O que começou como um experimento de poucos meses em um pequeno espaço de 12 lugares, em Jurerê Internacional, acabou se transformando em um dos melhores restaurantes de Santa Catarina. Inspirado pela natureza de Florianópolis, pelas lembranças da infância e os ingredientes produzidos no Estado, o chef Pedro Soares criou o Puro Oyster Bar, restaurante que se tornou o único catarinense a figurar entre os 100 melhores do Brasil, ocupando a 50ª posição do ranking Exame Casual.
Seis anos depois da inauguração, o Puro Oyster Bar deixou uma marca na gastronomia catarinense ao mostrar que ingredientes locais, como ostras, peixes, berbigão e produtos da Serra, podem protagonizar uma cozinha autoral reconhecida nacionalmente.
Em entrevista exclusiva ao NSC Total, Pedro Soares contou que a ideia do restaurante nasceu após um período de formação na Europa, quando passou a buscar uma identidade própria na cozinha.
— Quando eu volto, começo a trabalhar essa parte da cozinha autoral, de ter uma identidade. Assim como você reconhece um quadro pelo pintor ou uma música pelo compositor, na gastronomia também existe isso. A identidade vem da tua essência, da tua família, do que teus avós faziam, do que você comia e dos lugares por onde passou — afirma.
Da Europa para Florianópolis
Foi justamente durante experiências em cozinhas internacionais que Pedro percebeu que a alta gastronomia não precisava estar baseada apenas em ingredientes considerados nobres. Uma das passagens mais marcantes foi pelo restaurante Noma, na Dinamarca, referência mundial na valorização de ingredientes regionais. Lá, o chef observou que alguns dos pratos mais memoráveis para os clientes eram preparados com alimentos simples, como cenouras e raízes.
— Aquilo me marcou muito. Você não precisa usar um ingrediente caríssimo para surpreender alguém. Existem caminhos possíveis com coisas simples, desde que exista técnica, pesquisa e propósito — relembra.
A experiência despertou o desejo de construir uma cozinha baseada nos ingredientes de Santa Catarina.
Segundo Pedro, essa visão também foi fortalecida pelas oportunidades de representar Florianópolis no exterior após o município ingressar, em 2014, na Rede de Cidades Criativas da Gastronomia da Unesco. Em um congresso realizado na cidade espanhola de Dénia, ele apresentou pratos inspirados na culinária local, como pirão com peixe e garoupa, além de um pastel de berbigão.
— Uma das organizadoras disse que 90% das pessoas ali nunca tinham provado nada de Florianópolis e talvez nunca viessem conhecer a cidade. Aquilo me fez entender o peso de representar a nossa gastronomia. Foi aí que percebi que queria mostrar a comida daqui para o mundo — conta.
Veja fotos do restaurante
Um laboratório que virou referência
O Puro Oyster Bar surgiu em 2020 como um projeto temporário. O espaço, cedido por empresários do Jurerê Open, deveria funcionar apenas enquanto um novo edifício era construído. A proposta inicial era simples: criar um bar especializado em ostras nativas da variedade Gasar, algo ainda inexistente na região.
— Era para durar alguns meses. A gente via aquilo muito mais como um laboratório. Jurerê não tinha um bar de ostras e pensamos: “vamos testar essa ideia” — diz.
Pouco depois da inauguração, porém, veio a pandemia de Covid-19. As obras previstas para o local foram suspensas e o restaurante acabou permanecendo aberto por três anos. Durante esse período, Pedro aproveitou para experimentar técnicas, desenvolver menus degustação e ampliar a pesquisa sobre ingredientes catarinenses. O espaço também se tornou ponto de encontro para moradores do bairro durante o isolamento social.
— Finalmente eu tinha um espaço meu. Começamos a testar muita coisa, criar menus e fazer pesquisas com ingredientes que os pescadores e produtores iam apresentando para nós — relembra.
Ao fim do projeto temporário, a reação dos clientes surpreendeu a equipe:
— Os próprios moradores disseram que a gente não podia fechar. Foi isso que nos motivou a procurar um novo espaço.
O restaurante então migrou para outro ponto dentro do próprio Jurerê Open, próximo ao mar. Saiu de uma estrutura com apenas 12 lugares para outra com capacidade para 28 clientes, onde permaneceu pelos três anos seguintes.
Gastronomia com identidade catarinense
Ao longo da trajetória, o Puro Oyster Bar consolidou uma proposta baseada quase exclusivamente em ingredientes produzidos em Santa Catarina.
As ostras cultivadas na Grande Florianópolis tornaram-se protagonistas do cardápio, ao lado de peixes sazonais, ouriços-do-mar e produtos fornecidos por pescadores artesanais e produtores da Serra catarinense. A carta de bebidas também prioriza vinhos elaborados no Estado.
Mais do que valorizar ingredientes locais, Pedro buscava traduzir a cultura do litoral catarinense em cada prato. Para ele, a cozinha autoral só faz sentido quando carrega referências do lugar de onde nasceu.
Essa identidade fez do Puro Oyster Bar uma referência nacional e levou o restaurante à lista dos 100 melhores do Brasil.
Restaurante surpreendeu clientes ao anunciar o encerramento
No entanto, apesar da trajetória consolidada, o Puro Oyster Bar anunciou que irá fechar as portas no próximo dia 31 de julho. O motivo é porque o local onde o restaurante opera, o Jurerê Open, dará início a obras de um novo empreendimento no espaço.
“Em breve encerramos este ciclo com a sensação de dever cumprido. Mesmo em um espaço pequeno, conquistamos grandes realizações profissionais e criamos algo que ultrapassou nossas expectativas”, escreveu o chef nas redes sociais.
Mesmo com o encerramento das atividades, Pedro acredita que o principal legado foi mostrar que a gastronomia catarinense pode alcançar reconhecimento sem abrir mão de suas origens:
— A ideia sempre foi mostrar que aquilo que temos aqui, na nossa costa, na nossa cultura e na nossa memória, é suficiente para construir uma cozinha de alto nível.










