Uma pesquisa desenvolvida por diferentes laboratórios da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que células retiradas da mucosa nasal podem ajudar na recuperação de lesões agudas na medula espinhal em ratos Wistar. Divulgado pelo Jornal da USP em agosto de 2026, o estudo é resultado da tese de doutorado do pesquisador Brian Coimbra, na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), e é a etapa mais recente de uma linha de investigação que vem sendo explorada por diferentes grupos ao redor do mundo há mais de duas décadas.
O trabalho envolveu cooperação entre três estruturas da USP: o Laboratório de Genômica Funcional do Instituto de Biociências (IB-USP), o Laboratório de Estudos de Trauma, Raquimedular e Nervos (Letran), do Instituto de Ortopedia, e o Departamento de Patologia da FMUSP, principal responsável pela análise dos espécimes obtidos.
Atenção importante: a pesquisa está em fase preliminar, em animais (ratos Wistar), e não foi realizada em pacientes humanos. Não há, no momento, aplicação clínica disponível para pessoas com lesão medular baseada nesse estudo. Qualquer decisão sobre tratamento de lesão medular deve ser tomada exclusivamente com acompanhamento de neurologista, ortopedista e/ou fisiatra especializado.
A seguir, o que a pesquisa descobriu, por que a mucosa nasal despertou o interesse dos cientistas, o que aconteceu com os ratos do experimento, e o que essa etapa representa dentro do longo caminho até uma possível terapia clínica em humanos, que ainda está muito distante da realidade brasileira.
Por que a mucosa nasal virou objeto de estudo
A ideia de usar células da mucosa olfativa para tratar lesões neurológicas não é nova. Cientistas trabalham nessa hipótese desde os anos 1990, motivados por uma característica biológica única desse tecido: a mucosa olfativa é um dos únicos locais do sistema nervoso adulto em que os neurônios se regeneram continuamente, ao longo da vida.
Enquanto a maior parte do sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal) tem capacidade regenerativa muito limitada, o epitélio olfativo funciona em um estado de renovação contínua. As células responsáveis por essa regeneração incluem células ectomesenquimais (ectomesenchymal cells) e as chamadas células gliais envelopantes olfativas (OECs, na sigla em inglês).
A ideia por trás dos estudos é simples: se essas células conseguem regenerar neurônios no nariz, será que também podem ajudar a regenerar tecido nervoso danificado em outros locais, como a medula espinhal?
O interesse ganhou força durante a pandemia de covid-19. Como muitos pacientes com covid perderam temporariamente o olfato (condição chamada de anosmia) e depois recuperaram o sentido meses depois, cientistas passaram a entender melhor essa capacidade regenerativa da mucosa nasal.
Como a pesquisa foi feita
O estudo do grupo da USP seguiu um protocolo bem definido em laboratório:
- Modelo experimental: foram utilizados ratos Wistar, linhagem amplamente usada em pesquisa biomédica no Brasil e no mundo
- Indução da lesão medular: os pesquisadores usaram um equipamento chamado Mass Impactor, que deixa cair um peso de altura regulável sobre a medula do animal, simulando uma contusão traumática. A queda foi fixada em 12,5 milímetros, suficiente para causar dano neurológico visível, mas sem inviabilizar o animal para acompanhamento
- Coleta das células: as células da mucosa nasal foram obtidas a partir do septo nasal dos próprios ratos, por um método cirúrgico desenvolvido pelo próprio Brian Coimbra para permitir uma extração eficiente sem hemorragia
- Cultivo em laboratório: as células foram isoladas e cultivadas em condições controladas
- Transplante: as células foram implantadas no local da lesão medular
Após o procedimento, os pesquisadores acompanharam a evolução dos animais em diferentes grupos experimentais, com grupos controle para comparação.
O que aconteceu com os ratos
Os resultados surpreenderam a equipe, segundo relato do próprio Brian Coimbra ao Jornal da USP. No grupo que recebeu o tratamento mais completo, os roedores paralisados voltaram a andar já na terceira semana após a lesão. Nos grupos controle, a recuperação foi significativamente menor.
