Existe uma cena que se repete em reunião de trabalho e quase nunca é nomeada. Alguém apresenta uma ideia e ela passa despercebida. Dez minutos depois, outra pessoa diz a mesma coisa e a sala reage. Ninguém foi malicioso, ninguém decidiu nada. O que aconteceu foi mais difícil de apontar: a mesma frase teve pesos diferentes dependendo de quem a disse.
Simone de Beauvoir escreveu sobre esse tipo de desencontro em 1949, e a formulação dela é mais precisa do que a linguagem corrente costuma permitir. Para Beauvoir, toda pessoa se coloca espontaneamente como o centro da própria existência, como aquilo em relação a que o resto se organiza. Ela chama isso de essencial. O problema aparece quando alguém é constituído de fora como o termo secundário da relação, aquilo que se define por referência a outra coisa.
O drama da mulher é esse conflito entre a reivindicação fundamental de todo sujeito, que se põe sempre como o essencial, e as exigências de uma situação que a constitui como inessencial.
A formulação continua legível em terreno atual. Na profissional apresentada em um evento pelo nome do marido. Na cientista cujo trabalho é descrito como colaboração de outro alguém. Na candidata avaliada por características que não entram na avaliação dos concorrentes. Em nenhum desses casos a pessoa deixou de reivindicar para si o que qualquer pessoa reivindica. O que mudou foi o que a situação devolveu.
A frase está na introdução de “O Segundo Sexo“, volume 1, publicado originalmente em 1949, no trecho em que Beauvoir apresenta o conceito que estrutura o livro inteiro. Ela sustenta ali que o homem é posto como o Sujeito e o Absoluto, enquanto a mulher é definida em relação a ele, como o Outro, e que essa relação não é recíproca: ninguém se define como o Outro do outro lado. O termo “inessencial” carrega esse peso técnico e não é sinônimo de sem importância. Significa aquilo que só existe por referência a um termo principal.
A frase não é diagnóstico psicológico nem convite à afirmação individual, e essa é a leitura que mais circula em versões reescritas dela. Beauvoir não está dizendo que falta autoestima a alguém, nem que a saída seja cada mulher decidir se valorizar. A palavra que ela usa é situação, e situação é o conjunto de condições materiais, jurídicas, econômicas e culturais em que uma vida acontece. Por isso a leitura dela sobre a saída também é coletiva, e não uma questão de escolha pessoal bem tomada.
Vale reparar na estrutura da frase antes de guardá-la. Ela tem dois lados, e o primeiro é universal: todo sujeito se põe como o essencial. Beauvoir não está reivindicando algo especial para as mulheres. Está apontando que uma parte das pessoas recebe de graça aquilo que a outra parte precisa disputar.
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