Entre a inocência do interior e os dilemas da adolescência, “Sob o Céu de Isaías”, romance de estreia de Vítor Kappel, acompanha a jornada de autodescoberta de Isaías Petit, um estudante de 17 anos que busca compreender sua sexualidade, desafiar as amarras de uma sociedade patriarcal e encontrar espaço para o amor em meio ao caos e às contradições de sua cidade natal.
Lançado pela Editora Patuá, a obra, um romance de formação queer, acompanha a jornada de amadurecimento de seu protagonista em uma cidade do interior do Brasil. O livro apresenta Isaías Petit. O estudante de 17 anos, inteligente e sensível, está no último ano escolar e coleciona “peripécias que flertam com a desordem”. Ambientada em uma pequena cidade com um colégio católico, a trama mergulha nos desafios de Isaías para escapar das amarras de uma sociedade patriarcal e homofóbica.
Em entrevista ao NSC Total, Kappel explica que a ambientação não se inspira em uma cidade específica, mas busca ser um “retrato de um país”.
— Muito da ambientação reforça o grau contraditório entre a sensação de liberdade e o caráter de constrição de cidades menores no país. Todo dia no noticiário ouvimos inúmeras histórias de sofrimentos e conflitos num cenário velado, muitas vezes perturbador, de aparências enganadoras. Não houve uma cidade específica como inspiração porque esse é um retrato de um país — afirma o autor.
A narrativa explora a adolescência como um período “profundamente tragicômico”, marcado pela busca por independência e identidade. O desafio, segundo Kappel, foi abordar o tema da emancipação com um frescor que equilibrasse um olhar existencial e uma narrativa fluida.
— Sempre tive em mente o desejo de não carregar em tintas melodramáticas, optando por uma comicidade melancólica. O maior desafio foi levar um frescor na abordagem do tema central de emancipação e identidade, garantindo um olhar existencial, mas ainda assim oferecendo uma fluidez narrativa —.
Romance queer
No centro da história está o vínculo afetivo entre Isaías e seu colega de classe, Bernardo, que — o atiça e mostra a possibilidade de construir a sua própria história, sem se curvar aos moldes sociais impostos — explica o autor, destacando que a dificuldade de Isaías em lidar com a sexualidade, o que “de certo modo ecoa inúmeras vozes que simplesmente são apagadas por um motivo inaceitável: amar”, complementa o autor.
Sobre a criação de Isaías, o autor admite que há traços seus no personagem. — Se eu dissesse que o Isaías não tem nada de mim, estaria mentindo um pouquinho. Mas também não consigo dizer que sou eu no papel. Ele está mais para um reflexo de espelho de parque de diversões: uma imagem comicamente distorcida. E mais trágica também. A verdade é que Isaías é muito mais esperto e interessante, a vida real tem menos graça. Eu não fui colocado tanto à prova quanto ele —.
O romance também incorpora elementos de suspense com a introdução de uma rede criminosa na cidade. O escritor revela que essa escolha narrativa serve para movimentar a trama assim como também como uma “metáfora maior sobre sua própria prisão: suas amarras mentais, emocionais e até mesmo físicas”. Como o protagonista enfrenta essa ameaça é um ponto central de seu amadurecimento, segundo Kappel.
Para o autor, que se formou em engenharia e trabalhou com projetos audiovisuais, a transição para a literatura foi uma forma de organizar o caos da mente de um escritor, um processo que ele descreve, ironicamente, como “um trabalho de engenharia”. A escrita, segundo ele, ofereceu um espaço onde a lógica cedesse lugar à invenção, uma liberdade para criar sem a necessidade de provar eficiência, em contraste com o mundo corporativo.
A obra já coleciona elogios. A premiada escritora Carol Bensimon, que assina a orelha do livro, destaca que “não são necessárias muitas páginas para que o adolescente perspicaz das ideias esquisitas ‘salte’ do livro e desperte em nós uma profunda empatia”. Helena Terra, finalista do prêmio São Paulo de Literatura, elogia a “rara combinação de leveza com profundidade que só os grandes talentos podem nos oferecer”.
Kappel, que dedica a obra ao seu primeiro editor, Leonardo Valente, falecido durante o processo, conta que muitos se inspiram na resiliência criativa do personagem. — Muitos têm visto esse personagem um tanto atrapalhado, mas genuinamente bondoso como inspiração para superar os obstáculos de forma criativa, e com surpreendente resiliência. Outros comentam sobre o tom agridoce da história, e um humor curioso que insiste em aparecer em meio à tensão, destacando uma reflexão sobre o medo de ser quem se é, a vergonha e a coragem. Acaba sendo uma terapia que se abre quando o leitor traz algum retorno — finaliza o escritor.
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