Ainda segundo os pesquisadores, a técnica pode atuar por diferentes mecanismos combinados:
- Ponte celular: as células transplantadas parecem funcionar como uma espécie de guia físico para o crescimento de novos axônios (as fibras que conectam os neurônios)
- Redução da cicatriz glial: a cicatriz que normalmente se forma no local da lesão medular impede a passagem de sinais nervosos. As células da mucosa parecem reduzir essa barreira
- Liberação de fatores neurotróficos: substâncias que reduzem a inflamação local e retardam a degeneração das fibras nervosas remanescentes
Os próximos passos, segundo o grupo da USP, envolvem entender exatamente o mecanismo pelo qual esse efeito ocorre, padronizar os ensaios e avaliar a segurança do procedimento em longo prazo, sempre em modelo animal.
O contexto internacional: uma linha de pesquisa antiga
A investigação da USP se soma a décadas de estudos internacionais sobre o mesmo tema. Alguns marcos:
- Anos 1990: Ramón-Cueto e outros pesquisadores começaram a testar células gliais envelopantes olfativas (OECs) em modelos animais de lesão medular
- 2006: o pesquisador português Carlos Lima publicou resultados preliminares com transplante autólogo de mucosa olfativa em sete pacientes humanos com lesão medular crônica completa. Os resultados foram considerados promissores, mas a técnica não se consolidou como tratamento padrão
- 2014: o caso do polonês Darek Fidyka, que recuperou parte da mobilidade após um transplante coordenado pelos pesquisadores Pawel Tabakow (Polônia) e Geoffrey Raisman (Reino Unido). Foi um dos casos mais divulgados na imprensa mundial, mas não foi replicado com resultados semelhantes em muitos outros pacientes
- 2016 em diante: vários grupos ao redor do mundo têm tentado padronizar protocolos e entender por que alguns pacientes respondem e outros não
Revisões sistemáticas publicadas em revistas como a Cochrane apontam que a evidência científica ainda é considerada insuficiente para uso clínico rotineiro dessa técnica em humanos, apesar dos resultados promissores em alguns estudos individuais.
O caminho até uma terapia consolidada envolve múltiplas etapas:
- Estudos pré-clínicos em animais (fase atual da pesquisa da USP)
- Ensaios clínicos de fase I (primeiros testes em humanos, com foco em segurança)
- Ensaios clínicos de fase II (avaliação de eficácia em pequenos grupos)
- Ensaios clínicos de fase III (avaliação em grandes populações)
- Aprovação regulatória (Anvisa, no caso brasileiro)
- Padronização e adoção clínica
Cada uma dessas etapas pode levar anos ou décadas para ser concluída. É importante que pacientes e familiares tenham essa dimensão temporal clara para não criar expectativas irreais sobre disponibilidade rápida do tratamento no Brasil.
Outros avanços recentes em pesquisa de lesão medular
A pesquisa da USP é uma entre várias linhas de investigação sobre lesão medular no mundo. Em 2025, pesquisadores do Reino Unido divulgaram um caso em que um homem com paralisia voltou a ficar de pé com o uso de células-tronco reprogramadas, em uma linha de trabalho diferente, mas com objetivos similares.
Outras pesquisas exploram:
- Estimulação elétrica epidural, com implantes que ativam neurônios específicos
- Interfaces cérebro-máquina que restauram funções motoras via computador
- Células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs) obtidas de células adultas reprogramadas
- Terapias com fatores neurotróficos aplicados diretamente na medula
- Neuroestimulação transcutânea, sem cirurgia
- Combinações de fisioterapia intensiva com terapias biológicas
Alguns desses caminhos já chegaram a ensaios clínicos em humanos em outros países, mas ainda com resultados heterogêneos e sem consolidação como tratamento padrão.
