Quem esperava as redes sociais inundadas por memes, recortes e vídeos de confrontos políticos na noite deste domingo (23) acompanhou uma movimentação muito abaixo do esperado. O primeiro debate presidencial das Eleições 2026, realizado pela Band, ficou marcado pelas ausências de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo). Mas, para além da frustração de quem buscava esse engajamento digital, o esvaziamento do palco revelou a reação de profissionais de imprensa com o descumprimento de regras previamente acordadas e expôs um fenômeno mais profundo: a opção pelo controle absoluto da narrativa digital em detrimento do risco do confronto ao vivo.
FOTOS: Falta de candidatos em debate presidencial quebra tradição histórica iniciada em 1989
Se antes os debates na TV serviam como o grande teste de fogo para os candidatos apresentarem propostas, hoje eles funcionam como a “matriz” que abastece as redes sociais. Sem os principais líderes no estúdio, a produção de memes e recortes no Instagram, TikTok e YouTube perdeu sua principal matéria-prima.
O descontentamento nos bastidores e o desabafo da imprensa
A decisão das campanhas de não comparecer gerou reações de profissionais de comunicação que organizavam o evento. Durante a programação da Band, a âncora Paula Valdez fez um pronunciamento sobre a falta de consideração com o planejamento técnico e o esforço das equipes de jornalismo.
“Me sinto, como jornalista, completamente desrespeitada por esses candidatos”, declarou Paula Valdez, acompanhada pelas comentaristas Deysi Cioccari e Juliana Rosa, que classificaram as ausências como uma atitude prejudicial ao contraditório. O ponto levantado pela imprensa é de que as equipes de campanha de Lula, Flávio e Zema participaram ativamente de reuniões preparatórias desde o início do ano e ajudaram a construir o regulamento.
Nos bastidores, as decisões de última hora quase provocaram mais baixas. O candidato Augusto Cury (Avante) chegou a gravar um vídeo na entrada da emissora anunciando que não participaria do debate em protesto contra a entrevista de Lula na Record no mesmo horário. Cury decidiu entrar no estúdio após conversar com o diretor de jornalismo da Band, Fernando Mitre.
A fuga do risco em nome da blindagem digital
Para quem lidera as pesquisas de intenção de voto, o Datafolha divulgado na última semana aponta Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 33%, o risco de cometer um erro ao vivo supera o ganho de exposição. A assessoria de Lula alegou falta de igualdade de condições para se defender de ataques no primeiro turno para justificar o não comparecimento. A estratégia foi contrapor o debate com uma entrevista gravada exclusiva, exibida pela Record às 20h30.
Flávio Bolsonaro adotou comportamento parecido, condicionando sua presença à do petista. Estrategistas de sua campanha avaliaram que, sem Lula no estúdio, o senador seria o alvo único de todos os concorrentes de direita e centro-direita. Flávio preferiu publicar um vídeo nas redes sociais durante a transmissão do debate na Band, alegando que os candidatos presentes “definitivamente não são meus adversários” e que seu objetivo é debater diretamente com quem está no poder.
A recusa de Lula também desencadeou a desistência de Romeu Zema. A assessoria do candidato do Novo divulgou nota explicando que a data do debate foi alterada do dia 16 para o dia 23 de agosto sob a premissa de contar com a presença de Lula para garantir a pluralidade do encontro. Sem o petista, a equipe de Zema afirmou que a mudança “perdeu o seu propósito inicial” e cancelou a participação.
O eleitor jovem e o consumo fragmentado de política
As ausências frustram uma parcela significativa do eleitorado que valoriza o debate televisivo. De acordo com pesquisa recente realizada pelo instituto Nexus, 86% dos eleitores brasileiros pretendem acompanhar os debates presidenciais de 2026.
O estudo mostra, no entanto, que o formato de consumo mudou. Enquanto metade do eleitorado ainda acompanha as transmissões ao vivo e de forma contínua, a juventude (entre 16 e 24 anos) e o público de maior escolaridade consomem a política pela TV, redes sociais ou por meio de vídeos curtos. Esse público se informa principalmente por meio de memes e de recortes de redes sociais com confrontos diretos e respostas marcantes compartilhados após os eventos.
Ao esvaziarem o estúdio da Band, as campanhas retiraram a matéria-prima que alimenta essa rede de distribuição espontânea, deixando o eleitor jovem sem o principal material de comparação fora do controle das campanhas ensaiadas.
O debate na TV como pilar histórico e o calendário de confrontos
A relevância do debate na TV como pilar da democracia começou em 17 de julho de 1989, data em que a própria Band promoveu o primeiro confronto presidencial ao vivo após quase três décadas de ditadura militar. Naquele ano, o evento ajudou a consolidar a redemocratização e a amadurecer o voto direto de uma geração sem experiência eleitoral, transferindo o peso das campanhas das ruas para as telas de TV.
A prática de evitar os debates de primeiro turno reacende discussões sobre a necessidade de regras mais rígidas para o comparecimento dos candidatos. Enquanto novas diretrizes não são debatidas, o eleitorado tem mais três oportunidades de acompanhar confrontos diretos até o primeiro turno, marcado para 4 de outubro:
- 14 de setembro, às 22h: Pool de veículos “A Hora da Decisão”, consórcio que reúne 11 veículos de imprensa, incluindo CNN Brasil, SBT, Estadão, VEJA, Terra e Metrópoles.
- 27 de setembro, às 21h: Encontro promovido pela Record em parceria com o Estadão.
- 1º de outubro, após o Jornal Nacional: Debate de encerramento do primeiro turno na TV Globo, tradicionalmente o de maior audiência da campanha.
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*Com edição de Luiz Daudt Junior.






