 2025. Os dados são do Painel de Pacientes do Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). O banco conecta doadores com pacientes em busca de um transplante, o que aumenta as chances de encontrar alguém compatível.
Em todo o país, 1.146 pacientes foram cadastrados em 2025, sendo 225 da região Sul. A região Sudeste foi a que mais registrou pacientes, com 579 neste ano. No mesmo período, 70.811 pessoas se cadastraram como doadoras, sendo 9.964 da região Sul e 237.689 em Santa Catarina, que foi o Estado do Sul do país com menor índice de doadores cadastrados no ano, atrás do Paraná (590.871) e do Rio Grande do Sul (384.538).
André Guedes explica que não existe uma fila estadual única para transplante de medula óssea. Os centros transplantadores organizam as doações seguindo diferentes critérios, como a gravidade da doença, o tempo de cadastro, a disponibilidade de doador e a existência de tratamentos alternativos enquanto o paciente aguarda pelo transplante.
— Depois que se encontra o doador, são feitos diversos testes, tanto com o doador quanto com o receptor. Os testes têm por objetivo confirmar a compatibilidade, ver se não existe nenhum impedimento, nenhuma incompatibilidade que possa comprometer o resultado do transplante — detalha o hematologista.
Ele também explica que existem três tipos de doadores:
- Doador totalmente compatível: irmão filho do mesmo pai e da mesma mãe, sendo que cada irmão tem 25% de chance de ser totalmente compatível;
- Transplante ápulo idêntico: transplante feito com uma medula que é metade compatível. Cada irmão tem 50% de chance de ser ápulo idêntico. Também pode ser feito com pai, mãe ou filho;
- Doador do banco de medula óssea: potenciais doadores cadastrados em bancos nacionais e internacionais de medula óssea.
Dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES) de Santa Catarina indicam que o Estado já tem 140 diagnósticos de leucemia neste ano. No ano passado, 2024, foram 352 diagnósticos. De acordo com o Inca, para cada ano do triênio 2023/2025, serão diagnosticados mais de 11.540 novos casos de leucemia no Brasil. Isso corresponde a um risco estimado de 5,33 por 100 mil habitantes, sendo 6.250 em homens e 5.290 em mulheres.
André afirma que o transplante de medula óssea é indicado em primeira linha, ou seja, de forma inicial em casos de pacientes em que a doença tem uma possibilidade de evolução desfavorável grande. Em quase todos os casos em que a leucemia volta depois do tratamento inicial com quimioterapia o transplante também é indicado.
— Existem dois tipos principais de transplante de medula óssea. O transplante de medula óssea autólogo, que utiliza as células do tronco do próprio paciente, e o transplante alogênico, que usa células tronco de um doador saudável. Nos casos de leucemia aguda, na grande maioria dos casos é utilizado o transplante alogênico. Basicamente o que é feito é uma quimioterapia em alta dose associada ou não a radioterapia, seguida da infusão das células tronco coletadas de um doador saudável — detalha o coordenador do Serviço de Transplante de Medula Óssea do CEPON.
Dentro do transplante halogênico, há o chamado transplante aparentado, que usa células-tronco de um familiar do paciente, e o transplante não aparentado, que usa células-tronco de um doador dos bancos de medula óssea nacional ou internacional.
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