O que representa esse tipo de pesquisa no Brasil
Ver pesquisas de células-tronco avançando no Brasil é indicativo de que o país mantém laboratórios ativos e produtivos em uma das áreas mais competitivas da ciência internacional. A USP tem histórico consolidado em pesquisa em regeneração neuronal, com grupos que colaboram com universidades de vários continentes.
Vale destacar que teses de doutorado como a de Brian Coimbra são etapas fundamentais no ciclo científico. Elas geralmente precedem publicações em revistas com revisão por pares, e por sua vez essas publicações precedem eventuais aplicações clínicas anos ou décadas depois. É um trabalho de longo prazo, que exige paciência científica e financiamento estável.
O que ainda não sabemos
Apesar dos resultados animadores no modelo animal, várias perguntas seguem em aberto:
- Por que exatamente as células da mucosa nasal ajudam na recuperação? O mecanismo molecular ainda não é totalmente entendido
- Os resultados em ratos serão reproduzíveis em humanos? Modelos animais são úteis, mas nem sempre traduzem para a clínica
- Qual é o momento ideal para o transplante? Fase aguda, subaguda ou crônica da lesão?
- Quanto tempo dura o efeito? Há manutenção da recuperação em longo prazo ou o efeito é temporário?
- É seguro em humanos? Riscos como crescimento celular descontrolado, infecções e reações imunológicas ainda precisam ser cuidadosamente avaliados
- Quais tipos de lesão medular respondem melhor?
Todas essas perguntas exigirão novos estudos, ensaios clínicos rigorosos e anos de pesquisa antes que qualquer conclusão possa ser aplicada em pacientes.
Para pessoas que vivem com lesão medular
Se você ou alguém próximo vive com lesão medular, é natural que notícias como essa gerem esperança. Mas é fundamental manter as expectativas em contexto real:
- A pesquisa está em fase experimental em animais. Ainda não há aplicação clínica disponível
- Nenhum hospital ou clínica brasileira oferece hoje essa terapia para pacientes humanos com respaldo científico consolidado
- Cuidado com clínicas que ofereçam “tratamentos com células-tronco” para lesão medular sem publicações científicas revisadas por pares, sem aprovação da Anvisa e sem protocolos de ensaio clínico registrados. Houve casos documentados de complicações graves, incluindo agravamento da lesão original, em tratamentos experimentais feitos fora dos canais regulados
- As terapias com respaldo científico para lesão medular hoje envolvem reabilitação intensiva, fisioterapia especializada, terapia ocupacional, acompanhamento urológico e neurológico e, em alguns casos, cirurgias reconstrutivas e próteses/estimuladores
- Sempre consulte um médico especialista (neurologista, ortopedista da coluna, fisiatra) antes de considerar qualquer procedimento experimental
- Para informações confiáveis sobre reabilitação e apoio, o Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da FMUSP (IMREA) e a Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação são referências no Brasil
Um passo importante em um caminho longo
O estudo da USP representa mais um passo cientificamente sólido em uma jornada de décadas para tratar uma das condições médicas mais devastadoras que existem. Cada avanço em modelo animal ajuda a esclarecer mecanismos, testar métodos e criar bases para futuros ensaios clínicos.
Como resume o pesquisador Brian Coimbra em declaração ao Jornal da USP, o próximo passo é entender o mecanismo por trás do efeito observado. Enquanto isso, o trabalho da USP se soma ao esforço mundial para entender como a medicina regenerativa pode, um dia, oferecer alternativas concretas para pacientes com lesões neurológicas graves.
O caminho é longo. Mas cada pesquisa séria, publicada com transparência sobre limitações e feita em laboratórios de referência como os envolvidos nesse estudo, aproxima um pouco mais a ciência de respostas que, décadas atrás, pareciam impossíveis. E ver esse tipo de trabalho acontecendo em universidades brasileiras é sinal encorajador de que a pesquisa nacional segue contribuindo para essa fronteira do conhecimento.






