Com a proposta de manter o cenário musical alternativo de Santa Catarina em movimento, donos de gravadoras independentes catarinenses mantêm viva uma prática que acontece desde os anos 80: a troca de discos entre os selos. O ato ocorre entre diferentes cidades, estados e até mesmo países, com o objetivo de manter o cenário underground conectado, além de possibilitar uma divulgação ainda maior para as bandas.
Os selos são pequenas gravadoras ou marcas independentes que atuam na produção, distribuição e divulgação de artistas e bandas, focando em um nicho específico. Essas gravadoras funcionam como uma vitrine alternativa, dentro da indústria, que podem revelar nomes do cenário underground. Nada mais simbólico do que lembrar desta rede de colaboração nesta quarta-feira (1º), data em que é celebrado o Dia Internacional da Música.
Esse é o caso de Fernando Camacho, de Joinville, dono da gravadora Black Hole Productions, selo focado em metal extremo. Formado em publicidade e propaganda, ele explica que a troca de discos entre selos fortalece a presença da gravadora em várias partes do Brasil e também no exterior.
— Já troquei material com selos de praticamente todo o país e também da Europa, Japão, América do Norte e da América Latina. É uma rede que mantém o underground conectado e ajuda as bandas do selo a terem uma divulgação mais abrangente com seu trabalho.
A gravadora independente nasceu em 2001 a partir da vontade de Fernando de mostrar bandas novas e divulgar a música underground, produções artísticas que privilegiam a autenticidade, inovação e independência acima do sucesso comercial. O foco do selo é o metal extremo passando pelo death, grindcore, goregrind e todas as vertentes consideradas mais agressivas. Desde o lançamento, a gravadora já lançou mais de 100 discos de CD e dezenas de vinis de bandas brasileiras de fora do Brasil.
— Eu e dois amigos começamos a Black Hole como um fã clube e depois um zine. Tivemos sorte de ter acesso a vários discos da época como Metallica, Slayer, Mercyful Fate entre outras. Essas bandas foram a base de tudo. A partir daí nunca mais teve volta.
Fernando normalmente investe em bandas que precisam de suporte para crescimento e que buscam manter a essência do underground. O Black Hole financia a parte gráfica, os produtos e a prensagem do material e, quando consegue, o estúdio. No geral, uma parte da tiragem vai direto para a banda e o restante fica para o selo.
— O selo nunca foi pensado como um negócio puramente comercial, então não adianta eu lançar algo apenas porque pode vender mais. Prefiro apostar em bandas que mantenham a essência do underground viva e que, de alguma forma, façam a cena crescer. No fim, é uma via de mão dupla: eu ofereço a estrutura, experiência e contatos que acumulei, e em troca tenho a satisfação de ver essas bandas alcançando novos públicos e fortalecendo o cenário.
A música underground em Florianópolis
Guilherme Garbelotto Biz, de Florianópolis, comanda há 12 anos a Antichrist Hooligans Distro, um selo independente que já participou de 38 lançamentos físicos (33 CDs e 5 LPs), focado na música punk e metal. Segundo o engenheiro sanitarista e ambiental, o selo foi criado com o objetivo de manter a música underground em movimento, sem pensar no retorno financeiro. Quando um CD é lançado em tiragem de 300 unidades, por exemplo, a banda recebe 100 cópias, enquanto o restante fica com o selo para trocas e vendas.
— A parte dos discos que fica comigo normalmente faço trocas ou vendas com outros selos. Também levo meus lançamentos para as feiras de vinil, sempre acaba saindo algum negócio. Esta prática acontece desde os anos 80, só que mudou de fita K7 para CD. Dos anos 2000 pra cá ficou mais fácil prensar um CD, participar de um lançamento.
O Antichrist Hooligans Distro costuma financiar a prensagem dos discos das bandas escolhidas por Guilherme, cujo critério depende do gosto pessoal dele e de a música passar alguma mensagem “bacana”, como explica. O selo do morador de Florianópolis recebe convites por todo Brasil para participar de lançamentos.
— É algo mais informal mesmo. Quando o lançamento parte de mim, eu procuro a banda, ofereço as condições e banco a prensagem do CD. Quando recebo um convite, normalmente é feita uma parceria com outros selos para dividir custos e ter maior alcance na divulgação. Não tem burocracia, o processo é rápido.
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Selos mantêm vivos os discos físicos
Enquanto o mundo musical acelera na direção do streaming e da digitalização, os selos com foco na música underground caminham no sentido contrário e buscam manter viva a chama dos discos físicos. Entre os exemplos está o vinil, que segundo Guilherme, nunca deixou de existir no mundo underground.
— Seja pelo formato, pela arte, pelo ritual de colocar o disco pra tocar e ouvir do começo ao fim, sempre teve aquele público fiel que manteve vivo o formato, mas hoje voltou a chamar atenção de um público maior.
A capa em tamanho grande, os encartes e até as cores dos discos são algumas das características que chamam atenção dos consumidores de música que escolhem comprar o vinil. Normalmente escolhido por colecionadores e fãs dedicados, o formato não é uma “febre temporária”, mas algo que veio para ficar, como explica Fernando.
— Vejo nas feiras o pessoal tentando recuperar aquele disco que foi perdido nos anos 80 ou 90, voltando a colecionar. Pra mim, não será algo temporário. Veio para ficar mesmo. É só ver a quantidade de lançamentos em LP que saiu nos EUA e Europa, muita coisa mesmo. Aqui no Brasil também, bastante lançamento em LP de bandas underground.
Com o foco no chamado “metal extremo”, Guilherme acredita que o fascínio por temas considerados “controversos” chama atenção dos consumidores devido às capas “monstruosas muito bem elaboradas”. Para Fernando, de Joinville, esse interesse acontece devido à busca por algo “mais intenso” e que “fuja do convencional”, além de dar a voz para sentimentos que normalmente não têm espaço no dia a dia, como a raiva, angústia, medo, frustração, revolta.
— O metal extremo cria uma comunidade. O público que se identifica com essas temáticas sabe que ali vai encontrar gente que pensa parecido, que compartilha das mesmas inquietações. Então, o fascínio não é apenas pelo lado “controverso”, mas pela sensação de pertencimento e pela liberdade de abraçar algo que muitas vezes é ignorado ou mal compreendido.
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