Oscar Wilde disse: “A experiência é simplesmente o nome que damos aos nossos erros” – a reflexão que nasceu de uma piada

Do ponto de vista do texto teatral, a máxima que virou provérbio é a segunda de quatro falas trocadas em uma sala de fumo

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Oscar Wilde estreou "O Leque de Lady Windermere" no St James's Theatre, em Londres, em fevereiro de 1892. (Foto: Reprodução)

A frase de Oscar Wilde aparece em coletânea de citações, em cartão de formatura e em legenda de post sobre recomeço. O sentido que ela costuma carregar é reconfortante: errar não é perder tempo, é acumular experiência. O texto de onde ela vem faz outra coisa. Ela é a segunda de quatro falas rápidas, trocadas entre dois dândis entediados em uma sala de fumo, e a quarta desmonta as três anteriores.

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A peça é “O Leque de Lady Windermere“, que Oscar Wilde estreou em Londres em fevereiro de 1892, e a cena está no ato III, nos aposentos de Lord Darlington. Um grupo de homens bebe depois que o clube fechou. Cecil Graham provoca Lord Augustus Lorton, chamado por todos de Tuppy, sujeito mais velho, de cabelo tingido, prestes a se casar de novo. É ele o alvo.

CECIL GRAHAM: Isso é um grande erro. Experiência é uma questão de instinto sobre a vida. Eu tenho. Tuppy não. Experiência é o nome que Tuppy dá aos próprios erros. É só isso. [Lord Augustus olha em volta, indignado.]

DUMBY: Experiência é o nome que todo mundo dá aos próprios erros.

CECIL GRAHAM [de costas para a lareira]: Não se deveria cometer nenhum.

DUMBY: A vida seria muito monótona sem eles.

A piada tem quatro tempos e cada um faz um trabalho. Cecil ofende um homem presente na sala, e a rubrica de Wilde registra que Lord Augustus se vira indignado. Dumby então generaliza a ofensa, transformando o insulto em observação sobre a espécie inteira, que é a maneira educada de dizer ao amigo que ele foi longe demais. Cecil corta seco: então não se deveria cometer erro nenhum. E Dumby fecha desistindo da moral toda, porque sem erros a vida seria monótona. A frase que sobreviveu é a segunda. Ela sobreviveu porque é a única das quatro que funciona fora da sala.

Há uma camada que só aparece com a peça inteira em mãos, e ela recontextualiza a cena por completo. Enquanto os quatro fazem piada sobre erro, Lady Windermere está escondida atrás da cortina daquela mesma sala. Ela deixou o marido na noite anterior, veio até ali e se arrependeu, e agora ouve tudo. É ironia dramática no sentido técnico do termo: o público sabe algo que os personagens não sabem, e essa diferença de informação produz o efeito. Os homens tratam o erro como assunto de conversa. A três metros deles, alguém está no meio de um.

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Wilde já havia formulado a mesma ideia dois anos antes, em “O Retrato de Dorian Gray“, de 1890, e lá em registro impessoal, na voz do narrador, sem o alvo nem a plateia. As duas versões existem, portanto, e a diferença entre elas é justamente o que separa aforismo de piada de salão.

Nada disso torna a frase pior. Torna-a mais precisa. Ela não afirma que a experiência ensina. Afirma que “experiência” é o nome que se dá ao que já não tem conserto, e faz isso apontando para um homem específico, sentado ali, que provavelmente não achou graça.

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