Mobilizar em vez de convencer: como o aumento da abstenção reconfigura a disputa eleitoral

Dados do TSE e análise de professor do Ibmec-DF mostram que a falta às urnas atinge perfil socioeconômico específico e altera a estratégia das correntes políticas

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Brasil pode estar caminhando para um modelo de comportamento eleitoral semelhante ao dos Estados Unidos, focado na capacidade de mobilização (Foto: Imagem ilustrativa gerada por IA)

O comportamento do eleitorado brasileiro passou por transformações profundas desde o retorno das eleições diretas. Registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que, enquanto a primeira eleição presidencial pós-redemocratização, em 1989, teve abstenção contida de 11,9%, o cenário atual aponta para a consolidação de uma tendência contínua de aumento do não voto.

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Na comparação entre 2006 e 2022, o total de eleitores faltosos subiu de 21 milhões para 33 milhões, alcançando o pico histórico de 20,95% no último pleito geral, 2 milhões de ausentes a mais do que em 2018.

O primeiro grande salto de ausências ocorreu em 1998, quando o índice atingiu 21,5%. Após um período de estabilidade com oscilações nos anos 2000, as taxas de não comparecimento voltaram a subir de forma ininterrupta a cada eleição presidencial a partir de 2010.

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Transição cultural e o desafio de levar o eleitor às urnas em 2026

Para o pleito de 2026, o Brasil conta com 158 milhões de cidadãos aptos a votar (alta de 1,46% em relação aos 156,4 milhões de 2022). No entanto, se o ritmo de crescimento dos últimos 20 anos se repetir em outubro, o contingente de não votantes pode chegar a 35 milhões de pessoas.

O professor de Políticas Públicas do Ibmec-DF, Arthur Wittenberg, avalia que o país se aproxima de um modelo de comportamento eleitoral semelhante ao dos Estados Unidos (EUA), focado na capacidade de mobilização:

Se essa tendência continuar indefinidamente, daqui a pouco teremos candidatos lutando mais para mobilizar o eleitor do que para conquistar o seu voto.

Como o perfil dos ausentes divide as estratégias

A análise do especialista indica que essa mudança comportamental reflete de forma diferente nas duas principais correntes políticas do país:

  • Eleitorado de Direita: apresenta menor taxa de faltas no dia da votação, embora demande maior esforço prévio de engajamento.
  • Eleitorado de Esquerda: registra maior nível de ausência por concentrar parcelas de menor renda e escolaridade, mas demonstra resposta mais rápida a ações diretas de mobilização.

Fatores socioeconômicos e dados regionais

A série histórica do TSE indica que o baixo nível de instrução e o receio de exposição influenciam diretamente o indicador. Em 2022, 55% dos abstencionistas tínham concluído apenas o Ensino Fundamental.

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Além disso, levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que a apreensão em se posicionar politicamente afeta 71,8% das mulheres, 73% da população negra e 71,5% dos eleitores de classes mais baixas.

Geograficamente, a região Sudeste, que abrange São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, lidera o volume absoluto de ausências nas urnas, enquanto o Sul e o Nordeste registram os menores índices de abstenção do país.

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*Com edição de Luiz Daudt Junior.